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Cuiabá MT, Terça-feira, 20 de Outubro de 2020
ILUSTRADO
Quarta-feira, 23 de Setembro de 2020, 00h:00

CINE-CRÍTICA

Escravos agora libertos habitam pensamento de brancos em filme

INÁCIO ARAUJO
Da Folhapress – São Paulo

Pode-se resumir "Todos os Mortos" como a história das mulheres de uma família de fazendeiros decadente que deixa o interior, e se encontra em São Paulo em 1899, ou seja, onze anos após a Abolição, dez anos após a Proclamação da República e véspera de um novo século.

Das três, uma é freira, a segunda vive afogada em seus fantasmas, a terceira, a mãe delas, experimenta o sentimento de fim de vida com alguns ressentimentos e outras tantas esperanças. Esse é um retrato meio expeditivo das três mulheres, em parte porque, a rigor, o filme propõe uma questão bem familiar aos brasileiros: que país é este?

A saber: Maria (Clarissa Kiste), a freira, representa a Igreja Católica, seu cortejo de superstições e a necessidade de perseguir tanto quanto possível as manifestações religiosas de origem africana, ou seja, cultos que nos chegaram por meio dos escravos. Maria é uma espécie de encarnação do século que passou.

Esses escravos, agora libertos, habitam o corpo e o pensamento dos brancos com intensidade. O de Ana (Carolina Bianchi) ainda mais. Corpo afetado pelos gritos, pelos suplícios e, sobretudo, pelos cadáveres dos ex-escravos. Como se experimentasse o passado com atração e repulsa. Como se tentasse dar um pulo à frente, passando do desejo materno (o piano clássico) ao próprio desejo, mas não fosse capaz desse gesto -que equivaleria, também, a superar o passado e entrar no presente.

Existe em tudo isso um ambiente de horror (não por acaso, Marco Dutra é um dos diretores), mas ele nunca se consuma -pois não por acaso o outro diretor é Caetano Gotardo, que aprecia essas situações flutuantes, suaves e terríveis como a polca que Isabel (Thaia Perez) ensaia e busca ensinar ao menino negro que trança pela casa, junto com a mãe.

Quem quiser fazer o inventário dos senões de "Todos os Mortos" terá com o que se divertir. Eles estão à vista. Pode-se observar certas instabilidades de tempo (no início, em especial), certas instabilidades na direção de atores, ou a ideia questionar a ideia de abrir o filme com o canto africano de uma mulher negra. Deixa a impressão de que o problema nacional (que país é este?) são os negros.

Essas pequenas questões não bastam, nem de longe, para afastar a dialética do filme: existe o branco de um lado, sua cor, suas crenças e sua dominação. E do outro lado, o negro, com cor, crenças e a domesticação a que anos de cativeiro o mais cruel possível o submeteram.

Como promover o encontro dessas potências que vêem o mundo passar do bonde puxado a burro ao elétrico, da casa térrea ao arranha-céu sem nunca se encontrarem de maneira adequada a projetar um futuro decente? Essas forças condenadas uma a sucumbir à dominação da outra e a outra aos horríveis fantasmas que esconde na insânia?

Eis a questão que ora numa atmosfera que beira o terror, ora a observar o mover-se das águas paradas, propõem Dutra e Gotardo. O de um encontro necessário, mas nem por isso prestes a acontecer.

Sim, existe algo de "O Som ao Redor" aqui. Um som ao redor à paulista, que talvez seja mais palpável nas imagens discrepantes: na caligrafia caprichada do século 19 que passa não ao computador moderno, mas aos garranchos nas paredes do século 21. Essa marca da impossibilidade de ser. Pessoal ou como nação.

Não é uma questão pequena, afinal. Nem pequeno é o filme.

 

TODOS OS MORTOS

Produção Brasil e França, 2020

Direção Caetano Gotardo e Marco Dutra

Elenco Clarissa Kiste, Thaia Perez e Leonor Silveira

Quando Sáb. (18)

Avaliação Ótimo

 


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