Domingo, 21 de julho de 2019 Edição nº 15219 15/05/2019  










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Mesmo após #MeToo, Festival de Cannes não amplia espaço para mulheres

GUILHERME GENESTRETI
Da Folhapress - Cannes

Quase um ano atrás, o Festival de Cannes se encerrava com a atriz italiana Asia Argento contando no palco que havia sido estuprada por Harvey Weinstein num luxuoso hotel não muito longe dali e, erguendo os punhos, conclamava a plateia formada pela elite da indústria a assumir sua cumplicidade com o antigo magnata audiovisual.

Foi o ápice de dez dias marcados por afagos mais simbólicos, como a marcha de 82 mulheres sobre o tapete vermelho, do que realmente práticos à causa das mulheres. Nesta terça (14), quando começou a 72ª edição da principal mostra de cinema do mundo, houve poucas mudanças a se notar.

Na competição pela Palma de Ouro, elas ainda são reduzida minoria -4 dentro de um total de 21 cineastas. Nas duas edições anteriores eram 3. E nada indica que esteja revogada a política extraoficial de se impedir a entrada de mulheres sem salto alto no tapete vermelho, o que no ano passado levou a atriz Kristen Stewart a descalçar os seus Louboutins em protesto.

Em 2019, a grita do #MeToo deve continuar ressoando na Croisette, o bulevar sombreado por coqueiros do balneário mediterrâneo, e bradando contra o fato de que quem dá as cartas ali ainda é a turma dos homens, que formam a maior parte do corpo de executivos da área.

Para completar, a primeira controvérsia da nova edição tem a ver com o assunto. Diante da notícia de que o ator Alain Delon, que é simpático à direita francesa e já disse ter dado tapas em mulheres, receberá uma Palma de Ouro honorária, começou a circular uma petição encampada por americanas contra a decisão. Thierry Frémaux, diretor do festival, respondeu -"Mas nós não estamos dando o Nobel da Paz a ele!"

Mudança mais evidente é o reforço da presença de estrelas no tapete vermelho. Devem cruzar aquela passarela nomes como Elton John, Brad Pitt, Leonardo DiCaprio, Sylvester Stallone, Penélope Cruz, Quentin Tarantino, Isabelle Huppert -e até Diego Maradona.

O excesso de nomes vistosos, em número maior do que nas últimas edições, é ainda mais necessário numa era em que o streaming desafia a pertinência dessas mostras e o próprio conceito do que seria um filme de cinema.

Entre os três grandes festivais europeus, o de Cannes é o que tem se mantido mais inflexível diante da voracidade da Netflix. Neste ano, mais uma vez, não haverá nenhum título bancado pela empresa na programação oficial -a única exceção, "Wounds", de Babak Anvari, aparece na Quinzena dos Realizadores, a seleção independente.

O incensado "Roma", produção da Netflix dirigida por Alfonso Cuarón, teria estreado em Cannes no ano passado não fosse o festival tão afinado com as salas de exibição da França -este, por sinal, um dos países mais aguerridos na defesa de sua própria cadeia cinematográfica.

Brilho no tapete à parte, a escalação deste ano consegue dar conta de expor os humores do mundo em 2019. E, a depender dos nomes que já foram premiados em edições anteriores, levam vantagens aqueles diretores que enveredaram pelo drama social.

É o caso dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, que podem levar a terceira Palma de Ouro da carreira, agora por "Le Jeune Ahmed", história de um adolescente belga de origem islâmica que flerta com interpretações radicais do Corão.

Outro tricampeão potencial é o britânico Ken Loach, alinhado à esquerda, que mais uma vez volta sua lente à penúria da classe proletária –no caso, a de uma família endividada que se vira entregando encomendas em "Sorry We Missed You".

"Les Misérables", do estreante Ladj Ly, toma emprestado o título da obra de Victor Hugo sobre desvalidos da Paris do século 19 para falar das tensões sociais nos subúrbios apinhados de imigrantes da capital francesa.

Já os pernambucanos Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles evocam um Brasil com um quê de faroeste em "Bacurau". A trama, ambientada no sertão, é mantida em segredo, mas sabe-se que o enredo é estruturado em forma de coral, isto é, com vários núcleos narrativos e personagens, uma delas interpretada por Sonia Braga.

Julia Marie Peterson em cena do filme "Bacurau", de Kleber Mendonça Filho Victor Jucá/Divulgação Julia Marie Peterson em cena do filme Bacurau Por falar nisso, Kleber e sua equipe ainda não deram pistas se pretendem encampar algum protesto como aquele que fizeram em Cannes antes da sessão de "Aquarius", em 2016, à época contra o impeachment de Dilma Rousseff.

O Brasil também está presente em "O Traidor", coprodução dirigida pelo italiano Marco Bellocchio, sobre mafioso Tommaso Buscetta, que se refugiou no país e delatou seus antigos comparsas.

Dos demais concorrentes à Palma de Ouro, predominam os velhos conhecidos da Croisette. Com "Era uma Vez em Hollywood", Quentin Tarantino volta ao lugar de onde saiu premiado por "Pulp Fiction", 25 anos atrás. O quase ermitão Terrence Malick apresenta "A Hidden Life", história sobre um austríaco que se recusa a lutar pelos nazistas.

Elton John, que não é nenhum estranho na Riviera Francesa, acompanha a estreia, fora de competição, de "Rocketman", cinebiografia sobre sua carreira.

Será a chance de o músico voltar à cidade onde, nos anos 1980, gravou o clipe de "I m Still Standing", fazendo macaquices nos corredores do hotel Carlton e acompanhando bailarinos de sunga e biquíni se contorcendo na areia. O refrão, aliás, tem muito a dizer sobre o festival que se equilibra entre controvérsias e ameaças do streaming: "Eu ainda estou de pé/ Depois de todo esse tempo".



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