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BRASIL
Quinta-feira, 08 de Abril de 2021, 00h:00

PANDEMIA

Doações de comida despencam na pandemia

Com o avanço da crise sanitária, novas pessoas passaram a precisar de auxílio para fazer suas refeições

Da Folhapress – São Paulo e Rio

No galpão da Ação da Cidadania, na Gamboa, 600 cestas básicas se perdem num imenso espaço diante da escassez de doações. Quase ao mesmo tempo, a pouco mais de um quilômetro dali, havia uma fila com dezenas de pessoas que se aglomeram, em tempos de pandemia, em frente à Biblioteca Parque, na Avenida Presidente Vargas. O motivo não é a procura por livros, mas a busca por quentinhas distribuídas, na hora do almoço, pelo governo do estado.

Nos 28 anos, que se completa este mês, à frente de campanhas contra a fome, a Ação Cidadania constatou que a ajuda de alimentos minguou. Se no ano passado foram distribuídas 80 mil cestas por mês, a campanha agora só consegue 8 mil a cada 30 dias.

Presidente do Conselho da Ação da Cidadania, Daniel de Souza, de 55 anos, convoca a sociedade civil a fazer doações para a compra de alimentos. Ele, que toca o legado do pai, o sociólogo Herbert de Souza, na luta contra a fome, prevê que, ao fim da pandemia, quando as pessoas já estiverem vacinadas, a fome se intensifique ainda mais, por conta do desemprego.

“A busca de doações para amenizar a dor de quem sente fome é um trabalho de resistência, ao mesmo tempo que percebemos um retrocesso de 2017 para cá. No ano seguinte, tivemos o desmonte do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) pelo governo federal, quando, em 2014, tínhamos saído do mapa da fome elaborado pela Organização das Nações Unidas (ONU). Não foi fácil essa passagem. Agora, a sociedade civil precisa voltar a com as ações de solidariedade doando recursos e quilos de alimentos para os mais carentes”, ressalta Souza. “O trabalho da Ação da Cidadania é simbólica, porque há a necessidade de políticas públicas”.

Segundo ele, a queda na arrecadação de doações e alimentos se deve ao cansaço da população pelo longo período de isolamento imposto pela pandemia, além de outros fatores:

“Existe cansaço, crise e desesperança. A redução é percebida por todas as ações de combate à fome. Chama a atenção o caso de pessoas que antes eram doadores e, atualmente, pedem uma cesta básica. O empobrecimento é geral. São empresas fechando, pessoas desempregadas, gente morrendo. O que tem mantido as nossas doações é a fidelização por parte de empresários. Hoje mesmo (terça-feira), o empresário Roberto Medina nos procurou para saber como pode ajudar. A Latam está levando as cestas básicas para todos os estados e a Vale do Rio Doce está disponibilizando os trens. É isso, a locomotiva não pode parar”, explica Souza.

 

AÇÃO - Como o Ação da Cidadania, o Mesa Brasil Sesc RJ também tem uma abrangência nacional na distribuição de alimentos, sendo que foca no aproveitamento dos produtos, sem desperdício. No Rio, com a pandemia, surgiram programas como o Movimento União Rio, com 70 organizações parceiras, e o “Tem Gente Com Fome, Dá de Comer”, com uma campanha que conta com artistas para impulsionar as colaborações por parte da sociedade civil. Esta última se impôs uma meta: atender mais de 222 mil famílias cadastradas no Rio e em outros estados.

“Parece que só reagimos diante do medo do novo. Depois, apesar da triste contabilidade das mortes que se avolumam dia após dia, nos acostumamos com a dura realidade. Mas não podemos! Com a fome, muitas dessas pessoas em extrema vulnerabilidade social acabam impulsionando um macabro ciclo vicioso: vão às ruas para tentar conseguir comida e acabam contraindo e multiplicando o coronavírus, agravando a crise sanitária”, afirma Luiza Serpa, diretora do Instituto Phi, que faz a gestão da campanha do União Rio de apoio a comunidades.

Regina Pinho, diretora do Sesc Regional, também cita que a pandemia deu visibilidade aos invisíveis: “Desde 2020, por conta dessa situação completamente atípica, reforçamos e ampliamos o nosso fazer ao longo de duas décadas. Com a pandemia e o desemprego, as diferenças sociais e as carências básicas agravaram-se, tornando-se ainda mais visíveis”.

 

CESTAS BÁSICAS - Em São Paulo, o G10 Favelas (iniciativa formada por líderes das 10 maiores comunidades do país, que juntas movimentam R$ 7 bilhões por ano) distribuiu, na terça-feira, 2 mil cestas básicas a famílias carentes, principalmente às mais afetadas pela pandemia. Mulheres que perderam seus empregos com a crise causada pelo coronavírus e sustentam a família ou homens que precisam escolher entre pagar o aluguel e comprar remédio para os filhos estão entre os que vêm recebendo auxílio por meio do movimento #PanelasVazias. A iniciativa teve início há um mês, segundo Gilson Rodrigues, presidente do G10, quando a rede compreendeu que o agravamento da crise afetava ainda mais quem já passava dificuldade.

“Percebemos também que as pessoas passaram a se acostumar com o normal de que falta comida na mesa. É o Brasil do home office e o Brasil da fome. (Como não saem de casa), as pessoas não estão enxergando a fome. Antes conseguíamos preparar cerca de 10 mil marmitas por dia, hoje não passamos de 700. As doações caíram drasticamente”, lamenta Rodrigues.

Com objetivo de chamar atenção para um outro grupo fortemente afetado pela pandemia, os moradores de rua, a ONG SP Invisível lançou o livro "A pandemia que ninguém vê". Reunindo 100 relatos de pessoas que não puderam parar seus trabalhos por serem considerados essenciais — do médico da linha de frente aos catadores de recicláveis — a ideia é que o dinheiro arrecadado com a venda dos exemplares possa auxiliar moradores de rua.

“O dinheiro arrecadado contribui para dar visibilidade à população de rua. Já vendemos 1.500 livros, só restam 1 mil. São histórias que agregam muito para nossas vidas”, afirma André Soler, criador do livro e fundador da SP Invisível.

Segundo Soler, as iniciativas solidárias foram muito afetadas pela pandemia, principalmente pela necessidade de cumprir isolamento social. Não aglomerar, no caso, tornou-se o maior desafio na hora de ser solidário.

“Nas nossas ações, chegávamos a ter 400 pessoas reunidas, então tivemos de reduzir muito o número. Conseguimos fazer diferença pelo movimento drive-thru, em que os voluntários passam pegando as doações e distribuem para moradores de rua do bairro, por exemplo”.

 

PRATO DE COMIDA - O retrato da fome pode ser observado no rosto de homens, mulheres e crianças que, diariamente, aguardam a refeição oferecida pelo programa "Rj Alimenta", da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos, em parceria com a Fundação Leão XIII. A ação atende desde agosto do ano passado as pessoas que mais sofreram os impactos da pandemia. De acordo com a secretaria, o projeto, previsto para acabar em fevereiro de 2021, teve que ser estendido. Segundo o estado, já foram distribuídas 1,2 milhões de refeições no espaço da Biblioteca Parque.

Perto dali, no Largo da Carioca, outra longa fila de pessoas em busca de uma quentinha, também todos os dias. Neste ponto, a distribuição fica por conta do Serviço Franciscano e Solidariedade (Sefras).

O perfil de quem tem fome é o mesmo: desempregados ou pessoas que viviam da informalidade, mas que ficaram sem poder trabalhar por conta das medidas restritivas impostas pela pandemia. Como o auxílio-emergencial estava suspenso, as filas aumentaram.

Juliano Rosa Filho, de 37 anos, que perdeu o emprego há três meses, precisou entregar o apartamento onde morava de aluguel em Sepetiba e agora comparece rigorosamente no mesmo local e horário para não perder o café da manhã e o almoço do dia.

“A situação de pandemia tá levando muita gente ao desespero. E não adianta só dar comida, os governantes tem que dar emprego pra gente sair dessa situação. Vejo aqui não só pessoa em situação de rua que vem buscar refeição, mas gente que não tem opção. Têm pessoas de favelas que acabam se mudando para as ruas para poder ficar mais próximas das entregas de comida”, afirma Rosa Filho, enquanto esperava sua vez para pegar uma das mil refeições.


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