Sábado, 19 de outubro de 2019 Edição nº 15311 21/09/2019  










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Nietzsche ganha verniz pop em nova biografia, que o apresenta como misógino

WALTER PORTO
Da Folhapress – São Paulo

Raros filósofos ocupam o imaginário popular de forma tão disseminada quanto Friedrich Nietzsche, com seu bigode escandaloso, cenho franzido e insistência em declarar a morte de Deus. Tanto que não são poucos os brasileiros que sabem que a pronúncia desse sobrenome cheio de consoantes é algo próximo de "nitche".

O que, dependendo do sotaque, gera uma rima divertida com o título bombástico de sua mais recente biografia, "Eu Sou Dinamite!", destacada como a melhor de 2018 pelo jornal britânico The Times.

O nome do livro, que dá um verniz pop a um autor de filosofia sofisticada, refere-se a uma frase escrita pelo alemão no fim da vida, vista por muitos como prenúncio da apropriação funesta de seu ideário pelos nazistas, décadas depois da morte do filósofo.

"Eu conheço o meu destino", vaticinou Nietzsche, afeito a construções grandiosas, na autobiografia "Ecce Homo", escrita em 1888. "Algum dia estará associada ao meu nome a recordação de alguma coisa assustadora –de uma crise como nenhuma antes na Terra, da mais profunda colisão da consciência [...]. Não sou um homem, eu sou dinamite."

A tese de que Nietzsche plantou as sementes do nazismo se propagou –com ajuda do próprio Hitler, que prestigiou o arquivo do autor com visitas, estimulado pela irmã visceralmente antissemita do filósofo, Elisabeth– e tem sido objeto de um esforço de desconstrução em diversas biografias, como esta da historiadora britânica Sue Prideaux.

Os propagandistas do nazismo enxergaram na ideia de "super-homem" um bom elemento para basear sua defesa voraz da supremacia da raça ariana e do Exército alemão. Mas a verdade é que o tal "Übermensch", consolidado no livro "Assim Falou Zaratustra", representa mais uma evolução de caráter espiritual, que não tinha nada a ver com racismo ou eugenia.

Grosso modo, o "super-homem" simbolizaria a superação da dominação religiosa e cultural sem a queda no abismo niilista, o alcance da estabilidade moral em um mundo sem a segurança das crenças. "A liberação, para Nietzsche, está no prazer de ser uma pessoa independente", afirma a autora.

Isso porque o filósofo queria, de fato, dinamitar a Alemanha, mas em uma perspectiva cultural. Ele rejeitava não só a hegemonia da Igreja, mas a confiança quase religiosa na ciência, no Estado e nas filosofias do passado. Buscava criar um pensamento absolutamente original –e, mais que isso, incitar cada leitor a desenvolver o seu próprio pensamento desacorrentado.

A biografia de Prideaux retrata o crescimento do jovem e bem-humorado Friedrich em uma Alemanha desagregada e em forte transformação, no século 19. Ela ilumina uma era em que o racionalismo se disseminava e transformava a falta de sentido (ou não) de uma existência sem entidades divinas em uma questão vital.

Filho de um pastor luterano morto aos 35 anos e de uma mãe devota com quem tinha dificuldade de se relacionar, Nietzsche encontrou uma nova figura paterna no compositor Richard Wagner, antissemita e um dos maiores ícones da Alemanha –depois, também adorado por Hitler.

Antissemitismo, é bom esclarecer, nunca foi a praia de Nietzsche, mesmo com seu entorno conspirando contra isso. Sua única irmã e o marido dela, por exemplo, foram os responsáveis por fundar, no meio do Paraguai, a picaresca comunidade de Nueva Germania, que seria uma espécie de El Dorado só para arianos. O experimento, claro, rapidamente desmoronou.

Um preconceito que Nietzsche revela, sim, é a misoginia, traço que a autora liga à própria experiência do filósofo. "Quando jovem, ele apoiava causas feministas, mas depois da decepção amorosa com Lou Salomé, passa a escrever coisas terríveis sobre mulheres. Ele mesmo dizia que toda filosofia é autobiográfica."

Definida no livro como uma "femme fatale intelectual", Lou Salomé se envolveu não só com o filósofo, mas também com seu amigo Paul Rée e, depois, com o poeta Rainer Maria Rilke e o pai da psicanálise, Sigmund Freud. É célebre uma foto que mostra a russa brandindo um chicote sobre uma carroça que Nietzsche e Rée fingem puxar.

Devido a uma doença diagnosticada à época como sífilis, Nietzsche sofreu severa degeneração física e

mental. Sua saúde, porém, sempre foi debilitada. Uma das razões pelas quais escrevia em aforismos era sua dificuldade para enxergar, que só lhe permitia conforto em lapidar frases curtas.

O autor esteve entregue a uma brutal insanidade por mais de uma década antes de morrer em 1900, aos 55 anos. Segundo relata a biógrafa, Nietzsche chegou a ser exibido pela irmã (que detinha sua guarda) como um animal em zoológico no seu quarto, em seus últimos e tragicamente populares anos.

Isso porque, durante toda sua carreira, Nietzsche teve certeza da potência de suas ideias, mas amargou índices pífios de leitura, exceto depois de sua consciência já ter se perdido. "Foi um resultado da ótima publicidade da irmã e do zeitgeist: leva algum tempo para o mundo alcançar novas ideias", afirma Prideaux, a autora do livro.

Na virada do século, o pensamento nietzschiano se alastrou como fogo em pólvora. Os brados retumbantes de "Assim Falou Zaratustra" tiveram 150 mil exemplares de bolso distribuídos para soldados no front da Primeira Guerra.

É uma história que vai um passo além da ironia para roçar o terreno do delírio. Mas Nietzsche, a bem da verdade, nunca teve medo da perda da razão –ele e sua filosofia quase a abraçavam, o que originou até um boato de que seu desfecho insano não passasse de performance.

A única forma de fugir a séculos de decantação de costumes, escreveu Nietzsche em "Aurora" (1881), é "por uma temível acompanhante: quase em toda parte foi a loucura que preparou o caminho para as novas ideias".



Eu Sou Dinamite!

Autora: Sue Prideaux. Trad.: Claudio Carina. Ed. Crítica. R$ 99,90 (440 págs.)



Nietzsche em cinco livros O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música (1872)

Primeira publicação, aos 28 anos, ainda sob forte influência de Wagner



Humano, Demasiado Humano (1878)

Supera Wagner e Schopenhauer e adota seu famoso estilo de aforismos



A Gaia Ciência (1882)

Livro em que anuncia pela primeira vez a morte de Deus



Assim Falou Zaratustra (1883-1891)

Obra mais popular, escrita em quatro partes; foi distribuída a milhares de soldados na Primeira Guerra



Ecce Homo (1908)

Autobiografia feita em 1988 e publicada postumamente pela irmã, que omite citações negativas a ela



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