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Cuiabá MT, Domingo, 12 de Julho de 2020
ARTIGOS
Quarta-feira, 02 de Janeiro de 2019, 17h:18

ROBERTO B. DA SILVA SÁ

Viagem ao passado

Escrevo o meu primeiro artigo de 2019 pensando em um mito... O momento pede essa reflexão. Escrevo pensando em Luiz Gonzaga, o Rei do Baião; mais especificamente, pensando em “Vida de um viajante”, canção registrada no disco “Gonzagão e Gonzaguinha: a vida do viajante”, de 198l, oportunidade em que dividiu diversos palcos com o filho Gonzaguinha, ícone de nossa música de protesto, principalmente, protestos contra a ditadura militar – nascida do golpe de 64 – e contra as condições de vida miserável do trabalhador brasileiro. Todavia, minhas lembranças não querem dizer concordância com tudo que cantasse o mito. Na própria “Vida de um viajante”, se o eu-lírico andava “por este país, para ver se um dia” descansava feliz, hoje, podendo ter a oportunidade de viajar de carro para o Nordeste, tenho uma certeza: mesmo “guardando recordações”, e fazendo “amigos pelas terras por onde passei”, não terei tempo para me desassossegar do que acabei de ver, principalmente em terras pernambucanas, lugar onde nasceu Gonzagão. Mas o que vi que me inquietou? Vi a permanência do pior do que houve em nosso passado colonial. Em outras palavras, na entrada do 19º ano, do século XXI, o viajante que passar por grande parte de estados, principalmente do Nordeste, verá cenário ainda parecido com o que foi montado para sustentar a monocultura da cana de açúcar, que se constituiu no segundo ciclo de nossa economia, marcado pelo latifúndio e coronelismo; logo, pelos atrasos econômico e social de quem serviu apenas como mão-de-obra. Ainda que a plantação da cana tivesse seu início a partir da metade do século XVI, sua pujança ocorreu no XVII. Depois, ela concorreu com outros ciclos, como o do ouro, no século subsequente, centrado mais em Minas, mas nunca deixando de existir. Recentemente, por conta da produção de etanol, as plantações de cana foram revigoradas. Contudo, se as plantações de cana foram revigoradas, o mesmo não ocorreu com os trabalhadores dos canaviais, pelo menos não em conformidade com o que devemos considerar como padrão básico da civilização hodierna. Como sabemos, em nosso passado, o vigor econômico dessa atividade agrária foi sustentado pelas mãos dos escravos trazidos, a força, da África. As condições de sobrevivência daqueles seres humanos, vistos e tratados como inferiores, já foram e ainda são contadas por historiadores e cantadas por poetas, como Castro Alves. Pois bem. Agora, volto a falar do que vi – hoje – pelas terras por onde passei. Se, oficialmente, a escravidão no Brasil foi abolida, as condições dos trabalhadores dos gigantescos canaviais espalhados pelos campos brasileiros ainda estão distantes do razoável. Infelizmente, estão bem próximas do panorama das casas grandes e senzalas do longo e cruel período colonial. É nítida a extrema pobreza do ser que habita tais espaços. São pretos perdidos em verdes mares de cana a perder de vista. São pretos morando em comunidades – que lembram os quilombos – desprovidas de itens que possam nos fazer crer que estamos no século XXI. Nem mesmo uma ou outra parabólica e/ou um ou outro celular conseguem desfazer o quadro da tragédia exposta. Assim, por mais absurdo que possa parecer, as degradantes condições daquelas urbanas negras empacotadoras das Casas Bahia, cantadas sabiamente por Chico César em “Mama África”, ainda parecem privilégios dentro de um quadro inaceitável de miséria de tantos brasileiros, repito, em plena entrada do 19º ano do séc. XXI. Quanto atraso! Urge superarmos nosso passado. * ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ, Dr. em Jornalismo pela USP/Professor da UFMT rbventur26@yahoo.com.br

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