Quinta feira, 12 de dezembro de 2019 Edição nº 15349 14/11/2019  










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Livro imagina Amazônia devastada e indígenas exilados

No distópico A morte e o meteoro, de Joca Reiners Terron, uma tribo isolada precisa pede asilo político no México

Da Folhapress – São Paulo

Depois das eleições do ano passado, amigos mexicanos do escritor Joca Reiners Terron , mato-grossense radicado em São Paulo, foram os primeiros a dizer que ele poderia ficar na casa deles se a situação pesasse no Brasil. Terron não foi, mas elegeu o México como o destino de personagens de “A morte e o meteoro”, seu mais recente romance, lançado em outubro.

A história se passa no futuro: a Amazônia foi reduzida a um punhado de árvores e terra árida, as reservas indígenas foram extintas, a Fundação Nacional do Índio (Funai) perdeu a serventia, e madeireiros, garimpeiros e latifundiários ganharam carta branca do governo para matar indígenas e roubar suas terras. No plano internacional, chineses colonizam Marte, indígenas chilenos se rebelam contra o governo e os exércitos brasileiro e colombiano passaram oito anos se engalfinhando com a Venezuela.

No meio dessa distopia, os 50 remanescente dos kaajapukugi, uma tribo amazônica que sempre recusou contato com o homem branco, pede asilo político — primeiro no Canadá e depois no México. Entre os kaajapukugi, não resta nenhuma mulher ou criança. Nem o exílio vai salvá-los da extinção.

Terron escreveu “A morte e o meteoro” entre o ano-novo e o início de março, bem antes das queimadas na Amazônia alarmarem o mundo.

“Os escritores se enganam quando dizem ter este ou aquele tema. O único tema que a gente tem é o tempo em que a gente vive”, disse Terron poucos dias antes de seguir para o México, não como exilado, mas para ensinar em uma oficina literária.

“Em qualquer livro que eu escreva, o presente pede passagem e entra. Nesse livro, isso se deu. Não é uma feliz, mas uma trágica coincidência”, disse.

O livro começou como um conto encomendado pela revista “Granta”. O tema: futuro. A primeira parte do livro, “O grande mal”, foi publicada na revista. Aliás, “o grande mal” é como os kaajapukugi chamam o homem branco, obstinado em “invadi-los, colonizá-los, destruí-los”.

O desterro dos kaajapukugi para o México é articulado por Boaventura, um sertanista ambíguo, filho de um guerrilheiro desaparecido no Araguaia e de uma suicida. De volta a Brasília, depois de desembarcar os indígenas no exílio, Boaventura é assassinado misteriosamente. Ele deixa um longo vídeo, uma espécie de testamento, no qual recorda seus primeiros contatos com os kaajapukugi e descreve alguns dos rituais da tribo, como a inalação de tinsáanhán, um pó alucinógeno extraído de besouros do tamanho de um punho. O vídeo vai parar nas mãos de um burocrata mexicano, um antropólogo enlutado, especialista em línguas mortas, que acompanha a chegada dos kaajapukugi ao exílio.

A morte de Boaventura faz o romance se aproximar da literatura policial. Terron deu aos kaajapukugi práticas e crenças dos suruwahas, povo indígena isolado da Amazônia. Mas também inventou um bocado, “porque é mais ético, mais correto e mais divertido”. O romance descreve um pouco das cosmogonias dos kaajapakugi, como sua concepção não linear de tempo seu forte espírito comunitário.

“A perda do sentimento comunitário nos trouxe até aqui — diz. — Substituímos a coletividade por ideias equivocadas, como a de que é possível ser feliz sozinho. O filósofo coreano Byung-Chul Han tem uma frase linda que diz que a ideia mais nociva e inteligente que o capitalismo vendeu é que existe liberdade individual. A liberdade só é possível coletivamente”.

Terron sustenta que o saber ancestral dos indígenas pode nos ajudar a encontrar soluções que impeçam que o mundo se pareça cada vez mais com o que ele descreve em “A morte e o meteoro”.

“Antropólogos como Eduardo Viveiros de Castro têm nos fornecido perspectivas que nos permitem integrar os conhecimentos indígenas aos nossos”, afirma. “Pensadores indígenas como Ailton Krenak e Davi Kopenawa estão nos dizendo o tempo todo o que há de errado e sugerindo soluções. Essas vozes têm de ser ouvidas. Senão, já elvis”.



Serviço

“A morte e o meteoro”

Autor : Joca Reiners Terron

Editora: Todavia

Páginas: 120

Preço: R$ 49,90



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