Sexta feira, 24 de janeiro de 2020 Edição nº 15369 14/12/2019  










MEIOA MABIENTEAnterior | Índice | Próxima

Conflitos e retrocessos marcam presença do Brasil na COP-25

Delegação brasileira na Conferência do Clima da ONU reflete mudança de postura do governo na área ambiental e causa espanto em ex-aliados

Da Folhapress – Madri

Quem abre a porta do tímido espaço da delegação brasileira na Conferência do Clima (COP-25), em Madri, depara-se com uma imensa bandeira do Brasil em que a inscrição “Ordem e progresso” foi substituída por outra, em inglês: “Produtor rural brasileiro — O grande parceiro ambiental”.

É um símbolo de que o país chegou à reunião internacional da Organização das Nações Unidas (ONU) sob nova gestão, que causa espanto entre antigos aliados.

Na reta final da convenção, que acaba neste fim de semana, há sinais de negociadores constrangidos pelo próprio governo, delegados desarticulados, acadêmicos dando consultoria a outras nações e protestos de ambientalistas.

O Itamaraty manteve boa parte do corpo diplomático que participou de outras convenções ambientais, negociadores reconhecidos internacionalmente por seu desempenho em traçar documentos como o Acordo de Paris.

Agora, no entanto, estão a serviço de um governo que envia sinais dissonantes, mas sempre considerados negativos, sobre as mudanças climáticas.

Segundo um cientista brasileiro ouvido pela reportagem sob condição de anonimato, a delegação do governo Bolsonaro se divide entre pessoas que não acreditam que haja aquecimento global e outras que até creem no fenômeno, mas não que ele seja influenciado por ações humanas — algo já atestado por diversos estudos científicos chancelados pela ONU.

O participante afirma que diplomatas estrangeiros abordaram os cientistas brasileiros para tentar entender por que o país retomou o discurso à base de denúncias contra os países desenvolvidos, que havia sido abandonado há anos em prol de uma pauta propositiva. O retrocesso, diz ele, causou revolta na velha guarda do Itamaraty e do Ministério do Meio Ambiente.

As tensões da política ambiental brasileira chegaram a Madri. Uma pesquisadora, que também quis se manter no anonimato, destaca que ruralistas e ambientalistas não conseguiram conciliar seu discurso antes de chegar à conferência, dando sinais ambíguos nas negociações sobre as medidas que o governo tomará caso consiga recursos.

CRÍTICA - O Brasil tem 168 delegados na convenção, contingente superior ao da União Europeia (125) e dos EUA (78).

Este efetivo é usado para munir os negociadores compatriotas de informações que podem ser úteis para votações na conferência. Muitos países enviam delegados para assistir aos debates e vídeos dos estandes montados na COP por outras nações.

Segundo a pesquisadora, a delegação brasileira “não se organiza para assistir aos debates internacionais” e, contrariando o comportamento diplomático dos delegados de outras nações, “prefere lavar a roupa suja aqui mesmo”, criticando o próprio governo.

Ela também afirma que o governo federal negou credenciais para cientistas considerados opositores, mesmo os que têm longa trajetória em COPs. Para que não perdessem o encontro, apelaram à boa vontade de outros países, como Egito e Ilhas Maldivas.

Chefe da delegação brasileira, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, acredita que o Brasil só cumprirá as metas firmadas no Acordo de Paris, em 2015, se receber recursos estrangeiros. À época, no entanto, o país não condicionou uma coisa à outra.

“Cedemos demais e recebemos de menos, em razão de alguns compromissos assumidos por aqueles que querem sempre sair bem na foto —diz Salles. —Nós temos o direito de pleitear nosso recurso independentemente de qualquer coisa porque o Brasil já fez uma série de pontos importantes da questão de preservação que outros países não têm”.

NÃO ENTENDE - Suzana Kahn, ex-vice-presidente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, diz que Salles “não entende o que está fazendo”.

“Ele não está defendendo artigos do Acordo de Paris que interessam ao empresariado e ao Ministério da Economia”, ressalta Kahn, que é vice-diretora da Coppe/UFRJ.

“O acordo não provocou prejuízos, pelo contrário. Os usineiros, por exemplo, comemoraram quando o país criou um zoneamento ecológico para delimitar o plantio da cana de açúcar, porque aumentou no exterior a ideia de que combatemos as mudanças climáticas. Agora, esta restrição ao produto foi revogada”, completa Kahn.

Oswaldo Lucon, coordenador executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, revela que o avanço do desmatamento repercutiu entre os delegados da COP: “O setor agro brasileiro veio com força à conferência, mas ele tem pontos de atrito com os ambientalistas. É difícil gerar conversas”.



Anterior | Índice | Próxima

Comentários Deixe aqui sua opinião sobre esse assunto




17:15 Embelezar Cuiabá
17:15 BOA DISSONANTE
17:14 O sabor da volta às aulas
17:14 Uso nocivo de álcool e outras drogas
17:14 Entre as lentes da alma e do celular


17:13 Alerta para o novo vírus
17:12 Novo álbum dos Mutantes tem pegada setentista e pouco remete à banda original
17:12
17:10 Bom sucesso: Provavelmente a novela não teria causado a mesma empatia um ano atrás, diz autor
17:09 Antonio Fagundes sobre Regina Duarte: Torço para que não saia queimada
Cuiabá
Min: 18°
Max: 36°

TOPO | PRIMEIRA PÁGINA | ÚLTIMAS NOTÍCIAS | POLÍTICA | ECONOMIA | CIDADES | POLÍCIA | ESPORTES
BRASIL | MUNDO | DC ILUSTRADO | CUIABÁ URGENTE | EDITORIAIS | ARTIGOS | AZUL | TEVÊ | E-MAIL
Diário de Cuiabá © 2018