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ESPORTES
Quarta-feira, 09 de Setembro de 2020, 00h:00

FUTEBOL FEMININO

Brasileira faz vaquinha para jogar futebol nos EUA

ALBERTO NOGUEIRA E BRUNO RODRIGUES
Da Folhapress - São Paulo
Joane Ribeiro

Aos 15 anos, Joane Ribeiro sonhava em se tornar jogadora de futebol em Santa Catarina, quando chamou a atenção de uma agência de recrutamento que oferece bolsas esportivas em instituições de ensino dos Estados Unidos.

Além da oportunidade de fazer o ensino médio no país, poderia sonhar com uma carreira promissora onde a modalidade é muito mais valorizada que no Brasil. O acordo, porém, era de uma bolsa apenas parcial, e sua mãe não teria como arcar com os custos restantes de mensalidades e permanência da filha nos EUA.

A desilusão com a chance perdida, somada às experiências ruins que acumulou na modalidade, levaram Joane a um rompimento brusco com o futebol. Dos 18 aos 22, foram quatro anos sem qualquer contato com a bola.

Até que ela viu, em 2019, uma segunda oportunidade de realizar o desejo de jogar e estudar fora do Brasil, desta vez em uma universidade. O empurrão veio após visitar uma amiga de infância que estava se preparando para atuar no futebol universitário dos EUA.

"Fui visitá-la e fiquei pensando: 'Queria que acontecesse comigo'. Voltei para Florianópolis, falei isso para a minha namorada e ela disse para eu procurar empresas que fizessem esses intercâmbios. Achei essa agência, a mesma que a minha amiga fez, entrei em contato com eles e me disseram que poderiam auxiliar. Seria minha última tentativa", diz Joane, 23, à reportagem.

Desde que começou a bater bola em Jaraguá do Sul, onde nasceu, ela alimentou o desejo de ser jogadora, mas sua trajetória somou frustrações que a desencorajaram a seguir sonhando com um futuro nos gramados.

"O primeiro esporte dela foi o xadrez. Foi campeã estadual sub-8 em Santa Catarina. Mas largou para jogar futebol. Quando ela largou o xadrez para jogar futsal teve muito preconceito por ser menina, mas eu sempre apoiei muito. Desde novinha mostrava muita aptidão com a bola", conta a mãe, Ivone, 55.

Em Santa Catarina, a menina que jogava entre os meninos chegou a treinar no time de futsal infantil da Malwee, mas precisou se mudar para Belo Horizonte em razão de um novo emprego da mãe, que é técnica em edificações.

Na capital mineira, ganhou uma bolsa para que defendesse o time de um colégio particular. A oportunidade, contudo, durou pouco tempo.

"Perdi minha bolsa por preconceito homofóbico, porque eu conheci minha primeira namorada lá [no colégio]. Minha mãe foi sempre muito aberta, mas quando ela recebeu a notícia foi muito difícil, porque eu perdi a bolsa e tive que me assumir nesse cenário conturbado. A separação dos meus pais também era muito recente ainda", diz Joane.

Depois, Joane foi a Joinville, mas as condições para atuar pelo time da cidade não eram as melhores. Voltou à casa da mãe em Minas Gerais e recebeu nova oportunidade, desta vez em Blumenau. Foi a última experiência frustrada antes de parar com o futebol.

A partir da desistência, chegou a cursar as faculdades de Jornalismo e Psicologia, mas largou ambas. Trabalhou como auxiliar administrativa, cuidou da agenda de um estúdio de tatuagem e passou por uma loja de departamentos até o contato com a agência que ajudou sua amiga.

Parte da matrícula foi paga pela mãe, mas as mensalidades ficaram por conta de Joane. De junho a dezembro de 2019, a catarinense passou por um período intenso de treinos para retomar a parte física e o contato com a bola depois de quatro anos sem dar um passe. Hoje, divide a bola com o trabalho diário de garçonete e freelas como fotógrafa.

Joane calcula ter enviado aplicações para cerca de 300 universidades norte-americanas. Recebeu uma resposta positiva da Westcliff University, da Califórnia, que ofereceu a ela uma bolsa parcial.

Desta vez, ela lançou uma campanha de financiamento coletivo, a popular "vaquinha", para arrecadar fundos.

A campanha já arrecadou pouco mais de R$ 17.400 e, sem uma data limite, poderá receber contribuições permanentes. Sua mãe também está tentando um empréstimo, que serviria de garantia para que ela viaje mais tranquila.

Mesmo com a bolsa, ela prevê que terá de investir cerca de US$ 12 mil dólares (R$ 60 mil) no primeiro ano, quando deverá se dedicar exclusivamente aos estudos e ao time de futebol da universidade.

A catarinense, lateral esquerda e fã da norte-americana Megan Rapinoe por suas qualidades técnicas e sua militância, parte em outubro para os EUA, onde cursará negócios com foco em esporte.

 


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