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Cuiabá MT, Sábado, 04 de Julho de 2020
ILUSTRADO
Sexta-feira, 05 de Junho de 2020, 00h:00

LIVRO

David Nicholls: "Não tenho vontade de ler uma história de amor com isolamento social"

Escritor britânico lança novo romance no Brasil e revela o que quer fazer quando a quarentena acabar: cortar o cabelo e ir a uma livraria

RUAN DE SOUSA GABRIEL
Da Agência Globo - Rio
Davi Nicholls

O título do mais recente romance do escritor britânico David Nicholls é emprestado de um verso de William Shakespeare: “Uma dor tão doce”. Entre um surto de peste bubônica e outro, Shakespeare escreveu obras-primas como “Rei Lear”, “Macbeth” e “Antônio e Cleópatra”. Já Nicholls quase não conseguiu escrever durante esta quarentena, interrompido pelo barulho, pelas aulas on-line de seus dois filhos e pelas tarefas domésticas.

“Duvido que Shakespeare precisasse cuidar de crianças durante a quarentena”, reclama.

Em “Uma dor tão doce”, Nicholls, que conquistou os leitores brasileiros com os livros “Nós” e “Um dia”, volta a escalar um narrador jovem: Charlie Lewis. Aos 16 anos, nas férias entre a escola e a faculdade, Charlie passa os dias fora de casa para fugir do pai, deprimido e falido após o divórcio. Uma tarde, ele topa com um grupo de teatro amador que planeja encenar “Romeu e Julieta”. Ao se encantar com a franjinha de Julieta, ele acaba ingressando no mundo do teatro, apesar da vergonha. O livro alterna entre as vozes de Charlie aos 16 e aos 38 anos, quando, às vésperas de se casar, ele recorda aquele verão shakesperiano.

Em entrevista por e-mail, Nicholls conta que anda com dificuldade de ler histórias de amor em tempos de isolamento social. Afirma ainda que quem gosta de livro tem obrigação de ajudar as livrarias a sobreviver. E prevê que, encerrada esta fase, é possível que o mundo entre “numa era de contato físico selvagem e decadente”.

 

P - Como você passou a quarentena?

NICHOLLS - Nos últimos dois meses, não passei uma hora longe da minha mulher e dos meus filhos. Felizmente, tudo tem corrido bem, apesar de alguns atritos. Para o meu trabalho, a quarentena tem sido desastrosa. Há obstáculos práticos, como as interrupções constantes, as aulas on-line das crianças, as tarefas domésticas, a ansiedade. Queria escrever uma história contemporânea, mas o significado de “contemporâneo” muda a toda hora.

 

P - Shakespeare criou clássicos durante surtos de peste bubônica. A pandemia pode inspirar escritores?

NICHOLLS - Em primeiro lugar, duvido que Shakespeare precisasse cuidar de crianças durante a quarentena. A resposta de Shakespeare à peste não foi escrever sobre a doença, mas sobre o que continua existindo, não importam as circunstâncias. No futuro, talvez exploremos esse período de nossas vidas. Poderemos escrever sobre o amor na pandemia, a dor do isolamento social, o heroísmo dos médicos. Fico pensando em como escrever um roteiro, que exige o engajamento físico dos atores. Monólogos são ótimos, mas o drama está na interação dos personagens, nos beijos e nas brigas.

 

P - Dá para escrever histórias de amor com isolamento social?

NICHOLLS - Talvez dê para escrever sobre a dor da separação, a frustração da distância física. Honestamente, não há nada que eu queria ler menos do que uma história de amor com isolamento social. Depois da quarentena, vamos desejar o contato físico. Suspeito que, quando for seguro, vamos entrar numa era de contato físico selvagem, desesperado e decadente.

 

P - "Uma dor tão doce" fala muito de teatro. Qual é a sua relação com os palcos?

NICHOLLS - É uma relação estanha. Vim da classe trabalhadora e fui pela primeira vez ao teatro aos 17 anos. Teatro para mim era coisa de gente metida. Ainda é. Na adolescência, passei a gostar de atuar. Trabalhei como ator por anos, e interpretei pequenos papéis no National Theatre nos anos 1980. Trabalhei com atores incríveis e fui criado de Judi Dench em “A gaivota”, de Tchekhov. Nunca tive mais de uma fala ou duas, mas amava aquele mundo. Aprendi a escrever ao assistir os personagens ganharem vida no palco. Embora eu fosse um péssimo ator, não foi uma completa perda de tempo.

 

P - Como foi escrever da perspectiva de um adolescente? Como você era quando tinha a idade do Charlie?

NICHOLLS - Surpreendentemente, escrever da perspectiva de um adolescente foi fácil. Charlie é mais rebelde do que eu era . Eu era bonzinho e gostava de ler. Minha família também era mais estável do que a dele, ainda que tivéssemos nossos problemas. Não tenho saudade daqueles tempos difíceis e infelizes, mas lembro de tudo vivamente: da ansiedade, a vergonha e a paixão.

 

P - Você ganhou um prêmio pelos roteiros da série “Patrick Melrose”, baseada nos livros de Edward St Aubyn e estrelada por Benedict Cumberbatch. Qual a diferença entre escrever um romance, um roteiro e adaptar o livro de um outro autor?

NICHOLLS - Eu poderia escrever páginas e páginas sobre isso, mas tudo se resume a uma coisa: controle. Um roteirista é um colaborador, o que às vezes é bom, às vezes não. É angustiante, mas, quando dá certo, é uma alegria. Como roteirista, você nunca está no comando. Como romancista, é quase tão poderoso quanto o próprio Deus. Não tem diretor, elenco, limite de tempo ou orçamento. O lado ruim, é claro, é que o sucesso ou a culpa não podem ser divididos com ninguém. Pertencem só ao autor.

 

P - Você é um entusiasta das livrarias de rua e já criticou quem as frequenta só para escolher que livros comprar on-line. Como gostaria que seus leitores apoiassem as livrarias em quarentena?

NICHOLLS - Comprar on-line é rápido e conveniente. Eu também compro pela internet, mas quem gosta de livros deve ajudar os livreiros a pagar o aluguel e o salário dos funcionários. Ao passear em livrarias, faço descobertas e converso com pessoas apaixonadas por livros. Se quiser continuar fazendo isso, tenho que apoiar as livrarias agora. A primeira coisa que vou fazer quando a quarentena acabar é cortar o cabelo. A segunda é ir a uma livraria.

  Serviço.

 "Uma dor tão doce". Autor: David Nicholls. Tradução: Carolina Selvatici. Editora: Intrínseca. Páginas: 384. Preço: R$ 54,90. 


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