Quinta feira, 20 de junho de 2019 Edição nº 15222 18/05/2019  










RENATO DE PAIVA PEREIRAAnterior | Índice | Próxima

Jabuticaba

De vez em quando uma dose de iconoclastia não faz mal. Não para sair por aí destruindo imagens religiosas ou obras de arte como o termo sugere, mas figuradamente, rebatendo algumas crendices populares escoradas em argumentos falsos ou contestando ditos populares carentes de sentido ou lógica.

Os palestrantes que ganham a vida motivando pessoas; os consultores, abundantes em todas as áreas e os religiosos que querem fazer boa figura costumam usar exemplos, cuja escancarada fragilidade não percebem. Há anos esse pessoal repete que o avestruz, quando está com medo, enterra a cabeça no chão para não ver o perigo, supondo (o avestruz) que não vendo o inimigo fica livre dele. Claro que essa ave não é tão boba assim, pois se ele adotasse essa tática por certo já teria sido eliminada da natureza pelos seus predadores. Ele abaixa normalmente a cabeça, não para defender-se de algum inimigo, mas para catar insetos. Maus observadores da natureza apressaram-se a atribuir indevidamente ao nobre animal tola intenção defensiva neste simples meio de procurar alimento.

Outra grande bobagem é chamar de “jabuticaba” qualquer ideia ou iniciativa que existe só no Brasil, por exemplo, “cheque pré-datado e uma jabuticaba, pois só tem no Brasil”. Alguém alguma vez afirmou que esta fruta é exclusividade brasileira e os outros acreditaram nele. Na verdade a jabuticabeira ocorre em vários países da América do Sul e também no México.

Além dos palestrantes que falam besteiras existem os etimologistas de boteco que se esmeram em proclamar origens absurdas de algumas palavras, principalmente quando encontram semelhança com algo estranho ou engraçado. É o caso de “coitado” que dizem ser originário de coito (cópula). Nessa lógica o coitado seria aquele indivíduo que sofreu o coito, ou dito de forma chula o cara foi f*dido. Coitado vem de coita que é aflição ou desgraça.

Na mesma linha, para estes que gostam de buscar origens pitorescas para as palavras, enfezado é aquele indivíduo que está sujo de fezes e furioso por isso. Na verdade enfezado é aquilo ou aquele que não cresceu, figuradamente serve para designar indivíduos irritados ou impertinentes, mas não guarda qualquer parentesco etimológico com excrementos.

Implico também com os ditados que dizem representar a sabedoria popular. Por exemplo, “uns gostam dos olhos, outros da remela”, como se existisse alguém que tivesse preferência por esta secreção.

Adianto que não sou filólogo e que meu conhecimento da língua não vai além do nível de utilização, estando a léguas de distância dos mestres e doutores que alcançaram a compreensão das nuances do idioma e entraram nas grutas que escondem os segredos só revelados aos que ralam muito para entendê-los.

Para encerrar, mais um ditado em cujo princípio não convém acreditar: “cão que ladra não morde”, pois existem os que latem e não mordem, mas muitos só interrompem o latido para dar a dentada. Dos cachorros (e também dos humanos) hostis, que ladram ou não, é bom manter prudente distância; aí sim convêm fiar-se no ditado: “seguro morreu de velho”.



* RENATO DE PAIVA PEREIRA – empresário e escritor

renato@hotelgranodara.com.br



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