Terça feira, 10 de dezembro de 2019 Edição nº 15283 14/08/2019  










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Série traz espírito do mal que assassina japoneses em campo de concentração

RODRIGO SALEM
Da Folhapress – Los Angeles, EUA

Em 8 de dezembro de 1941, o então presidente americano Franklin Delano Roosevelt discursou para uma nação atônita com o ataque surpresa do Japão à base naval de Pearl Harbor. "Uma data que viverá na infâmia", disse.

O que ocorreu nos meses seguintes, como parte da retaliação, virou um dos episódios mais obscuros da Segunda Guerra Mundial em solo americano -a criação de campos de concentração para abrigar a população nipônica e seus descendentes, todos considerados espiões pelo governo dos Estados Unidos.

É nesse cenário que a antologia "The Terror" retorna para a segunda temporada no canal AMC, sempre misturando fatos históricos com elementos sobrenaturais.

Agora com o subtítulo "Infamy" (infâmia), conta a história real da comunidade de 3.000 japoneses na ilha Terminal, em Los Angeles, e da remoção das suas famílias. E adiciona elementos do gênero kaidan, de histórias japonesas de fantasma, a partir do momento em que um antigo espírito espalha mortes misteriosas entre os prisioneiros.

"O monstro age como uma metáfora, como na maioria dos filmes de horror. A trama põe um espelho na frente da sociedade e acrescenta algo ao horror que aquelas pessoas já estão vivendo ao serem presas sem justificativa", diz o ator Derek Mio, que faz o jovem fotógrafo Chester Nakayama, o primeiro a perceber que há um fantasma ali.

Resgatar um tema que o entretenimento americano prefere esquecer não foi fácil. "Não é algo que se encaixa na narrativa dos Estados Unidos como país da liberdade e dos direitos", afirma Alexander Woo, que criou a trama ao lado de Max Borenstein.

"Ninguém queria contar essa história, mas é importante nos lembrarmos dela, porque está acontecendo novamente. O nome é diferente, mas não é um momento inédito."

O roteirista se refere às dezenas de cadeias espalhadas pelo país para aprisionar imigrantes ilegais, alguns vivendo em condições deploráveis e separados dos filhos.

"A crueldade e a estupidez do governo tornam a exibição da série algo ainda mais poderoso", diz o ator George Takei, conhecido por viver Sulu em "Jornada nas Estrelas - A Série Clássica". Ele também foi uma das vítimas da paranoia antinipônica na década de 1940 por ser neto de japoneses.

"Pouco depois do meu aniversário de cinco anos, os soldados nos levaram embora de casa. Passamos por três campos diferentes, pois vários ainda estavam em construção", lembra Takei, levado com os pais e dois irmãos para o hipódromo de Santa Anita, que serviu de base temporária para os prisioneiros, em 1942.

"Havia uma cerca de arame farpado e guardas armados nos separando daquela pista de corrida chique. Cada família era posta num estábulo, era desumano e degradante. Lembro o cheiro de estrume até hoje."

Os dez novos episódios de "The Terror: Infamy" recriam o horror dos campos californianos, mas em Vancouver, Canadá. Da primeira temporada, sobre uma expedição inglesa no Ártico, não sobrou nada a não ser a premissa geral.

Um dos pontos fortes da série é não apelar para escolhas fáceis. Boa parte da trama é falada em japonês ou espanhol, com o uso de legendas –algo raro na TV americana.

"Não poderíamos fazer uma série assim dez anos atrás", diz Woo, o roteirista. "Mas o momento é tão competitivo que vira obrigação criar algo diferente. Aspectos que eram considerados um risco, como um elenco quase todo japonês, não são mais. Anos atrás, haveria um herói branco salvando todos no fim."



The Terror: Infamy

Onde: AMC. Quando: nesta segunda (12), às 22h30



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