NA HORA
O jornal de Mato Grosso Facebook twitter youtube

Cuiabá MT, Segunda-feira, 30 de Novembro de 2020
BRASIL
Quarta-feira, 17 de Junho de 2020, 00h:00

PANDEMIA

'A gravidade da pandemia não foi compreendida', diz diretor do Instituto Butantan

Dimas Covas diz que prefeitos querem escolher a cor do plano de flexibilização da quarentena em SP e que fechar de novo pode não ter a mesma eficácia

Em plena fase de preparação para testar vacina contra o coronavírus, o diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, afirma que uma nova quarentena, nas cidades onde foi feita flexibilização do isolamento, pode não ter a mesma eficácia. Segundo ele, quando o vírus volta a circular, a taxa de transmissão cresce rapidamente. Porém, quando a quarentena é retomada, o vírus demora a ser contido. Para Covas, a disputa política em torno da pandemia no Brasil é inusitada, atrapalha, e a campanha feita por bolsonaristas contra a vacina a ser testada pelo instituto em parceria com a empresa chinesa Sinovac "não tem o menor sentido".

 

P - Quais são os próximos passos da testagem da vacina que será feita pelo Instituto Butantan com a empresa chinesa Sinovac?

DIMAS COVAS - O estudo deve começar o mais rapidamente possível. Os critérios da testagem, com 9 mil voluntários, começaram a ser acordados agora, depois da assinatura do convênio. Dependemos ainda da regulamentação, que deve ser submetida à Agência Nacional de Vigilância Sanitária e à Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep). Este é um acordo com uma companhia chinesa privada, não é estatal. É uma das principais empresas de biotecnologia do mundo, com ações negociadas na Nasdaq (uma das bolsas de Nova York). A Sinovac foi a primeira a começar a desenvolver a vacina contra o coronavírus porque a China foi o primeiro país a ser afetado. Uma das vantagens é que tecnologia já é usada pelo Butantan, em outras vacinas, e não precisa ser certificada.

 

P - Quais são as vacinas já feitas pelo Instituto com essa tecnologia?

DC - A tecnologia tem como base a cultura em células Vero, já aprovada para uso na produção de vacinas pela Organização Mundial de Saúde. Com base nela desenvolvemos a vacina da raiva e, mais recentemente, a da dengue, que está em fase final de aprovação. Temos uma fábrica novinha aguardando a liberação da vacina da dengue para entrar em produção. O estudo para a vacina do coronavírus tem um potencial enorme, conforme demonstrado nas fases anteriores de testes. Com esse acordo, entramos na corrida mundial. Temos mais duas vacinas na fase de testes em larga escala, a Fase 3, uma da norte-americana Moderna, com tecnologia totalmente nova, e outra da AstraZeneca, baseada em adenovírus. Precisamos ter demonstração de eficácia e este estudo, com nove mil voluntários, é fundamental. Estamos num momento propício para o teste, porque ainda estamos na fase de epidemia. Na China, essa fase já acabou. Temos pressa, muita pressa.

 

P - Como serão escolhidos os voluntários?

DC - Eles serão escolhidos no país inteiro e vamos buscar parceria dos 16 centros clínicos que participaram dos estudos da vacina da dengue. Depende apenas da negociação com as universidades. A escolha é feita por extrato, com base em exclusão. Quem já foi infectado, por exemplo, não pode ser voluntário. Seguimos as normas internacionais. Sempre tem um grupo de controle, que recebe o placebo, e outro que recebe a vacina. O voluntário não vai saber se é placebo ou vacina. Os critérios estão sendo acordados agora e serão regulados pela Anvisa.

 

P - O senhor teme não conseguir voluntários em número suficiente? Há uma campanha de bolsonaristas na internet contra a vacina e a parceria com a China.

DC - Vi isso. Dizem que o Brasil está virando lugar de teste de chinês. Isso não tem o menor sentido, estamos no meio de uma epidemia e espero que a vacina não se torne um tema político. Nossa experiência com a vacina da dengue foi muito boa em termo de recepção de voluntários dispostos a testes. Quando se tem uma infecção grave, as pessoas querem participar, querem ajudar. Já estamos recebendo muitas candidaturas inclusive. Mas não basta querer participar, tem que se adaptar aos critérios.

 

P - Essa movimentação nas redes sociais preocupa?

DC - O problema político foge a qualquer controle. Essa disputa política em torno da epidemia é inusitada. Vai entrar para a história. Sem dúvida ela agrava muito o combate à epidemia. Lembra a revolta da vacina, nos primórdios de desenvolvimento das vacinas pelos cientistas. Mas temos um dos maiores programas de imunização do mundo. O forte do SUS é a imunização. São mais de 20 vacinas distribuídas gratuitamente. Uma vacina adicional deve ser bem vista. É de interesse nacional. A politização é preocupante sim. O movimento antivacina tem ocorrido com frequência, têm pessoas que acham não natural, que acham que faz mal. Mas o que temos de pensar é na importância da vacina neste momento. É a única medida que pode acabar com a epidemia. É uma grande esperança, não tem outra. Sem ela, ficaremos reféns do coronavírus.

 

P - Em São Paulo e em vários estados a flexibilização da quarentena começou num momento ainda de grande transmissão. Isso pode fazer com que a epidemia se prolongue?

DC - Se seguir este ritmo, com certeza ela vai chegar até outubro. A vacina que estamos desenvolvendo será para as próximas ondas epidêmicas, que poderão ser prevenidas. Qualquer uma das três vacinas que estão sendo testadas têm chance.

 

 

P - A reabertura do comércio em São Paulo foi feita na hora errada?

DC - É preciso dizer que o plano do governo de São Paulo foi bem concebido com a participação dos melhores especialistas. O problema é como os municípios entendem e como aplicam. Fiz um alerta aos municípios que entenderam a flexibilização como luz verde geral e abriram de forma totalmente descontrolada. Em Ribeirão Preto, houve uma comemoração que parecia final de Copa do Mundo. Em Campinas, o centro ficou lotado. Na Feirinha da Madrugada, em São Paulo, teve aglomeração. Na Baixada Santista teve fila quilométrica do lado de fora do shopping. Houve um retorno de forma descontrolada, com grande número de pessoas de volta à circulação. A loja tem critério, entra um de cada vez, os funcionários usam máscara, oferecem álcool gel. O problema está do lado de fora, com o fluxo de pessoas para ir às lojas. Quando isso acontece, o vírus volta a circular. O que tivemos de ganho com o isolamento, que já foi muito duro, a gente perde e a taxa de contágio pode subir, levando a uma segunda onda epidêmica.

 

P - Retornar à quarentena será mais difícil?

DC - Alguns prefeitos já perceberam isso ao tentar retornar. Como convencer as pessoas a voltar tudo para trás porque está aumentando as infecções e os casos de internação? É muito difícil a população ficar no meio da indecisão. Elas não entendem, já não entendem a epidemia. Na classe média há um entendimento, mas e quem mora nas periferias e têm de sair para ganhar o pão? É uma situação complexa também do ponto de vista social. Isso exige muita coordenação, orientação e envolvimento da comunidade como um todo. Precisamos ter uma atuação nas periferias, onde a epidemia está acontecendo de forma mais grave. Ajudar as pessoas a entenderem a importância do isolamento. Se isso não acontecer, ocorre o descontrole. As pessoas não entendem que a epidemia não afeta apenas determinada região. Ela afeta todo mundo. A solidariedade tem que ser conjunta.

 

P - Há um embate entre os cientistas e os políticos em São Paulo?

DC - O Plano São Paulo é um avanço e tem de ser visto como uma solução interessante. Foi criado um termômetro da epidemia. Uma pessoa comum pode entender que, se a cidade em que mora está no vermelho, a situação está crítica. Vermelho é perigo. Se está no laranja, é preciso adotar medidas. A quarentena não foi abolida, está mantida e foi organizada. O paciente pode ter mais febre ou menos febre, mas está doente. O problema é que muitos prefeitos ficam brigando para definir a cor do termômetro. "Eu não quero estar no vermelho". Não enxergam a mensagem que é a de trabalhar junto. A questão não é brigar para ir para o amarelo ou laranja ou dizer que está sendo prejudicado por estar no vermelho. As cores definem a situação. Mas as pessoas acham melhor ignorar a febre, ir direto para o amarelo, para o verde. O vírus vai adorar.

 

P - Houve erro na capital paulista, que é uma exportadora do vírus? Na região da rua 25 de Março, onde são feitas as compras para abastecer o interior, as ruas estão lotadas.

DC - São Paulo não tem fronteira, não tem porteira. Se tivessem obedecido a forma como foi pensado… Mas não houve obediência. Era tudo coordenado, por setores, para não ter aglomeração. Saímos num momento muito interessante, mas não tem como fiscalizar e controlar o fluxo de pessoas. Pode controlar dentro do shopping, que fecha as portas quando a capacidade atinge 20%. Mas e do lado de fora? Quem controla? Quem impede as pessoas de ficarem três horas na fila para entrar?

 

P - De quem é a responsabilidade?

DC - É de todo mundo. O prefeito tem que fazer sua parte, mas o principal é que temos de atuar como sociedade. O comerciante está sofrendo com prejuízo. As pessoas em suas casas se sentem impotentes: como fazer o vizinho entender que ele tem que fazer a parte dele? Há uma discussão sobre a liberdade de cada um, mas vejam a quantidade de pessoas que estão morrendo. São mais de 40 mil, mais gente do que a população da maioria das cidades brasileiras. A gravidade da pandemia não foi compreendida.

 

P - E a responsabilidade das autoridades?

DC - Temos um discurso dúbio de autoridades que acham que a epidemia é um vírus chinês, criado para transformar a China em potência. Na cabeça das pessoas, isso fica ruim. Na Avenida Paulista tem um time a favor e outro contra. Como as pessoas vão entender isso lá em Paraisópolis [segunda maior comunidade de São Paulo]? A questão política afeta muito. Os países que conseguiram coordenar fizeram a quarentena em uníssono, todos na mesma direção. Num país com a complexidade e as deficiências do Brasil, não tem como combater a epidemia sem coordenação, sem diretriz central. A cloroquina vai resolver? Você só vai ter uma gripezinha se tiver boa saúde? Isso tudo leva à descrença em relação à gravidade da epidemia. Perde o controle. A ciência indica, mas até a ciência no Brasil tem sido questionada.

 

P - São Paulo vai fazer uma grande testagem, com mais de 44 mil pessoas. Qual importância disso neste momento?

DC - A testagem é um dos pilares, mas não determina a direção da epidemia. O teste ajuda, mas não muda o curso de infecção. É uma fotografia de momento. O que muda é a quarentena domiciliar, o mapeamento dos contatos. E isso, aqui, é muito incipiente. O que você vai fazer com essa informação? Mais importante que o teste é identificar as pessoas logo no início dos sintomas - 20% delas vão ter febre, dor de cabeça, tosse. Essas pessoas devem ser consideradas infectadas mesmo sem teste, precisam se isolar e isolar também quem esteve com elas. Se a gente conseguisse isolar os sintomáticos e colocar em quarentena, já começaria a reduzir a transmissão. Isso foi feito no Brasil de forma muito heterogênea. A maioria não atuou neste primeiro pilar. O segundo pilar é a assistência médica. São Paulo fez hospitais de campanha, dobrou o número de UTIs. Mas se a epidemia continua, por maior que seja a capacidade, ela será colocada em xeque.

 

P - Se for preciso fazer uma nova quarentena, ela terá a mesma eficácia?

DC - O prefeito de Ribeirão Preto, município que flexibilizou e voltou para o alerta vermelho, tem feito apelo dramático para a população voltar a ficar em casa. Minha dúvida é se as pessoas vão entender isso. Essa é a dúvida dos próximos dias. Além dessa dificuldade, tem a questão da propagação do vírus. Quando ele volta a circular, a taxa de transmissão aumenta em torno de dez vezes. Mas quando a população volta a se isolar, a queda não é na mesma proporção, é muito mais lenta. A doença se propaga rapidamente e, para contê-la, é muito mais difícil. Na capital paulista, essa taxa de transmissão é uma das mais baixas. Cada infectado transmite para mais um indivíduo. Mas isso pode mudar, esse é o dilema.

 

P - Podemos então enfrentar um problema maior?

DC - O problema é a descoordenação política. Se tivéssemos união nacional contra o vírus, com ações coordenadas pelo governo federal, seria diferente. Tenho colegas médicos que entraram para o debate ideológico. É muito difícil entender, parece que estamos discutindo religião ou futebol.

 


Comentários







Preencha o formulário e seja o primeiro a comentar esta notícia

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site. Clique aqui para denunciar um comentário.




ENQUETE
Você acha que o Cuiabá Esporte Clube tem chance de acesso à Série A do Brasileirão?
Sim
Não
Ainda falta estrutura
Precisa investir no elenco
PARCIAL