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ESPORTES
Quinta-feira, 25 de Junho de 2020, 05h:31

PANDEMIA/TÊNIS

Com Covid-19, Djokovic sofre o golpe mais duro para sua imagem

O sérvio já vem sendo contestado no papel de líder dos jogadores desde o ano passado

DANIEL E. DE CASTRO
Da Folhapress - São Paulo
Djokovic

A confirmação de que Novak Djokovic, 33, está com o coronavírus, é o golpe mais duro dos vários que sua imagem já vinha sofrendo nos últimos meses, em meio à pandemia de Covid-19.

Não pelo fato de ter sido infectado, obviamente, mas pelo comportamento que o tenista apresentou recentemente.

Ainda em abril, ao indicar que poderá se opor à obrigatoriedade de atletas se vacinarem contra o vírus para participarem de torneios, no caso de futuramente existir uma vacina, ele fortaleceu a sua imagem como a de uma personalidade esportiva pouco afeita a evidências científicas.

Não o ajudou, na sequência disso, ter compartilhado em uma transmissão ao vivo nas redes sociais a ideia de que, por meio de orações, seria possível transformar alimentos tóxicos ou água poluída em soluções curativas.

"Cientistas provaram em experimentos que moléculas na água reagem às nossas emoções e ao que foi dito", disse o líder do ranking da ATP (Associação dos Tenistas Profissionais) em uma live.

Ao decidir promover o Adria Tour com poucas restrições e uma série de eventos promocionais ligados ao torneio (jogos de futebol e basquete, atividades com crianças e até festas em boates), Djokovic e os demais participantes apostaram alto na empreitada.

Entre eles estão outros tenistas com lugar no grupo dos melhores do mundo, como Dominic Thiem (número 3 do ranking) e Alexander Zverev (sétimo colocado), que também marcaram presença no torneio e se divertiram na programação "lúdica". Pelo menos até agora, eles tiveram resultado negativo em testes para Covid-19.

Não contaram com a mesma sorte ao menos quatro que estiveram no evento: Grigor Dimitrov, Borna Coric e Viktor Troicki, além de Djokovic.

A sequência de casos de coronavírus entre os participantes mostra que a realidade paralela, livre da doença, em que o torneio parecia acontecer, não passava de uma ilusão.

Ao The New York Times o presidente da ATP, Andrea Gaudenzi, comparou a situação a quando um pai diz aos filhos que eles precisam usar capacete enquanto aprendem a andar de bicicleta, mas as crianças só passam a usar a partir do momento em que levam um tombo.

Nesta segunda-feira (22), o duplista brasileiro Bruno Soares classificou o evento como "show de horror", em entrevista ao site Globoesporte.

"Numa situação mundial que, por melhor que você esteja, nem que seja no Pólo Norte, com nenhum caso, você não vai sair fazendo festa, show de música, aglomeração e postando no Instagram. O mínimo de respeito com tudo o que está acontecendo pelo mundo. Show de horror. Quando o Nick Kyrgios dá sermão é que o bicho pegou mesmo", afirmou o brasileiro.

O tenista australiano Nick Kyrgios é um personagem polêmico, o principal "bad boy" do circuito atualmente, devido a várias demonstrações de indisciplina na carreira. Nas últimas semanas, em uma virada de jogo que só a pandemia poderia proporcionar, ele passou a ser visto como sensato, vocalizando críticas ao que ocorria no Adria Tour.

Soares é membro do conselho de jogadores da ATP, do qual Djokovic é presidente. Ele alertou para a chance de o comportamento do sérvio gerar uma crise no esporte e minar a sua credibilidade.

Entre todas as outras coisas, também porque o líder do ranking deixou de participar de uma reunião entre os atletas sobre a volta do circuito profissional, prevista para o meio de agosto, nos EUA. No mesmo horário, ele jogava futebol com os participantes do seu evento.

O sérvio já vem sendo contestado no papel de líder dos jogadores desde o ano passado. Em março de 2019, Roger Federer e Rafael Nadal reclamaram de não terem sido consultados por Djokovic sobre um movimento, aparentemente apoiado por ele, que levou à não renovação do mandato de Chris Kermode na presidência da ATP.

Isso fez com que o suíço e o espanhol retornassem para o conselho de jogadores, em agosto, o que chegou a ser visto como uma forma de unir forças e diminuir o poder do sérvio. Eles até agora não se pronunciaram sobre a realização dos eventos do Adria Tour.

Federer, com 20 títulos de Grand Slam, Nadal, com 19, e Djokovic, com 17, estão entre os maiores nomes da história do esporte. Ninguém, entre os homens, venceu mais do que eles nos principais torneios.

Mesmo que esportivamente o sérvio deva ser visto como um igual na comparação com os rivais, ele sempre esteve abaixo da dupla em termos de popularidade e várias vezes sofreu com torcida contra nos torneios. O próprio reconhece que para muitos ele ocupa o papel de vilão na trama do tênis mundial e afirma que aprendeu a lidar com isso.

A posição de estar contra tudo e todos já foi vista em diversos episódios da carreira do jogador, que cresceu em meio à guerra civil na Sérvia no início dos anos 1990.

Djokovic teve uma infância pobre, num país de governo autoritário e nacionalista, e conseguiu chegar ao topo de um esporte no qual normalmente triunfam aqueles de origem mais abastada.

Agora, numa temporada que começou em alta para o líder do ranking e quando ele poderia até almejar a conquista dos quatro Slams no mesmo ano (algo que não acontece desde 1969 no tênis masculino e o faria empatar com Federer), a pandemia não só lhe tira essa chance, já que Wimbledon foi cancelado, como causa um dano de difícil reparação para sua imagem. 


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