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Cuiabá MT, Domingo, 09 de Agosto de 2020
ILUSTRADO
Sexta-feira, 29 de Junho de 2018, 17h:24

IMPRENSA MAHON

Eduardo Mahon conversa com Gabriel Novis Neves

Na entrevista da semana, Eduardo Mahon conversa com Gabriel Novis Neves, médico, professor e primeiro reitor da UFMT. A professora Cristina Campos auxiliou com os questionamentos nessa entrevista que foi produzida em duas etapas, devido à impecável memória do entrevistado. Mahon: Quem frequentava o Bar do Bugre? Gabriel: Na verdade, o bar era um centro de animação da Cuiabá da primeira metade do século XX, ali havia fregueses na parte da manhã, a tarde e à noite, um caso típico era o Rubens de Mendonça. O hábito dele era muito interessante. Ele contava uma história pela manhã e, à noite, contava uma história diferente. (risos) Na parte da manhã, os advogados, juízes, desembargadores e o secretário de D. Aquino ia de batina preta, sentavam-se numa mesa preta e cumprida e comiam o salgadinho da minha mãe, principalmente pastel frito. Me tornei um grande fritador de pastel. O dia que mais vendeu pastel no Bar do Bugre foi no final da Segunda Guerra, 08 de maio de 1945. Faltou pastel pra tanta gente. Mahon: Por que bugre? Gabriel: Meu pai era bugre, pele queimada. Eu mesmo era chamado de bugrinho quando eu era muito pequeno. Cristina: O bugrinho era o Freire. Gabriel: Pois é, eu morava na Mandioca e perguntei pra mamãe sobre o apelido do Freire que também era bugrinho. Então, meu apelido ficou “Bié”. Sou descendente de gaúcho, carioca e uruguaio e, do lado materno, o Novis é judeu. Mahon: E o Bar Colorido? (risos) Gabriel: Na época do meu pai, não havia o Internacional. Isso é muito novo! Naquela época, meu pai fez um salão grande para a “nobreza”, para a sociedade, as boas famílias. Onde ficava a sorveteria, de vez em quando, ficavam as mulheres da vida. Era a turma que vinha do beco do candeeiro, tudo isso mesmo antes da Carminha. No bar, tinha de tudo: os intelectuais, os escritores, artistas, compositores como o Tote Garcia que ia de terno na hora do almoço tomar conhaque. O João Ponce, quando chegava o fim do dia, atravessava o Palácio para comprar cigarro, incomodado com o cheiro de urina da repartição. A gente cedia o banheiro para ele. Quem diria? Cristina Campos: Há um relato de que, enquanto a antiga Matriz era dinamitada, os cuiabanos acompanharam bebendo no Bar do Bugre... Gabriel: Bebendo e escondendo-se dos estilhaços. O bar ficava de esquina. Se há um ponto polêmico de Cuiabá é esse. A demolição não era o que se comentava. Eu frequentava a igreja, fui coroinha, segurei o turíbulo de D. Aquino, meu padrinho de crisma. A verdade é que a igreja não estava em boas condições. Os fieis não estavam mais indo à igreja. A frequência estava baixa. Os santos não estavam mais nos altares por causa do peso, havia muitas escoras dentro e fora. Havia uma preocupação por causa da segurança. Os cuiabanos ilustres formados em engenharia como o Luiz Lotufo, Ezio Calábria e outros, eles deram um parecer pela demolição. Eu mesmo vi partes da parede caindo, ninguém me contou. No dia da implosão, papai andou fechando aquelas portas que davam para a catedral por causa das pedras. Mahon: Quando você voltou do Rio de Janeiro para cá, qual era o hábito mais provinciano com o qual você se deparou? E a vanguarda? O que era a vanguarda em Cuiabá? Gabriel: Voltei no final de 64, com minha mulher grávida de 9 meses. Eu morava na Floriano Peixoto, sem rua pavimentada. À noite, havia uma lagoa no que é hoje a Escola Técnica. Era lotada de sapos, uma coisa bonita de ouvir. Morávamos numa pequena casa de 80 metros quadrados, sem ar condicionado. Meu pai havia falido, não tinha carro, não tinha telefone. Eu só tinha crédito, mesmo tendo acabado de chegar. Lembro das retretas na Praça Alencastro. Enfim, a cidade era bem provinciana. A alternativa era rádio. Assim mesmo, havia muita oscilação de energia. As senhoras usavam leque se abanando, a moçada ficava perto do gasômetro porque, logo subindo, tinha o Santa Rosinha. As meninas adoravam os pilotos, os meninos arrumavam brigas tremendas. Quando acabava a retreta, a meninada que vinha do Rio, de São Paulo, daqui mesmo, ia para o Beco do Candeeiro. Dona Nini Constantino, muito zelosa da juventude, criou o Clube Feminino para preservar o bom nome das famílias. Mahon: E vanguarda? O que era vanguarda? Gabriel: A vanguarda era fumar, era o sujeito que contava as aventuras amorosas de cabaré. A vanguarda dos maiorais era a política. Isso aparecia nos jornais. No combate, estava o Eurícles Motta, o Villas Boas. Mas nada realmente moderno. Cristina: Mas a ideia da UFMT – Universidade da Selva – era vanguarda. Como foi a articulação para a fundação da UFMT? Gabriel: A ideia do ensino superior começou em 1808. Portanto, é antiga. O imperador fez uma circular para que todas as províncias pudessem criar uma forma de marcar a mudança da Família Real para o Brasil. O nosso governador morava em Vila Bela e consultou os recursos do tesouro e decidiu criar um curso de medicina com o único médico da cidade. O curso começou, mas depois não teve perna. Logo depois, a capital foi transferida. A questão do ensino foi uma longa história. O Palmyro Pimenta tinha uma preocupação com a quantidade de rábulas e fundou uma escola de Direito na casa dele e dava aula à noite. Não vingou. Reabriu em 1952. Na primeira visita do MEC, fechou novamente. Quando reabriram o processo de autorização para o funcionamento do curso de Direito, foi importantíssimo o Wilson Fadul e o Alcedino Pedroso da Silva – o Didi. Os bacharéis começaram a lecionar como o Antonio de Arruda, famosíssimo, João Antonio Neto, Gervásio Leite, Clovis de Mello, todos competentes. Cristina: Você ainda tem, da época da fundação, as coisas que o Wlademir fez? Gabriel: Tenho tudo. Absolutamente tudo. Mas tenho uma preguiça de escrever minhas memórias. Se você, Mahon, quiser tentar, te dou acesso a tudo. Eu não dou conta. Diga ao povo aí de fora que estou perfeitamente bem! Mahon: Uma curiosidade que sempre tive: como foi o processo de produção do símbolo da Universidade? A administração passou algum briefing ao Wlademir Dias-Pino ou ele apresentou a marca sem nenhuma pauta prévia? Gabriel: Até 1971, não existia o Conselho das Universidades Públicas Brasileiras. Aconteceu que, em 72, em agosto, houve a primeira reunião. Foi ali a origem da Universidade da Selva. Eu tinha muita consciência do que era. Não era um intelectual, sou um homem comum, nada de extraordinário. Mas minha preocupação era ter uma universidade que não fosse apenas mais uma estatística do MEC. Os críticos vinham com sede para acabar com o projeto. Não tínhamos mestres, nem doutores. Para nos defender, convoquei os meus “pistoleiros intelectuais”, João Vieira, Pedro Paulo Lomba, Célio da Cunha, Aline de Figueiredo e, entre eles, o Wladimir Dias-Pino. Agreguei à equipe o arquiteto João Carlos Bross. Fomos à Brasília, enfim, levar o documento básico da Uniselva, escrito pelo Pedro Paulo. Distribuí para todos os presentes que não acusaram nenhuma sensibilidade, mas a mídia do sudeste deu destaque de primeira página (Folha de São Paulo, Estadão, até o Callado fez um artigo em favor da Uniselva). Mostrei o texto pro Wladimir que ficou entusiasmado e disse que tinha condições de criar a logomarca. Ele me disse que pensou numa superfície líquida sendo atingida por um objeto sólido. É como um aluno que chega à universidade e lida com o conhecimento, ele é a pedra na superfície da água. Depois, vai se aprofundando no conhecimento. Como o símbolo era próximo da Globo, o Hans Donner nos chamou para um acordo. E não aceitamos pela originalidade do Wlademir. A ideia era de círculos na água contracenando com a profundidade do saber. O Wlademir era um gênio. Ele pensou em estacas de madeira para fazer a barreira da UFMT, fazendo um efeito visual que deixava o motorista tonto, caso se aproximasse. Eu não aprovei. Era muito perigoso. Mahon: Seu sucessor Benedito Pedro Dorileo cunhou um termo inesquecível sobre a UFMT que é “fazejamento”, isto é, um comprometimento pragmático com as coisas mais simples, um envolvimento até braçal nos primeiros tempos. Qual o principal dificuldade inicial? Gabriel: Primeiro, fiquei muito decepcionado quando fui “intimado” à reitoria. Me preparei para ser médico do interior, afinal de contas, Cuiabá era uma cidade do interior. Me mirei no Dr. Epaminondas. Foquei no projeto de partos, cesarianas, cirurgias gerais de pequeno porte, passei quatro anos e meio percorrendo hospitais por conta própria. Éramos 26 médicos em atividade, nessa época. Em 66, quando Pedrossian assumiu, ele tomou conhecimento pelos jornais dos problemas de saúde em Mato Grosso, sobretudo da mortalidade dos doentes mentais e dos doentes crônicos. De início, ele solicitou ao secretário de saúde que arrumasse os hospitais visitados, independentemente dos custos envolvidos. Então, assumi a direção da colônia de alienados, futuro Adauto Botelho. E, por causa desse posto (ainda que houvesse muito preconceito da sociedade), fui chamado para reitor. Isso, de Corumbá para cá! Se fosse um governador cuiabano, provavelmente eu não seria nomeado. (risos). A imprensa de Cuiabá não me queria, na verdade. Fui nomeado reitor pro-tempore em 16 de março de 71, com o orçamento federal já fechado. Portanto, em 1971, não houve nenhum orçamento. Procurei o Fragelli e mostrei a situação financeira. Ele me pediu que calculasse o mínimo do custeio para que o Estado de Mato Grosso pagasse. Então, nem o Reitor, nem os pró-reitores tínhamos salário. Nem eu, nem Dorileo (responsável pela área acadêmica), nem Atílio (chefe do administrativo) ganhamos nada. Ficamos sem receber esse período inicial, a equipe toda. Mahon: Quero agora pensar sobre o impacto externo à UFMT. Os tradicionais redutor culturais cuiabanos foram enfraquecidos? Gabriel: A vida cultural em Cuiabá era intensa. A Academia brilhava. Os saraus eram lá, os convidados que recebíamos geralmente o levávamos para lá. O Rabelo Leite fazia transmissões direto da Casa Barão de Melgaço. A UFMT não achatou a vida cultural da cidade. Pelo contrário. Por exemplo, na inauguração da sala dos tachos, a população ribeirinha foi revalorizada. Fizemos uma composição de tachos que é um show de exposição, de cultura. Nós já tínhamos alguma experiência no Museu Rondon com Wlademir e Pedro Lomba. O formato da Casa da Flauta era muito significativa, por exemplo. Era possível ver os índios passeando pela universidade, uma raridade em qualquer instituição de ensino. Cristina: Outra coisa que ficou genial foi a flutuação das peças indígenas. Gabriel: O pessoal que era tradicional me impunha a catalogação, uma série de regras etc. Para nós, entretanto, importava mais a questão estética da linguagem indígena ou a reprodução do quotidiano indígena para que os visitantes se emocionassem. Foi ali que recebi, inclusive, Presidentes da República. Quando o Geisel nos visitou, a segurança não queria ir ao Museu. Eu o convenci alertando que aqui é a terra do Rondon. Foi uma bagunça com a segurança e tal. O João Vieira queria dar o tacape ao Geisel, o símbolo de autoridade dos índios cinta-larga. O Geisel pegou o tacape e ficou rindo daquilo tudo. Nesse dia, acredito que ele dividiu o Estado. Quando entrou no carro, o Presidente disse ao Fragelli que iria dividir Mato Grosso. Disse que o Estado era inadministrável do tamanho que era. A UFMT daria sustentação a Mato Grosso. Mahon: Mas e a cultura? Esvaziou-se ou foi reforçada? Gabriel: A UFMT valorizou a cultura indígena, mudou o nome para a Universidade da Selva. Não era a cultura tradicional do centro da cidade. Nós acrescentamos, digamos assim. Imagine o choque de uma mulher de Barão de Melgaço ao saber que o que ela produzia era arte... A Universidade respeitava a cultura indígena. Até o gravador do Juruna foi a UFMT que deu. Cristina: Esse ponto é muito importante. As instituições tradicionais nunca abordaram a realidade indígena como um valor central. A valorização de objetos não tradicionais, de ribeirinhos, de índios, foi extremamente importante. Mahon: Esse movimento de valorização indígena foi espontâneo ou um plano? Gabriel: Tínhamos a consciência do que estávamos fazendo. Eu sempre dizia que a UFMT era facilitadora dessas manifestações. Eram projetos excelentes e nós não poderíamos deixar passar. Montenegro, Lomba, Wlademir eram conceituais. Contratamos o China, o Penha, esse pessoal idolatrado na cidade, absorvendo da cuiabania grandes valores. Quantos casos desses, de contratação de ótimos músicos, tivemos na Orquestra? Mas o começo de toda essa animação cultural com a escola de samba. Acho, inclusive, que somos a única universidade que tinha uma escola de samba com o Batista Jaudy. Cristina: Eu sei que, de 76 a 79, o Freire e o Wlademir fizeram o carnaval a pedido do Rodrigues Palma. Havia um estigma de que, quem desfilava na rua, era prostituta. E a UFMT foi quem rompeu com esse preconceito, colocando as alunas para desfilar. O papel da universidade, nesse sentido, foi de quebrar o paradigma da sociedade tradicional. Gabriel: Eu sofri preconceito por causa dessa compreensão! Fui criticado por chamar a universidade de Uniselva, de colocar as meninas pra desfilar, por investir na cultura indígena. A turma queria que eu comprasse mais quadros-negros, mais carteiras, mais giz. O pessoal dizia, inclusive, que tudo o que fazíamos para a cultura era dinheiro jogado fora. Quando o Portela veio e viu o que estávamos fazendo, fez um elogio público à valorização da cultura popular. Daí as críticas acabaram. Mahon: Considere uma colocação: antes de 1970, uma parcela da juventude mato-grossense era obrigada a se graduar no Rio ou em São Paulo, geralmente. Mas, compensando a inconveniência da distância e dos custos, traziam de lá uma forte influência intelectual. Após 1970, a UFMT virou um forte centro de gravidade. Na sua opinião, como ficaram essas relações de troca cultural? Gabriel: Cuiabá era muito isolada, sobretudo na comunicação. Em 70, a gente já tinha condições de assistir ao jogo de futebol no mesmo dia. Vinha o rolo de filme por avião de São Paulo e, depois, de Campo Grande. Num primeiro momento, houve realmente essa dificuldade, mas depois com a tecnologia, a comunicação ficou globalizada. As notícias do Rio-São Paulo chegariam de qualquer forma. A pós-graduação foi outra alternativa para abrirmos essa rede de comunicação. Conseguimos um bom diálogo com os professores que iam para fora, ainda que pudesse haver um temporário esvaziamento no campus. A chegada de outros professores de outras cidades também contribuiu com essa abertura, com essa comunicação. O que aconteceu foi uma reação da sociedade tradicional com essa mescla. Mas contamos com apoio de homens-chave como Silva Freire que chamava muita gente para a universidade depois das 18h com o objetivo de fazer dela um point. Trabalhamos com Nelson Pereira dos Santos e Antonio Callado, por exemplo. Os alunos acotovelavam-se e subiam até as janelas para assistir às aulas. Os irmãos Villas Boas tropeçavam lá dentro. Em resumo: esse conjunto reforçou a renovação cultural.

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