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Cuiabá MT, Quarta-feira, 21 de Outubro de 2020
AMBIENTE
Quinta-feira, 17 de Setembro de 2020, 08h:35

FOGO & DOENÇA

Coronavírus é o inimigo invisível que ronda a região do Pantanal

Nas comunidades localizadas na extremidade final da Transpantaneira, os protocolos sanitários inexistem

VINÍCIUS VALFRÉ
Especial para o DIÁRIO
Divulgação
Rodovia Transpantaneira, onde começa o Pantanal: no fim da estrada, os protocolos sanitários inexistem

O fogo e a fumaça são vistos a distância, mas outro inimigo que ronda o Pantanal do Mato Grosso é invisível.

Apesar da pandemia de Covid-19 ter reduzido o fluxo de turistas dessa época do ano, grupos de visitantes que chegam por ar e terra a partir de centros urbanos podem trazer o novo coronavírus para ribeirinhos que estão a 150 km de um hospital.

Nas comunidades localizadas na extremidade final da Rodovia Transpantaneira, a quase 300 quilômetros de Cuiabá, os protocolos sanitários inexistem.

Idosos convivem sem máscaras e crianças brincam na beira de rios, de onde partem forasteiros em busca dos animais típicos.

A eventual entrada da doença na região de Porto Jofre pode ser devastadora num lugar isolado de equipamentos estatais.

Para serviços médicos e fúnebres depende-se da estrutura de Poconé e Cuiabá. Não raro, nativos enterram entes em jazigos dentro das propriedades rurais.

No Pantanal, predomina a versão de que o vírus não é páreo para o calor de mais de 40°C.

Em bate-papo com a reportagem em uma roda, moradores justificam a falta de máscara.

"Covid não sobrevive aqui não", diz um deles, sem lembrar que o micro-organismo circula no ar e pode ser transmitido num aperto de mão.

A primeira referência médica para assuntos relacionados à covid-19 na região fica no centro de Poconé, cidade de 32 mil habitantes.

Os sinais de que o Brasil vive uma pandemia que matou 3.082 pessoas em Mato Grosso estão em algumas pousadas.

Os visitantes chegam de máscaras de proteção fácil, mas logo se distraem com piscinas e cervejas. O calor que chega aos 45 ºC é um desestímulo à proteção.

A população desconhece casos de infecção nas redondezas, mas quem interage mais intensamente com turistas prefere a cautela.

Em uma pousada visitada pela reportagem, às margens do Rio Cuiabá, em Porto Jofre, a 145 quilômetros de Poconé, luvas e máscaras são exigidas na retirada do café da manhã.

"O coronavírus não me preocupa, eu só uso a máscara por respeito às demais pessoas", disse o engenheiro civil holandês Jean-Paul Middel, 33 anos.

Ele ostentava uma máscara com desenho de um tucano.

O estrangeiro sentiu que era hora de um período fora da Europa e quis que o risco valesse à pena. Pela primeira vez, foi parar no coração do Pantanal.

A doença, no entanto, não faz distinção das vítimas. Em julho passado, um dos líderes da etnia xavante em Mato Grosso, o cacique Domingos Mahoro, de 60 anos, morreu infectado pela doença.

Diabético e hipertenso, o cacique morreu na capital mato grossense após ser transferido do interior do Estado.

Mahoro, que era da aldeia Sangradouro, localizada próxima do município de General Carneiro (442 km a Leste de Cuiabá), era uma importante liderança indígena para a etnia xavante da região.


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