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Cuiabá MT, Quarta-feira, 25 de Novembro de 2020
CIDADES
Domingo, 22 de Novembro de 2020, 13h:20

O PESO DO PRECONCEITO

Advogada negra na luta em defesa da igualdade racial em MT

Naryanne é de um município com população predominantemente negra e estudou em uma escola quilombola

ALECY ALVES
Da Reportagem
Arquivo Pessoal
Naryanne Souza responde hoje pela presidência da Comissão Estadual de Defesa da Igualdade Racial da OAB-MT

Doutor e doutora são títulos de alto grau acadêmico atribuídos àqueles que concluíram doutorado com defesa de tese. Certo? Sim, na teoria!

Na prática, o que se percebe é que o Brasil transformou o título em pronome de tratamento para determinadas profissões e classes sociais.

Médico, advogado, odontólogo, psicólogo estão nessa lista. Mas, ser for rico, branco e estiver bem vestido, pode não precisar de formação acadêmica para obter esse tratamento.

Entretanto, se for um profissional negro, não basta ter a formação ou o título de doutorado.

Muitas vezes, é necessário apresentar ou manter visível a identificação profissional. Não com o intuito de ser enaltecido como doutor, mas de ser reconhecido no exercício da profissão.

"O advogado da parte autora ainda não chegou?"

Essa indagação, dirigida por um juiz às pessoas que aguardavam o início de uma audiência fez com que Naryanne Cristina Ramos Souza, 25 anos, levantasse para se identificar como advogada da parte a qual o juiz se referiu.

Isso ocorreu em 2019, no Fórum de Cuiabá. A pergunta poderia ser formulada diferente, não fosse o preconceito. "O advogado da parte autora já está presente?"

É bem possível que o que aconteceu com Naryanne não ocorra ou passe a ser algo raro, uma vez que, atualmente, o advogado transita pelo local com um crachá.

Naryanne não quer ser chamada de doutora, não estudou pensando em ser exaltada. Aprendeu com os pais, Elmo Almeida de Souza e Geucineia Ramos, a defender e buscar a igualdade racial.

Nasceu, cresceu e estudou até os 18 anos em Vila Bela da Santíssima Trindade (521 km a Orste de Cuiabá).

Lá, diz, não sentia o peso do preconceito por ser um município com população predominante negra e estudar em uma escola quilombola.

Mas, não se sentia representada na cultura externa, no que via pelos meios de comunicação, especialmente a televisão.

Por isso, entre os 10 e os 18 anos, assim como muitas meninas negras, aplicou produtos químicos para alisar o cabelo.

Na Capital, formou-se em Direito aos 22 anos, mas não conseguiu ser contratada em grandes escritórios, como queria.

Livre da crise de identidade, não somente uniu-se a dois colegas de profissão para ter seu próprio escritório de advocacia, como passou a militar em defesa da igualdade racial.

Especializou-se em Gestão Pública e Direito Previdenciário e está fazendo mestrado em Cultura Contemporânea pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

Em março de 2019, Naryanne foi eleita vice-presidente da Comissão Estadual de Defesa da Igualdade Racial da OAB-MT.

No momento, responde pela presidência dessa comissão.

Essa comissão já existia, mas estava inativa há um bom tempo.

Agora, ela ministra cursos e palestras em escolas e outras instituições com a finalidade de defender e buscar a aplicação de leis que tratam da questão da igualdade (negros, índios, liberdade religião, entre outras), como a Lei 10.639/2003, que institui nas escolas o ensino da história e cultura afro-basileira.

Também presta atendimento à população negra recebendo denúncias e orientando sobre direitos e a adoção de medidas legais.

É da comissão, ainda, a iniciativa da instituição da autodeclaração no cadastro de advogados da OAB-MT.

Com essa proposta, em fase de implantação, explica Naryanne, pode-se saber qual a representatividade dos negros na advocacia mato-grossense.


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