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Cuiabá MT, Domingo, 09 de Agosto de 2020
ILUSTRADO
Quinta-feira, 23 de Junho de 2016, 18h:52

CRÔNICA

Bruno e os livros

LUCINDA PERSONA
Especial para o DC Ilustrado
Manhã de inverno banhada em luz cinzenta. A neblina envolve e apaga a paisagem, desfaz os contornos amáveis. Mil enredos pulsam entre céu e terra. Começo assim, tomando do cenário o que se passa, para encontrar o melhor modo de colocar esta história real e breve em seu coração, pois, creio, ao coração devem chegar histórias sobre crianças e livros. Em outras palavras, contarei sobre Bruno Cáo Paranaguá, um menino de apenas seis anos de idade. Um menino em seu tempo de fábula, de encantamento, de esperança, de confiança e de aprendizado. Ele é carioca e vive no Rio de Janeiro, mas parte de sua família tem raízes cuiabanas. Bruno é curioso e intrépido, como todas as crianças. Se nos fosse dado vê-lo agora, certamente o encontraríamos rodeado de livros. Ou não seria assim, um menino que acaba de comprar simplesmente vinte livros, no 18º Salão FNLIJ do livro para crianças e jovens, realizado de 8 a 19 de junho no Rio de Janeiro? No dia 12 de junho, a escritora Ana Maria Machado (Medalha Hans Christian Andersen/2000 e ganhadora do prêmio FNLIJ/2016) participou de uma conversa com leitores jovens e adultos. Pois bem, contaram-me, Bruno lá estava e levou para a escritora um livrinho com história e ilustrações feitas por ele mesmo, especialmente para ela. Em dado momento, auditório lotado, ele pediu para fazer uma pergunta: “Como a senhora escreveu a Zabumba do Quati”? – Ana Maria Machado delirou... Como não delirar com uma criança de seis aninhos de idade que leu e deseja saber como foi escrita a história? Um pequeno leitor deslumbrado querendo desvendar os mistérios da narrativa, querendo complementar a sua aventura dentro de uma aventura. Assim como Bruno, temos milhares de crianças que já nascem predispostas ao rico universo das letras, à estética da palavra. É no fundo da infância que muitas vezes brota o escritor e o leitor. Mas se não for tanto, que pelo menos brote o leitor em todos os pequenos corações e que lhes sejam abertas de par em par as portas para a imaginação. Desde há muito, leitura, alunos e professores constituem o universo escolar, mas ainda assim, segue imensa a preocupação quanto ao tema. Há um sem número de pesquisas sobre literatura infantil e juvenil, mostrando caminhos importantes e necessários para se trabalhar com os livros dessa esfera, na formação integral, tanto na escola quanto no lar. É necessário que as reflexões passem pelas leis e por todos os setores que possibilitem a chegada dos livros aos pequenos leitores. Uma real priorização da literatura infantil e juvenil nas políticas públicas. Em Mato Grosso, particularmente, é importante que o sistema literário infantil/juvenil (autor-obra-público leitor) seja legitimado de fato e possa ser confirmado pelas ressonâncias de uma continuidade, permanência, tradição. Por aqui, ainda temos um cenário em que autores escrevem, mas os leitores não são muitos. Não há vigor nas questões relacionadas à política de divulgação da produção infantil. O caminho da obra até o leitor é dificílimo e cada passo esbarra num cifrão. Entretanto, podemos vislumbrar em nosso Estado, ações animadoras que contribuirão para o fortalecimento das produções locais. Fato observado, a propósito, na recente 1a edição do Prêmio MT de Literatura, pelo Governo do Estado e com lançamento já em edital de uma segunda premiação, na qual contemplará a categoria infantil e juvenil. E termino voltando ao Bruno que em sua terna infância navega feliz e atuante na programação básica de sua formação. Bruno que nos surpreende e nos arranca um sorriso de confiança por se envolver veementemente com os livros, dando mostras de que não são objetos caindo em desuso e sim vão para casa e são desfrutados e conversados. Bruno reserva tempo para os livros (que maravilha) neste mundo incerto em que somos levados no bojo de uma onda digital, entregues a iPhones e iPads, presos a whatsApps e outros dispositivos virtuais que nos distanciam cada vez mais do cálido encontro face a face. Bruno já é um leitor motivado/conquistado/formado e que assim prossiga junto a outros milhares de crianças, influenciando e contagiando outras tantas para o hábito da leitura, para o mundo dos sonhos e fantasias, para a ampliação dos horizontes culturais e para o entendimento maior do mundo e de si mesmas. *Lucinda Persona é professora, poeta, membro da AML e autora de “Entre uma noite e outra” - Cuiabá: Entrelinhas, 2014.

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