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ILUSTRADO
Quarta-feira, 23 de Janeiro de 2019, 18h:11

Em 'Green Book', Peter Farrelly usa humor sutil para falar sobre solidão

INÁCIO ARAÚJO
Da Folhapress - São Paulo
De Peter Farrelly sempre se pode esperar alguma surpresa, desde que, junto com seu irmão Bobby, relançou o burlesco com "Débi e Loide" (1994). Muita água passou debaixo da ponte: os gostos mudaram, o orçamento dos filmes, as produções para grande público etc. Mesmo o burlesco dos irmãos Farrelly se enfraqueceu com o tempo. Surge então "Green Book: O Guia" – um dos indicados ao Oscar de melhor filme -, em princípio um filme dramático. Uma espécie de "Conduzindo Miss Daisy" com sinais trocados. Aqui, um leão de chácara italiano momentaneamente desempregado é contratado, em 1962, para chofer e segurança de um importante pianista negro durante uma excursão ao Sul dos Estados Unidos. Tony Vallelonga, o leão de chácara. Italiano de origem, é racista, como quase todo mundo nos EUA da época. Essa é a menor das diferenças entre ambos. Dr. Shirley, o pianista, é um homem culto, por vezes até pedante. Tony é um bronco, com um tipo de experiência do mundo bem primitiva. Em poucas palavras: tem tudo para dar errado. Exceto, talvez, por um fato: nenhum dos dois homens costuma exercitar a autocomplacência. Em vez do entendimento quase piedoso que aproxima os personagens de "Miss Daisy", aqui é uma relação não raro dura que se estabelece entre os dois homens. É por ela que se conhecem e se reconhecem em suas diferenças. Pois Tony é um homem prático e Dr. Shirley por vezes lembra um Martin Luther King do piano (não esquecer que estamos no governo Kennedy, momento essencial da luta pela da igualdade - ou alguma igualdade). Tudo isso serve para nos situar na época e nas circunstâncias dos personagens, o que leva quase obrigatoriamente a um filme sobre conhecimento, autoconhecimento e entendimento. Daí por diante, tudo depende muito da maneira como essa história banal de encontro entre contrários é conduzida. E, da primeira à cena final, Farrelly conduz a trama com uma sabedoria que deve muito ao seu trabalho na comédia. Vejamos: há um negro e um branco racista convivendo, durante a viagem de um pianista consciente da luta pela igualdade ao sul que faz do racismo uma bandeira. E, no entanto, eis um filme que deriva não raro para a comédia dramática. Farrelly tira todo o peso que a convenção costuma atribuir a esse tipo de situação. Não faz da história uma plataforma da luta antirracista (ela não precisa disso, Trump basta). Nada disso. A relação entre os dois produz por vezes um formidável humor. Não desses de rolar de rir, não é isso: um humor que vem de contrastes e afinações sutis (ver a cena de ambos num bar só para negros, no sul). Tão sutis que até o final quase não nos damos conta de que o tema central, mais do que o racismo, mais do que a tolerância, é a solidão. Essa questão é levada quase sempre com um sorriso discreto, um sentido de tempo e da concisão que não se vê todos os dias, sem falar das luvas de pelica de Farrelly, que explora até o osso o talento (que parece maior, filme após filme) de Mortensen e acomoda Ali da melhor maneira possível. Com um pouco menos de música sentimental nas sequências finais, seria melhor ainda. Como está, é um filme que surpreende pela paixão - seja aos seus personagens, seja ao cinema como forma de conhecimento e exercício da sensibilidade: algo meio raro num filme de grande audiência, nos dias que correm. GREEN BOOK: O GUIA PAÍS EUA, 2018 DIREÇÃO Peter Farrelly ELENCO Viggo Mortensen, Mahershala Ali, Linda Cardellini CLASSIFICAÇÃO 12 anos QUANDO Estreia nesta quinta (24) AVALIAÇÃO Muito bom

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