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Cuiabá MT, Terça-feira, 27 de Outubro de 2020
ARTIGO
Quarta-feira, 14 de Outubro de 2020, 08h:52

SÉRGIO CINTRA

Dia 15

Vamos transformar uma pessoa por vez, vamos ensinar cidadania aos pequeninos

Depois de quarenta anos em sala de aula, como não refletir sobre esse poema de Drummond: “O professor disserta sobre ponto difícil do programa. / Um aluno dorme, cansado das canseiras desta vida. / O professor vai sacudi-lo? / Vai repreendê-lo? / Não. / O professor baixa a voz,/Com medo de acordá-lo.”. Este dia 15 de outubro será único para nós educadores, jamais haverá outro igual, porque a pandemia obriga-nos a refletir sobre coisas e fatos de um cotidiano que não mais existe. Ano atípico, no qual não houve nem gritos, nem risadas, nem bocejos e nem espantos advindos das descobertas. Só a sala de aula muda, carteiras vazias e sombras (ainda que de relance) de jovens passantes: milhares de escolas-fantasma (talvez algum colega de área prefira “escolas-fantasmas”).

Mudamos nossa rotina, aprendemos a falar para paredes e câmeras, usamos mais tecnologia, abusamos das perguntas retóricas, elaboramos mais questões inéditas et cetera: enfim, trabalhamos muito mais que o habitual (e, infelizmente, muitos de nós ou perderam o emprego ou tiveram os salários reduzidos). “Que fazer, exausto,/ em país bloqueado, /enlace de noite raiz e minério?” (Drummond, em “Áporo”). Se as condições de trabalho (tanto na iniciativa privada quando nas escolas públicas) são caóticas em tempos normais, imagine em tempos pestilentos. É certo que parte de nós já retornou às salas de aula, mesmo com os riscos inerentes a essa volta; afinal, o Enem e vestibulares pululam por aí. Drummond, vamos ter de acordar os dorminhocos.

Mudamos nossa rotina, aprendemos a falar para paredes e câmeras, usamos mais tecnologia, abusamos das perguntas retóricas, elaboramos mais questões inéditas et cetera: enfim, trabalhamos muito mais que o habitual

Rubem Alves, em “Estórias de quem gosta de ensinar”, vaticina: “Enquanto a sociedade feliz não chega, que haja pelo menos fragmentos de futuro em que a alegria é servida como sacramento, para que as crianças aprendam que o mundo pode ser diferente. Que a escola, ela mesma, seja um fragmento do futuro...”. Acredito que tenhamos que refletir sobre o ensino que queremos; mais mitocôndrias ou mais calor humano; mais teorema de Pitágoras ou mais  solidariedade; mais verbos intransitivos ou mais abraços; mais 3ª lei de Newton ou mais sorrisos; mais reações químicas ou mais empatia; mais acidentes geográficos ou mais ósculos; mais 2ª Guerra Mundial ou mais amor; mais cogito, ergo sum ou mais sentimento?

Se educadores é por que acreditamos que podemos ajudar a construir um mundo melhor, talvez “um mundo” seja muito grande, como grande é o Brasil, e Mato Grosso, e Cuiabá; então, vamos apenas colocar um “tijolinho” nessas paredes gigantescas: vamos transformar uma pessoa por vez, vamos ensinar cidadania aos pequeninos e eles farão a transformação que tanto sonhamos, como diria Paulo Freire: “Aos professores, fica o convite para que não descuidem de sua missão de educar, nem desanimem diante dos desafios, nem deixem de educar as pessoas para serem ‘águias’ e não apenas ‘galinhas’. Pois, se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela, tampouco, a sociedade muda”.

SÉRGIO CINTRA é professor de Redação e de Linguagens.
sergiocintraprof@gmail.com  


1 COMENTÁRIO:







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José Maria  15-10-2020 10:52:19
Sábias palavras professor Sérgio Cintra assim como as citações de Drumond e Freire. Se não tivermos ternura no ensinar e relacionar com nossos alunos que cidadãos estaremos formando? O universo , Brasil, MT, Cuiabá, GO e Mineiros querem e merecem dias melhores. Se não for pela educação através dos professores e demais agentes educacionais de que outra forma será? Abraços e até breve.

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