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Cuiabá MT, Quarta-feira, 21 de Outubro de 2020
AMBIENTE
Segunda-feira, 21 de Setembro de 2020, 12h:28

DESTRUIÇÃO & DESCASO

Refúgio de onças em MT tem só um funcionário e R$ 45 mil ao ano

Para cuidar de 109 mil hectares - quase o tamanho da cidade do Rio -, foram destinados R$ 3.600, em 2018, e R$ 9.000, em 2019

FABIANO MAISONNAVE*
Da Folhapress - Porto Jofre, MT
Divulgação
O Parque Encontro das Águas, no Pantanal, é um dos maiores refúgios de onça-pintada do mundo

Quase todo consumido pelo incêndio que devasta o Pantanal, o Parque Estadual (PES) Encontro das Águas, um dos maiores refúgios de onça-pintada do mundo, conta com só um funcionário, não tem sede ou plano de manejo e dispõe de orçamento de R$ 45.120 para este ano - ou R$ 123,6 por dia.

Nos dois anos anteriores, o orçamento foi ainda menor. Para cuidar da unidade de 109 mil hectares, tamanho comparável à cidade do Rio de Janeiro, foram destinados apenas R$ 3.600, em 2018, e R$ 9.000, em 2019.

O pessoal e a estrutura se resumem a um gerente, uma caminhonete, um barco de alumínio, um motor de popa e uma carreta para embarcação.

"Mal dá para deslocar mensalmente uma equipe de Cuiabá para visitar o parque. Não tem plano de manejo, não tem gestão. Isso tudo dificulta", afirma o biólogo Fernando Tortato, que pesquisa as onças da região há dez anos.

"O parque está pegando fogo. Quem eu devo contactar? Qual plano de manejo orienta? Não tem nem por onde começar", indaga o biólogo.

Com base em Porto Jofre (250 km ao Sul de Cuiabá), a observação de onças-pintadas é um turismo caro e que atrai principalmente visitantes estrangeiros.

Um estudo feito por Tortato calculou que, apenas em 2015, as sete pousadas do entorno tiveram uma receita de US$ 7 milhões (R$ 37,7 milhões, no câmbio atual).

Esse valor é 487 vezes superior à soma dos orçamentos do Parque Estadual Encontro das Águas dos últimos cinco anos –R$ 77.295.

O caixa do parque -e do governo de Mato Grosso- poderiam ser reforçados pela cobrança de ingresso, mas o turista não paga para visitar devido à falta de um plano de manejo, explica Tortato.

O PES Encontro das Águas foi criado em 2004 pelo então governador Blairo Maggi.

O decreto previa um prazo de até cinco anos para a elaboração de um plano de manejo, prazo expirou em 2009.

Ao longo dos anos, o parque se tornou um dos cartões-postais mais conhecidos do Pantanal e destino turístico importante.

Além de ser uma das regiões com mais alta densidade de onças-pintadas do mundo (mas não a maior, como tem sido veiculado), os animais se acostumaram com a presença de barcos e de humanos, facilitando a visualização.

Boa parte dos vídeos de onças caçando jacarés e outros animais, comuns no Whats- App, foi gravada ali.

Tido como uma forma sustentável de preservação da espécie, o turismo de observação de onças, no entanto, corre o risco de desaparecer na região por causa do incêndio sem precedentes e ainda fora de controle.

Análise do Instituto Centro de Vida (ICV) estima que, até o último dia 13, 85% do parque havia sido destruído, ou 92 mil hectares.

Duas onças-pintadas foram resgatadas com as patas queimadas. Ainda não há um estudo sobre o impacto do foco na fauna do Pantanal, que já teve ao menos 19% de sua área devastada.

Responsável pela gestão, a Sema (Secretaria de Meio Ambiente de Mato Grosso) informou que o gerente do parque pode acionar técnicos do órgão, policiais militares da área ambiental, Polícia Civil e Corpo de Bombeiros.

"Quando necessário, a gerência utiliza equipamentos, GPS, máquina fotográfica e notebook de uso comum da Coordenadoria de Unidades de Conservação", informou a Sema, por meio de sua assessoria de imprensa.

Sobre o orçamento, o órgão ambiental disse que o Parque Estadual Encontro das Águas receberá R$ 1,4 milhão em compensação ambiental do empreendimento Serra da Borda Mineração e Metalurgia.

A Sema afirma que o plano de manejo, que deveria ter ficado pronto 11 anos atrás, está em andamento, assim como a sinalização e revitalização dos marcos dos limites do parque.

Para o biólogo, uma melhor gestão pública será crucial para enfrentar as mudanças climáticas.

"Com certeza, a gente vai encarar tragédias como esta no futuro. A gente tem de estar preparado, tem de ter o respaldo do Estado."

NÚMEROS

- R$ 123,60
É quanto o PES Encontro das Águas tem ao dia para sua manutenção neste ano

- 85%
É quanto o fogo destruiu dos 109 mil hectares que tem o parque, tamanho comparável à cidade do Rio de Janeiro

- US$ 7 milhões
Foi quanto turistas deixaram em sete pousadas da região em 2015. O valor, equivalente a quase R$ 38 milhões hoje, é 487 vezes maior que a soma do orçamento do PES nos últimos cinco anos

*O repórter Fabiano Maisonnave viajou ao Pantanal com o patrocínio da iniciativa ObservaMT


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