Quarta feira, 19 de fevereiro de 2020 Edição nº 15392 22/01/2020  










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Há 40 anos, Frank Sinatra cantava no Maracanã

Conheça as histórias por trás do show que marcou uma geração;No Rio, a lendária voz encarou a maior plateia da sua carreira

SILVIO ESSINGER
Da Agência Globo – Rio

Tudo o que o publicitário carioca Roberto Medina, dono da agência Arplan, almejava em 1977 era gravar um comercial do uísque Passport com Frank Sinatra (1915-1998) — a grande voz da música americana do século XX e um dos maiores astros da canção de todos os tempos. Menos de três anos depois, Medina conseguiria trazer Sinatra para os seus primeiros shows brasileiros, todos no Rio. Nos dias 22, 23, 24 e 25 de janeiro de 1980, “The Voice” se apresentou com pompa, para os ricos e famosos, no teatro do Rio Palace, hotel que estava sendo inaugurado no Posto 6, em Copacabana. E no dia 26, um sábado, cantou no Maracanã, sob ameaça de temporal, para uma multidião estimada entre 140 e 175 mil pessoas — a maior plateia que havia encarado na vida.

Foi uma semana que a cidade não esqueceu, mesmo passados 40 anos. Entre a segunda-feira, dia 21, em que Frank Sinatra desembarcou no Galeão, às 8h40, acompanhado de uma extensa comitiva (vieram com ele sua mulher, Barbara e um grupo de músicos e amigos, entre os quais o ex-vice-presidente dos Estados Unidos, Spiro Agnew) até o sábado (quando o cantor voltou para Los Angeles logo após a histórica apresentação no Maracanã), teve um pouco de tudo que se poderia querer de um bom filme: tensão, comédia, intriga, ação e um bocado de romance — garantido pelas canções imortais que o Ol’ Blue Eyes passou em revista, com a voz dos seus 64 anos de idade.

Em 1977, Roberto Medina tinha 30 anos, carreira ascendente e um comercial de Passport com o aristocrático ator inglês David Niven no currículo quando resolveu mirar em Sinatra. Ele foi a Tom Jobim, que em 1967 havia gravado célebre disco com o americano, mas o maestro jogou um balde de água fria: “Esquece este projeto, o homem é inacessível”, teria dito Jobim. Medina, então, lembrou-se do pianista Sérgio Mendes (que fazia bastante sucesso nos EUA e conhecia figuras importantes do mercado musical), e ele o pôs em contato com o time que gerenciava a carreira do cantor. Depois de muitas reuniões e de idas e vindas, ficou acertado que Frank Sinatra gravaria o comercial do uísque em Las Vegas.

“Quando eu desço todo arrumado, e era o dia mais importante da minha vida, o pessoal da produtora está todo de branco. A mãe do Sinatra tinha acabado de morrer. Ela vinha para o show, o avião caiu numa montanha de neve e ela faleceu. Sinatra estava chorando quando eu cheguei, limpou o rosto, se maquiou e gravou. Ele era tão profissional que pôs uma garrafa do uísque no palco. Aquilo estreitou a nossa relação e depois eu comecei a insistir na ideia de que ele cantasse no Maracanã”, conta.

Medina levou maquetes do estádio carioca ao cantor e prometeu botar até 100 mil pessoas lá, só para vê-lo. Oito meses de reuniões com os empresários aconteceram, até que enfim, em 1979, ele foi a Los Angeles assinar o contrato. Mas nem ali as surpresas acabariam.

“Eu estava pagando um milhão de dólares por quatro shows no Rio Palace e um no Maracanã”, recorda-se o brasileiro. “No dia da assinatura, fui informado de que um milionário tinha oferecido 20 milhões de dólares para fazer um show só, em São Paulo. O empresário do Sinatra desistiu do contrato, eu fui embora triste e, no outro dia de manhã, ele voltou a mim e disse que não ia fazer aquele show de 20 milhões de dólares porque o que Sinatra queria era fazer o do Maracanã”.

Em 21 de janeiro de 1980, contrariando um famoso boato de que uma cigana teria dito ao cantor que ele morreria se fosse à América do Sul, Sinatra desembarcou no Rio de Janeiro. Crítica de cinema de O GLOBO, a jornalista Susana Schild cobriu a passagem do cantor pelo Rio pelo “Jornal do Brasil”. E conta: “Era um evento de um porte que nunca tinha acontecido no Rio. Metade das pessoas achava que ia ser a melhor coisa do mundo e a outra metade achava que não ia dar certo”.

Muitos tentaram chegar a Sinatra, que passou seus dias trancado no quarto.

“Era uma muralha, porque tinha a segurança dele e a do Spiro Agnew. E quando o pessoal ficava gritando na porta do hotel, muitas vezes quem acenava era o Spiro, ele se sentia a maior celebridade”, conta Susana.

Quem fugiu de Sinatra na ocasião foi Tom Jobim, que preferiu se isolar em seu sítio em Petrópolis e não assistiu a nenhum dos shows.

“As barreiras eram muitas, e o meu pai foi para o sítio para não ficar de saco cheio”, revela o arranjador Paulo Jobim, filho de Tom, lembrando que três anos mais tarde o maestro reencontraria o americano em Nova York. “Ele entrou pelos fundos do Carnegie Hall e, no palco, entregou um copo de uísque ao Sinatra”.

No dia 22 de janeiro, Frank Sinatra fez no Rio Palace o primeiro de quatro shows, para os quais o público (de cerca de 700 pessoas por noite) deveria ostentar trajes de gala, mas teria direito (ao custo de 20 mil cruzeiros, equivalentes hoje a R$ 4,7 mil) a um jantar preparado pela equipe do chef Gaston Lenôtre. Na noite inaugural, estavam lá o playboy e jazzófilo Jorginho Guinle, a socialite Odile Marinho, o governador Chagas Freitas e o prefeito Israel Klabin. Entre os artistas, o comediante Chico Anysio, o ator Jece Valadão, o cantor Agnaldo Timóteo (que tentou entregar um LP seu a Sinatra) e a cantora Fafá de Belém.

“Sinatra não era mais criança, o fôlego dele estava mais curto, mas ele era um homem do espetáculo, um charme. A forma com que ele abreviava algumas palavras ou quebrava melodias não deixava diminuir a possibilidade de brilho, ele tinha um domínio absoluto da voz, sem qualquer esforço”, conta Fafá, que ouviu naquela noite canções como “The coffee song” (em homenagem ao Brasil), “The lady is a tramp” e “Let me try again”.

BOM HUMOR - Uma prova da categoria de Sinatra no palco foi a forma como ele lidou com um curioso contratempo, relatado pela reportagem: “Em dado momento, o público e o próprio cantor assustaram-se com uma série de golpes que eram ouvidos através da porta do salão. Com bom humor, Sinatra fez um sinal para um de seus assistentes, que explicou baixinho em inglês ser uma pessoa ‘querendo entrar de novo’. Na mesma hora, Sinatra ordenou: ‘Come in!” (Entre!). As portas foram abertas e todos viram entrar em seguida o ator Jece Valadão, que havia saído no intervalo e fora barrado.”

Intérprete contratada para atender Barbara Sinatra, Amarilis Vianna teve a oportunidade rara de conhecer o cantor em seu exílio carioca: “Ele tinha um afilhado em uma obra de caridade, que ele não conhecia e que ia chegar com um pastor que não falava inglês. Ele precisava que eu fosse sua tradutora, porque ia dar uma bicicleta de presente a esse afilhado”.

Localizado pela reportagem, o menino, Carlos Henrique Henrique Lopes dos Santos, hoje com 52 anos, não quis relembrar o episódio.

Aproximava-se o grande dia do show no Maracanã, que tinha esgotado seus cerca de 5 mil ingressos de cadeiras especiais, no gramado, e os de cadeiras azuis e de arquibancadas (em ingressos equivalentes hoje a R$ 660, nas cadeiras especiais, e R$ 25, a arquibancada). Em “O livro do Boni”, José Bonifácio Sobrinho, então superintendente de Produção e Programação da Rede Globo, descreveu os bastidores da transmissão: “O cenário atrasou e o som só pôde ser montado na última hora. Como chovia, não foi possível passar o som com a orquestra para não molhar os violinos — que ficariam desafinados —, nem inutilizar os microfones. Corria o boato de que o show seria adiado. O Sinatra, profissional, foi para o estádio, mas deixou claro que com chuva não entraria no palco.”

Roberto Medina admite que o show foi recheado de lances dramáticos: “Uma enchente começou dois dias antes, e aí eu falei em entrevistas que o show estava confirmado... e não estava . E no meio disso, as pessoas foram chegando. Quando deu oito horas da noite, havia 174 mil pessoas no Maracanã debaixo de chuva. Fui ao camarim do Sinatra, disse “você me desafiou a botar 60 mil pessoas aqui”, e levei-o até a boca do túnel. Ele viu aquilo e pediu para conversar com chefes de som e de luz. O cara da luz disse que aguentava o show inteiro sob a chuva. O do som, 10 minutos. Aí ele virou para mim e disse: “Está bom 10 minutos para você?” Eu disse que estava ótimo e ele resolveu fazer o show”.

Às 21h, quando Sinatra entrou no palco, milagrosamente, a chuva parou. Ele começou com “The coffee song” e foi por clássicos como “Ive got the world on a string”, “The lady is a tramp” e “Ive got you under my skin”. Em “Someone to watch over me”, o microfone falhou, mas ele não parou.

BEIJOQUEIRO - Em “My way”, Sinatra foi surpreendido pela entrada no palco do português José Alves Moura, que tascou-lhe um beijo (e levou um discreto safanão), passando a partir daí a ser conhecido como Beijoqueiro. Ao público, o cantor confessou: “Esse é o maior momento da minha carreira como cantor profissional.” E gracejou: “Vocês perceberam como Deus foi bom? Parou de chover. Agora vou cantar uma canção que vocês conhecem muito”.

A música seguinte era seu maior sucesso na época, “Strangers in the night”, em uma performance que mereceu a única menção ao show feita em “Sinatra : o Chefão”, biografia do cantor escrita por James Kaplan: “No Rio, Sinatra teve um lapso de memória. Ele estava no meio de Strangers in the night, quando a letra lhe escapou. O estádio inteiro começou a cantá-la — em inglês. Frank ficou emocionado”.

O encerramento foi com “New York, New York”, canção que ele havia acabado de gravar e que se tornaria um dos seus grandes sucessos. Depois desse show, Sinatra só voltaria ao Brasil mais uma vez, em agosto do ano seguinte, para shows no Maksoud Plaza, em São Paulo.

“Sinatra cantou uma hora e 45 minutos no Maracanã, exatamente o combinado”, conta Medina. “Eu ainda estava no gramado com ele quando voltou a chover. Ele chorava muito quando entrou no avião para Los Angeles”.



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