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BRASIL
Terça-feira, 17 de Março de 2020, 00h:10

Contra epidemia, Brasil precisa parar, afirmam esp

VINICIUS TORRES FREIRE
Da Folhapress - São Paulo

Epidemiologistas ouvidos pela reportagem afirmam que o governo deveria adotar em breve providências a fim de impedir ou limitar em grande medida aglomerações e movimentações de pessoas, a exemplo do que fizeram países asiáticos e agora a Itália para atenuar a epidemia de Covid-19.

Isto é, seria necessário suspender aulas, espetáculos esportivos e artísticos, cultos religiosos e qualquer grande reunião e restringir a presença física em locais de trabalho e a circulação pelas cidades. A medida deveria ser implementada daqui a 7 e no máximo dentro de 20 dias, na visão de médicos estudiosos da biologia e da matemática da disseminação de doenças infecciosas.

Em países como Hong Kong, Singapura e Japão, o ritmo de crescimento do número de casos de Covid-19 é bem inferior ao do registrado em grandes países europeus. Na Coreia do Sul, apesar de uma explosão inicial de contágio, o país está perto de estabilizar o número total de casos.

"Não teria muita dúvida de dizer que foi a intervenção. Fizeram um esforço brutal, inédito", diz Claudio Struchiner, a respeito das medidas adotadas em certos países asiáticos. Ele é professor de matemática aplicada na FGV-RJ, graduado em medicina na UFRJ e doutor em dinâmica populacional de doenças infecciosas pela Universidade Harvard.

"Quando se comparam a velocidade do ritmo de casos totais, as curvas, entre países asiáticos e a Europa, parece evidente que a diferença se deveu às medidas drásticas dos governos", diz Mirian Dal Ben, infectologista do Hospital Sírio-Libanês que também trabalha com modelos matemáticos.

Dal Ben e Struchiner concordam que ainda se sabe pouco do ritmo da evolução dos casos no Brasil ou de como se dá o ritmo de contágio local (excluídos casos importados e correlatos). Acreditam, porém, que não será prudente esperar dados consolidados: é melhor observar a história da doença e o resultado das medidas eficazes de outros países, antes que seja tarde.

"Se nada for feito, a coisa poderá ser terrível. Vamos ter uma epidemia, ela vai crescer. Já não estamos na fase de contenção, de evitá-la, mas de suavizar efeitos, reduzir o número de pessoas atingidas", diz Roberto Kraenkel, professor do Instituto de Física Teórica da Unesp e estudioso do comportamento de epidemias.

Dal Ben diz que existe uma janela de tempo para a adoção das medidas restritivas. "Nem pode ser tão cedo, pois a restrição não pode durar muito, nem tão tarde que a epidemia esteja descontrolada e os hospitais sobrecarregados."

Kraenkel explica que o início da epidemia é o instante mais crítico. "Se for muito forte, pode haver um número de casos tal que o sistema de saúde não aguente."

Quando então deve começar a restrição, o "lockdown"? "O mais cedo possível", diz Kraenkel. Para Dal Ben, daqui a duas semanas ou dias além disso. Struchiner concorda em parte. Acha que a restrição deve começar em uma semana, duas no mais tardar.

Ele acha mesmo que, em tese, é possível um esforço de erradicação do vírus. Isto é, um "lockdown" que durasse o tempo da incubação da doença com o período de contágio, uns 25 dias. Seria uma medida de interrupção da cadeia de contágio.

"O coronavírus da Sars, em 2003, foi erradicado", diz.

Dal Ben e Struchiner lembram também que o número de casos já é maior do que aquele que aparece nas estatísticas. Possivelmente, a discrepância entre o que se sabe e o número de doentes é maior do que na China ou em outros países da Ásia, onde os controles e testes foram maiores.

Na avaliação do epidemiologista Expedito Luna, professor do Instituto de Medicina Tropical da USP, as medidas adotadas pelo governo têm sido claras e têm evitado pânico.

Para ele, é positivo o exemplo da Coreia do Sul, que faz testagem ampliada para diagnóstico do novo coronavírus. O país, apesar de ser o quarto com mais casos identificados (7.979, atrás de China, Itália e Irã), tem apenas 66 mortes (o Irã, com 11.364 casos, tem 514).

"É uma estratégia interessante, mas o Brasil não teria essa capacidade. O diagnóstico de doenças infecciosas, como dengue, zika e influenza, é uma velha debilidade da rede pública de saúde."

Ainda assim, Luna avalia como positivas as medidas tomadas pelo governo, como estímulo ao isolamento domiciliar de pessoas com sintomas e de estrangeiros que chegam ao país. "Ainda estamos tateando. O clima tropical também molda a transmissão de agentes por via respiratória. Tradicionalmente não há epidemias de gripe por aqui do mesmo porte dos países temperados."

Em São Paulo, maior estado e centro de trânsito de passageiros internacionais do país, as discussões são dominadas por ora por David Uip, infectologista e ex-secretário estadual da Saúde, com o aval do governador João Doria (PSDB).

Até aqui, Uip tem dito que não é preciso tomar medidas draconianas. Doria disse que seguirá a opinião da área de saúde e que não teme críticas caso as medidas tomadas se mostrem insuficientes.

A depender do cenário, o Ministério da Saúde não descarta medidas como restrição de voos e fechamento de fronteiras, diz o secretário de vigilância em saúde do Ministério da Saúde, Wanderson Oliveira, mas por ora essas medidas estão descartadas. 

 


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