Domingo, 15 de dezembro de 2019 Edição nº 15360 03/12/2019  










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Debora Bloch: Vivemos encastelados como Marias Antonietas

Prestes a rodar nova temporada de “Segunda chamada”, que vai ao ar em abril, ela conta como a série impactou sua visão do Brasil, diz que autoras mulheres trouxeram bons papéis para atrizes maduras e revela estar apaixonada: ‘Casei por prazer’

MARIA FORTUNA
Da Agência Globo – Rio

Desde que começou a fazer “Segunda chamada” , série ambientada numa escola noturna para adultos e que discute a educação no país , Debora Bloch mergulhou na realidade da desigualdade brasileira. Não que fosse alienada. Pelo contrário, a atriz é politizada, se coloca nas redes sociais e arregaça as mangas para ajudar quem precisa — como fez na última enchente, quando subiu o Vidigal para auxiliar desabrigados. Mas gravar em favelas e ocupações mexeu com ela, que tem procurado entender mais sobre a história e o abismo social do país lendo livros como “A elite do atraso”, de Jessé Souza, e “Um defeito de cor”, Ana Maria Gonçalves.

“Outro dia, estava na praia e recebi fotos de crianças no chão num tiroteio no Vidigal. E a gente na praia, olhando para o Vidigal, como se tudo estivesse normal. Há uma guerra do nosso lado e a gente não vê. Esse é o retrato da Zona Sul hoje. Vivemos encastelados como Marias Antonietas, como se não fosse com a gente”, diz.

Na véspera de embarcar para São Paulo, onde começa a se preparar nesta semana para viver de novo a professora Lucia na segunda temporada da série, Débora, de 56 anos, recebeu a reportagem em seu apartamento, no Jardim Botânico.



P - A crítica de TV, Patrícia Kogut, definiu a série como “imperdível”. Como tem sido a reação do público na rua? Conheceu histórias tocantes durante o processo?

DEBORA - Gratificante. Professoras vêm falar comigo, alunos dizem que estamos mostrando a realidade exatamente como ela é. É emocionante ver as pessoas se sentindo representadas. Fiquei tocada já com o assunto, sobretudo neste momento do país. Educação de qualidade para todos é algo que estamos sempre devendo. O afeto e comprometimento das professoras, o esforço dos alunos para aprender depois de uma jornada pesada de trabalho, também mexeram comigo. Quem frequenta essas escolas é a população menos favorecida. Gravamos numa ocupação onde se vive em condições sub-humanas, barracos feitos de papelão e lata, esgoto a céu aberto, onde crianças brincam. A gente não olha para essas pessoas. Nós vivemos numa bolha...

P - Acha que normalizamos a desigualdade social?

DEBORA - Normalizamos a desigualdade e a violência. Não é à toa que a América Latina está fervendo, não dá mais para as pessoas viverem nesse estado. A população pobre e preta, os índios e os ativistas sendo assassinados, helicóptero atirando em escolas nas favelas. Não é matando pobre que vamos acabar com a pobreza. Parte da população está cega. Estamos vendo o desmonte das políticas públicas e é assustador a elite brasileira apoiar esse tipo de pensamento. Tem gente pedindo a volta da ditadura... Eu me lembro de pais de amigos desaparecendo naquela época. As pessoas não se dão conta de que um dia chega na sua casa, o spray de pimenta vem no seu olho.



P - E a situação atual da cultura?

DEBORA - Está sendo minada através do corte de recursos, que é uma forma de censura. Roberto Alvim ( secretário Especial da Cultura ) esbraveja contra artistas quando deveria representá-los em toda a sua diversidade. Há uma tentativa de acabar com o sonho e a transcendência. Mas a arte sempre resistiu e resistirá. Fico otimista quando vejo “Roda viva”, “Bacurau”, o trabalho das Redes da Maré...



P - Você frequenta o Samba do Trabalhador, o baile do Viaduto de Madureira. Os melhores programas do Rio hoje não estão na Zona Sul, não é?

DEBORA - Acho bem mais divertido... Mas o Rio está triste, acho que a cidade morreu. A Niemeyer desmorona e fica fechada, a cidade desaba com chuva e fica por isso mesmo, os teatros e museus desmantelados. Infelizmente, a Zona Sul está apoiando essa política de esvaziamento. A resistência está no subúrbio, na Zona Norte, na comunidade preta, no samba.



P - Você se casou com o produtor português João Nuno Martins. Como é o casamento na idade madura? Sexo é fundamental?

DEBORA - Muito melhor, né? ( risos ) Você aproveita o que importa, não perde tempo com insegurança boba, não idealiza o outro. Casei por prazer. Adorava estar solteira, mas me apaixonei. E, sim, sexo é bem importante para mim.



P - Seus filhos estão grandes (Júlia com 26 anos; Hugo, com 21). Tem vontade de ser avó?

DEBORA - Estou louca para ser avó, mas não posso falar ou levo bronca ( risos ). É que ainda falta, eles são muito novos.



P - Como se sente aos 56 anos?

DEBORA - Envelhecer não é fácil, principalmente quando você é atriz, está sob o olhar do outro. Mas acho que a gente supervaloriza a juventude e valoriza pouco os ganhos da maturidade. Eu me sinto uma atriz muito melhor do que aos 20, 30 ou 40 anos. Tenho mais recursos. Sou mais tranquila, feliz e menos ansiosa. Agora, depende de uma vida interior...



P - É mais difícil encontrar bons personagens à medida que a idade aumenta?

DEBORA - Dei essa sorte com a Lucia (de “Segunda chamada” ). Agora, são mulheres escrevendo ( Carla Faour e Julia Spadaccini ) e mulher dirigindo ( Joana Jabace ). Protagonizei a novela de Licia Manzo ( “Sete vidas” ) com 52 anos. Regina Casé, com 60 e poucos, é protagonista da Manuela Dias ( autora de “Amor de mãe” ). A juventude é linda e a câmera a ama, mas a gente tem que sair só da estética. Não que eu não esteja nem aí. Coisa mala é ter que botar óculos. Mas quando vemos Sonia Braga e Fernanda Montenegro, com suas rugas e histórias na tela, é de uma força! E Maria Bethânia no palco? Claro que a sociedade é machista, no Brasil especialmente. Minhas amigas na Europa não estão enlouquecidas fazendo botox. Tem algo cruel com a mulher aqui no Brasil, no Rio, então... As mulheres têm que sair dessa!



P - Cabe à gente se libertar e libertar as outras?

DEBORA - Com certeza. Temos que dar esse clique! Diretoras de revista são mulheres, e ainda é raro uma revista que coloque mulher mais velha na capa. Mas isso está mudando. Fiz agora a capa da revista da Joyce Pascowitch e me achei no lucro.



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