Domingo, 15 de dezembro de 2019 Edição nº 15361 04/12/2019  










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Ficção é base para o humor peculiar e premiado de Amanda Lyra

MARIANA MARINHO
Da Folhapress – São Paulo

No meio da lama, uma intérprete segura um prêmio de melhor atriz. Ou, ainda, num teatro em ruínas, a mesma intérprete ergue a estatueta. São essas as imagens que passam pela cabeça da atriz paulista Amanda Lyra, 37, quando pensa no reconhecimento que seu trabalho tem recebido em premiações.

Por seu monólogo "Quarto 19", adaptação do conto da britânica Doris Lessing com direção de Leonardo Moreira, ela foi indicada a melhor atriz nos prêmios Questão de Crítica, Associação dos Produtores de Teatro e Shell.

"Claro que não dá para ser blasé e dizer que não ligo para as indicações. Fiquei superfeliz. Mas estamos num momento do país em que é um pouco estranho comemorar conquistas pessoais com todo o desmantelamento que está acontecendo, principalmente na educação e na cultura", diz.

Ainda na adolescência, quando iniciava seus estudos em interpretação em São José do Rio Preto, cidade no interior paulista onde nasceu, ela chegou a ganhar o prêmio de melhor atriz no festival de teatro amador de Jales, ali perto. "Era uma peça infantil inspirada na história da Branca de Neve. Eu fazia a Rainha Má, óbvio, não nasci pra fazer a Branca de Neve, não tenho perfil", brinca Lyra, que leva para o palco o humor insólito que mostra ter no dia a dia.

Depois de temporadas de seu espetáculo solo em São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre, a artista emendou duas produções. Integrou, nos últimos meses, o elenco de "Mãe Coragem", adaptação de Daniela Thomas para o texto do dramaturgo alemão Bertolt Brecht, e de "Fim", espetáculo dirigido por Felipe Hirsch.

Essa última montagem, que também lhe rendeu outras duas indicações por sua atuação, desta vez a prêmios como o da Associação Paulista de Críticos de Arte, tem apresentações previstas para o ano que vem nas cidades de Buenos Aires e Lisboa.

"Nos improvisos [durante o processo criativo de Fim], a Amanda trouxe ideias com uma potência e uma qualidade que eram acima da média", afirma Hirsch. "Ela tinha uma consciência muito grande de todo o trabalho."

Antes de chamar a atenção de críticos e jurados, "Quarto 19", que reestreia em setembro no teatro Eva Herz, já havia ganhado o boca a boca do público não especializado principalmente por abordar questões como a liberdade da mulher e a sua relação com o casamento e a maternidade.

"Estamos num momento delicado em que se nós, artistas, não fizermos um esforço de nos comunicar com as pessoas, vamos voltar ao porão e deixar de existir", afirma a atriz. "Não estou falando de abrir as pernas, mas de encontrar maneiras de ter uma pesquisa artística e, ao mesmo tempo, não realizar um trabalho hermético."

O solo levou sete anos para acontecer. O projeto começou a ser concebido em 2010 por Lyra, que também fez uma nova tradução para o texto, mas a peça só estreou em 2017.

"Ficou mais urgente e maduro para mim e para ela, que se tornou mãe, por exemplo", conta o diretor Leonardo Moreira. Na trama, uma mulher casada e com três filhos começa a se incomodar com sua vida doméstica.

Mesmo sendo considerado um trabalho feminista por abordar questões desse universo, a atriz afirma que é importante olhar a obra para além das pautas identitárias.

"Sou feminista e a peça foi referência para mim e para outras pessoas nesse sentido, mas muitas vezes os trabalhos de mulheres são aprisionados pela ideia de que precisam estar dentro de um segmento de gênero para existir e ser validado."

Segundo Moreira, a peça poderia ser um drama panfletário. "Mas a Amanda, com seu humor e sua inteligência cênica, criou um certo distanciamento, como se ela olhasse a história de fora e, ao mesmo tempo, estivesse vivendo aquela experiência que é muito íntima e próxima a ela", diz.

A pulsão idealizadora presente em "Quarto 19" acompanha a atriz desde o começo de sua carreira, quando, depois de se formar em administração pública pela Fundação Getulio Vargas, ingressou na Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo.

Apesar de ter tido os seus próprios grupos, os já extintos Lasnoias e Cia dos Outros, que montou ao lado de nomes como a pesquisadora Silvana Garcia e a atriz e diretora Carolina Bianchi, e de ter trabalhado com coletivos como a Cia Hiato e o Tablado de Arruar, Lyra preferiu seguir por um caminho de parcerias independentes.

"Esses grupos foram essenciais na minha formação, mas eu não conseguia me ver numa estrutura fixa. Tinha minhas vontades. Sempre li muita coisa, principalmente literatura, e queria produzir esses textos", lembra a atriz.

É principalmente da ficção literária que ela extrai o material para sua criação no teatro. Já chegou a trabalhar com textos de autores como o argentino Julio Cortázar e os americanos Donald Barthelme e David Foster Wallace. Até o nome de seu filho, Ulisses, que tem com o escritor Roberto Taddei, veio do personagem de uma obra literária, o romance "Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres", de Clarice Lispector.

"A Amanda tem uma coisa com a palavra. Sempre que eu descubro uma escritora ou um escritor contemporâneo que tem algo de violento e de um humor sofisticado, eu me lembro dela", diz a artista Carolina Bianchi, que trabalhou ao seu lado em peças como "A Pior Banda do Mundo".

Lyra vem pensando em qual será o seu próximo projeto. Já foi para vários lugares, mas ainda não achou uma ideia. Tem, porém, indagado o porquê de se fazer teatro.

"Há um lado meu esperançoso que acredita que o teatro é a arte do passado e do futuro. No meio do caos e da guerra, enquanto tiver um espectador e um ator, existe teatro", afirma. "Não é pelo ego, pelo prêmio e para ser cool que a gente faz arte. É para falar com pessoas que vão além de um pequeno grupo de iniciados."



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