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ARTIGOS
Quinta-feira, 03 de Janeiro de 2019, 18h:01

AUREMÁCIO CARVALHO

Governo militar?

Chama a atenção, o número expressivo de militares, a maioria do alto escalão das forças armadas (4 estrelas), mesmo que da reserva, que o presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) escolheu para seu Ministério e postos chaves. Talvez, seja um recado à classe política, “rebaixada a cargos secundários”, escolhendo a dedo uma tropa para bater continência nos ministérios do próximo governo. Quase um terço das 22 pastas do presidente eleito, serão ocupadas por integrantes das Forças Armadas e outros cargos importantes. O governo Bolsonaro terá mais ministros com formação militar no primeiro escalão do que o governo do general Castelo Branco (1964-1967), que inaugurou o ciclo de poder após o golpe de 1964. Além do recado de que a velha política acabou - o famoso e indispensável, nos últimos vinte anos ao menos, “do toma lá, dá cá”, e o fim da corrupção e da “desordem”, tal fato não chega a representar, como pensam muitos, a volta aos sombrios tempos da Ditadura de 64, esta sim, o massacre da liberdade política e de opinião e imprensa. Os eleitores mais antigos se lembram de abrir o Estadão, a Folha ou outro jornal, ou a Veja, e deparar com poemas ou receitas de bolo, na primeira página. Era a censura oficial, com representantes até nas redações. Esses tempos não voltam mais. Se voltarem, será o desastre, a guerra civil, dado o avanço democrático atual, apesar dos pecados. Estudiosos tem manifestado a opinião de que a indicação de militar não significa necessariamente um risco de autoritarismo, mas pode indicar dificuldade nas articulações — já que os militares são mais acostumados à ordem do que à barganha. Abre-se, entretanto, uma lacuna a ser preenchida pelo próprio presidente, que terá que intervir pessoalmente, em decisões conciliadas politicamente, para dar a impressão de novos tempos. “Não há que se comparar militarismo com um governo cheio de militares. O tempo é outro, as questões são outras, e Bolsonaro foi eleito pelo voto direto. Isso o distingue do ciclo militar entre Castelo Branco e Figueiredo. Bolsonaro não foi eleito por ser um capitão do Exército. Foi eleito, sobretudo, pelo antipetismo”, afirma o professor de história política e contemporânea da Universidade de Brasília (UnB), Antônio José Barbosa. A eleição refletiu o medo de uma “venezuelização” do país e o retorno - perdoado e triunfal - de Lula e sua tropa, com Hadad no poder - um poste teleguiado, como Dilma. A sociedade brasileira é conservadora. O próprio presidente também. É consenso que Bolsonaro explorou sua origem militar. Nos bastidores das Forças Armadas acredita-se que Bolsonaro explorou, diante da caótica situação do país, o prestígio que os militares conquistaram no passado, e o saudosismo, para se eleger. “Houve uma transferência de votos para Bolsonaro, mas não queremos a responsabilidade de estar junto”, garante um oficial graduado da Marinha “in off”. Segundo ele, a força quer exercer seu papel constitucional, “sem interesse, estratégia ou projeto de assumir uma gestão” no governo federal. “Existem oficiais da reserva, que, como cidadãos, participarão do governo. Se alguém da ativa for escolhido, pode pedir licença por dois anos. Se passar disso, é transferido automaticamente para a reserva”, explica. Notas-se que as indicações foram por capacitação técnica e conhecimento do assunto, algumas, duvidosas, das “bancadas” - do agronegócio e evangélica. Esta francamente querendo “converter” o país, caso da “pastora ministra”. O Brasil é mesmo um país “laico” - CF?. Já se aventa a hipótese de que, se o atual escândalo do assessor do Senador eleito e filho “porta voz” do pai, relativo à movimentação ”atípica” e expressiva de dinheiro, tivesse surgido na campanha, Bolsonaro teria dificuldades em se eleger tão facilmente, ou se elegeria “batendo na trave”. Ciro Gomes talvez levasse o cargo. A fuga do personagem principal (assessor) em se explicar às autoridades vem causando visível mal estar na equipe ministerial (vice-presidente e Sérgio Moro, por exemplo) e lançando dúvidas na lisura do presidente, mesmo que indiretamente. Não se explicado o episódio, o discurso de mudanças terá dificuldades extremas de se consolidar. A oposição não deixará de aproveitar a chance para uma CPI no Senado, por certo. O maior perigo, penso, será o comportamento dos filhos do presidente, pelo que vêm demonstrando, de arrogância e desprezo à democracia; falas intempestivas e agressivas. Um senador, o outro deputado federal, ambos com votações expressivas. Portanto, em postos chaves, politicamente. Vão fechar o STF - com “um cabo e um soldado”? O Congresso, quando não aprovar demandas do Executivo/pai? O senador já age como Ministro das Relações Exteriores, visitando autoridades americanas, falando em mudança da embaixada de Tel Aviv para Jerusalém, como fato consumado, desconvidando autoridades para a posse do pai - Venezuela, Nicarágua, Cuba. Caberá ao “novo Congresso” - eleito nos ventos da mudança, mostrar diferença no agir politicamente. Será o teste de fogo para o novo governo e para eles mesmos, pois se prevalecer o atual “modus operandi”, o Brasil foi vítima, mais uma vez, de estelionato eleitoral. * AUREMÁCIO CARVALHO é advogado e sociólogo auremacio.carvalho@bol.com.br

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