Sexta feira, 17 de janeiro de 2020 Edição nº 15387 15/01/2020  










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Polarização já existe, meu desejo é gerar empatia e entendimento, diz diretora de Democracia em vertigem

Petra Costa, de Democracia em vertigem, comemora escolha da Academia e rebate secretário da Cultura: É gente que, por incapacidade ou má intenção, não distingue a ficção da realidade

Da Agência Globo – Rio

A diretora Petra Costa teve seu filme "Democracia em vertigem", que narra o impeachment da presidente Dilma Rousseff, indicado ao Oscar de melhor longa documental. O anúncio foi feito nesta-segunda-feira (13). A produção concorre na mesma categoria de "Indústria americana" (EUA), produzido pelo casal Obama, "For sama" (Reino Unido e Síria), "Honeyland" (Macedônia do Norte) e "The cave" (Tailândia e Irlanda). A mineira de 36 anos, que também assinou os documentários "Elena" (2012) e "Olmo e a gaivota" (2014), premiados respectivamente nos festivais de Brasília e do Rio, pode se tornar a primeira diretora latino-americana a levar a estatueta.



P - Como foi a campanha do filme pelo Oscar, como você garantiu que ele estava sendo visto? Fez lobby, como foi a estratégia?

PETRA - A Netflix tem experiência nessas campanhas, e, desde setembro passado, fez várias sessões do filme lá em Nova York, Europa..., e me pediam para convidar pessoas para serem anfitriões essas sessões. Wim Wenders, Spike Lee, Jane Campion foram e fizeram depoimentos muito fortes sobre como eles sentiam que o filme falava da crise democrática e da ascensão da extrema direita no mundo. Tivemos também anfitriões documentaristas como Kirsten Johnson, Yance Ford e Liz Garbus. A presença dessas pessoas atraía membros da Academia para assistir ao filme. E, para a nossa alegria, o boca a boca foi se espalhando.



P - Quem vota no seu filme, é todo mundo da Academia ou há jurados específicos para a categoria documentário?

PETRA - Até agora foram apenas membros da ala de documentários que votaram, uns 500, e a partir de agora será a Academia inteira, mais ou menos cinco mil votantes.



P - Como funciona a indicação propriamente?

PETRA - Primeiro, foram mais de cem filmes qualificados para concorrer, e aí os 500 votantes da ala doc da Academia são responsáveis por assistir a mais ou menos 33 filmes e votar em 15.



P - Tem gente confundindo, achando que seu filme foi uma indicação do Brasil e não da Academia...

PETRA - Sim. É um reconhecimento internacional que estamos muito honrados em receber. Diversos membros, do mundo todo, da Academia entenderam nosso trabalho e escolheram "Democracia em vertigem" para a seleção. O nível dos outros indicados na mesma categoria enche de orgulho toda a equipe envolvida neste filme.



P - Seu filme apareceu na lista final dos mais vistos "The New York Times". Ao mesmo tempo, "Apollo 11" e "One child", que eram dados como certos na lista, não foram indicados. Você acreditava que tinha chances? Viu a lista final dos indicados na sua categoria? Se surpreendeu?

PETRA - Me surpreendi. Não esperava que eu estivesse lá. Ainda me parece um sonho ver uma obra que começamos há tanto tempo, de uma perspectiva tão pessoal, competindo em uma categoria com tantos trabalhos tão potentes. Ainda mais feliz de ver que somos quatro mulheres diretoras nessa categoria, mostrando a nossa força quando outras categorias não reconheceram o trabalho de diretoras tão talentosas espalhadas pelo mundo.



P - "Democracia em vertigem" está disputando com uma produção do casal Obama, né? Concorrência pesada...

PETRA - Sim. É uma honra muito grande. A concorrência de todas as obras, e de tantas mulheres diretoras, engrandecem essa indicação e me fazem já sentir uma vitoriosa.



P - O que significa ter no Oscar o seu filme, que assumidamente toma partido da esquerda, em um momento em que a direita está no poder?

PETRA - Acho que, acima de qualquer ideologia, nosso filme toma partido do estado de direito e da importância que é preservar a democracia. O que me motivou não foi a volta de uma ou outra tendência política. A alternância do poder pode ser positiva. O que me indignou e me motivou foi perceber o avanço da intolerância, a distorção dos fatos e a manipulação das instituições democráticas para servir certos interesses. Infelizmente isso não é um fenômeno só brasileiro, mas global, e acho que por isso o filme está ecoando.



P - O filme trata de um episódio do Brasil que as pessoas ainda não digeriram. Ele desperta sentimentos opostos nas pessoas, acende a polarização. E você assume um lado da história. Qual é o preço disso?

PETRA - A minha experiência tem sido diferente. Tenho recebido mensagens incríveis, pessoalmente e por meio das redes sociais, de melhores amigas, pais e filhos que deixaram de se falar por divergências políticas e que através do filme voltaram a se falar por terem sentido uma empatia com o outro lado. Na minha família vi isso acontecer. A mídia e as redes sociais espalharam muito ódio nesses últimos anos no Brasil, e para muitas pessoas o filme humanizou uma perspectiva política com a qual elas inicialmente discordavam. A polarização já existe. O meu desejo por meio da arte e gerar empatia e entendimento.



P - O Secretário de Cultura do Governo, Roberto Alvim, e o PSDB disseram que o filme deveria estar indicado na "categoria ficção". O que tem a dizer sobre isso?

PETRA - Fico honrada em representar o Brasil nessa disputa, e agradeço de coração a manifestação de apoio de muitos. É uma pena que tenha gente que, por incapacidade ou má intenção, não distingue a ficção da realidade.



P - A revista "Piauí" mostrou em uma reportagem que você alterou uma imagem do filme, tirando armas de uma foto ao lado dos corpos de dirigentes do Partido Comunista. Por que tomou essa decisão?

PETRA - Testemunhas à Comissão da Verdade revelaram que essas armas foram plantadas para a foto, respondendo a interesses que queriam manipular a realidade em seu próprio benefício e eu tentei ser fiel a essa verdade histórica ao mostrar a imagem de como foi esse momento.



P - Você pode se tornar a primeira latino-americana a conquistar o Oscar como diretora. Qual a importância disso?

PETRA - É um reconhecimento muito importante para a comunidade latino-americana e todo o movimento feminista. Insha’la que mais mulheres e Latino Americanos ganhem esses tipos de reconhecimento internacional.



P - O que achou das indicações de ator, ator coadjuvante e roteiro adaptado de "Dois papas", de Fernando Meirelles?

PETRA - Gostei muito de "Dois Papas" e me alegro muito com essa indicação tão merecida. É sem dúvida um dos melhores filmes que vi este ano e admiro muito Fernando Meirelles não só como cineasta mas como pessoa.



P - Como está sua vida agora? Quais são seus próximos projetos?

PETRA - Estou ainda no meio da vertigem, focando no democracia. Em breve mergulharei em outros projetos.



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