Quinta feira, 14 de novembro de 2019 Edição nº 15332 22/10/2019  










JOSÉ A. LEMOS DOS SANTOSAnterior | Índice | Próxima

A política que quase me mata

Vim para Cuiabá para nascer aqui e ser um cuiabano de chapa e, se Deus quiser, também de cruz. Meu pai trabalhava no interior do antigo Mato Grosso íntegro e quando estava chegando a hora do meu nascimento providenciou nossa vinda para cá onde era radicada a família de minha mãe, fazendo a vontade dela, uma cuiabana de chapa e cruz de verdade. Pouco tempo depois, tendo tudo corrido bem e terminando as férias do meu pai, voltamos para a cidade onde morávamos, uma pequena, mas simpática cidade, onde ganhei meu primeiro irmão.

Morávamos em uma das ruas principais e tivemos a sorte de na frente de casa morar o único médico do local. Figura proeminente na cidade e na região, começava a se embrenhar na política. Parece que depois veio a ser prefeito da cidade por uma ou duas vezes. Figura simpática e médico competente, logo ficou amigo daqueles vizinhos, pais de primeira viagem aos quais, solícito, sempre atendia, atravessando a rua a qualquer espirro do pimpolho. Ocorre que naquele ano havia eleição para governador, concorrendo Fernando Correa e Filinto Muller, e o doutor era ferrenho correligionário do Filinto. As eleições naquela época eram empolgantes entre UDN e PSD, com eleitores empenhados pela vitória de seus candidatos. Apesar de todos estarem envolvidos nada aconteceu de problemático, ao menos naquelas eleições na cidade onde iniciava minha vida. Mas quase.

A história começa quando o pequeno bebê, no caso eu, pega uma bela infecção intestinal e dá início a um processo de desidratação que parecia não ter fim. Começam os tratamentos de praxe da época, chazinho daqui e dali até que meu pai foi atrás do médico amigo que, como de costume, veio rápido, fez os exames e aviou uma receita. Meu pai foi até a única farmácia que ficava próximo de casa também. Aliás tudo ficava próximo naquela belezinha da cidade. De vez em quando refletindo sobre o urbanismo, e em especial o “novo-urbanismo americano” com as cidades da Disney em Orlando, penso que o modelo pós-moderno de pequena cidade já existia lá na cidadezinha onde morei, com diversidade de usos e tudo próximo, aproximando as também as pessoas em interação física, colaborativa e amiga, como lembravam meus pais. Minha sobrevivência talvez se deva justamente por estar naquele momento em uma cidade como esta. Se não, já tinha ido para o beleléu.

Meu pai não dirigia, e então correu à farmácia. Chegando lá foi logo atendido pelo farmacêutico que pegou a receita, deve ter botado seus oculozinhos para ler de perto, decodificou os hieróglifos do esculápio e em seguida procurou o remédio em todas estantes. Como, o doutor era o único da cidade e o farmacêutico também, havia uma interação entre os dois, entre o que a farmácia tinha e o que o médico receitava. Mas, no caso, não tinha o tal remédio. Vale lembrar que naquela época na cidade não havia telefones. Papai correu de novo em busca do médico que já estava em outro local da cidade envolvido com sua sagrada medicina e com seu novo amor, a política. Enquanto isso eu me esvaindo em casa. O médico, pediu que meu pai voltasse à farmácia e pedisse uma nova pesquisa do farmacêutico em suas prateleiras, o que foi feito, e nada. E eu desidratando. Corre de volta meu pai ao doutor, já em outro local da cidade, que lhe diz: “Me dê essa receita que eu quero dar uma olhada.” Assim foi feito. O doutor também deve ter pego seus oculozinhos de perto, olhou a receita, empalideceu, bateu a mão na testa e disse ao meu pai: ”Felicíssimo me desculpe, o nome certo do remédio é Enterofil e eu receitei Filinterol!”. Não iam achar nunca e nem eu estaria aqui para contar a história. Escapei!



* JOSÉ ANTONIO LEMOS DOS SANTOS, arquiteto e urbanista, é conselheiro licenciado do CAU/MT, acadêmico da AAU/MT e professor aposentado

joseantoniols2@gmail.com



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