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Cuiabá MT, Domingo, 29 de Novembro de 2020
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Quarta-feira, 17 de Junho de 2020, 00h:00

CINE-ANÁLISE

Longa sul-coreano "Hotel às Margens do Rio" ecoa Guimarães Rosa

"Hotel às Margens do Rio", que estreou há pouco no Belas Artes à la Carte, devolve ao cinéfilo a estranha, euforizante sensação de estar entrando no meio de um filme

INÁCIO ARAUJO
Da Folhapress - São Paulo
Filme sul-coreano 'Hotel às Margens do Rio'

"Hotel às Margens do Rio", que estreou há pouco no Belas Artes à la Carte, devolve ao cinéfilo a estranha, euforizante sensação de estar entrando no meio de um filme.

O que aconteceu antes, afinal? Há um homem que espera por duas pessoas no restaurante de um hotel. Sabemos que se trata de um poeta conhecido, pois a moça que o serve lhe pede um autógrafo. Existe uma moça com uma ferida na mão, aparentemente uma queimadura. O que houve com ela? Existem os dois homens que esperam pelo poeta. Quem são? Por que estão aí?

Hong Sang-soo parece, aqui, retomar o projeto de Abbas Kiarostami em seu último filme, de contar uma história que já começa no meio. Se formos pensar bem, toda história começa pelo meio. A convenção é que obriga a lhe dar um início. Aquele que chega no meio de um filme tem um prazer complementar, o de imaginar o que teria acontecido antes. Quando, depois, vemos a primeira parte da trama, não raro percebemos que a história imaginada era melhor.

Essa é uma marca das mais fascinantes de certo cinema contemporâneo –as histórias nos chegam tortas, parecendo imprecisas, incompletas, forçando o espectador a se tornar parte delas.

Eis o que se passa em "Hotel às Margens do Rio". Há um homem hospedado num hotel que espera a chegada de alguém. Quando sai do quarto vemos uma moça entrando em outro, no mesmo andar. Chegando ao restaurante, ficamos sabendo que é um poeta.

Logo descobrimos algo mais –que os dois rapazes que o procuram são seus filhos; um deles, cineasta. O pai os abandonou quando o menor ainda era bem pequeno. Quanto às moças, é melhor não dizer mais nada. O "spoiler" aqui não consiste em contar o final, e sim o que aconteceu antes.

Esse grupo de personagens se encontrará e se perderá ao longo de um dia em que conhecemos um pouco de seu passado e desfrutamos de seu presente desencontrado.

A horas tantas, uma das moças se refere a Byung, o filho menor do poeta, dizendo se tratar de um cineasta ambíguo. Parece, no caso, estar fazendo alusão ao próprio Hong Sang-soo e, mais precisamente, a "Hotel às Margens do Rio".

Pois aqui navegamos entre a neve no exterior e o calor do restaurante ou dos quartos; entre o masculino e o feminino; entre passado e futuro; entre a noite e o amanhecer –mas navegamos (ou flutuamos) sempre como se estivéssemos, a exemplo do estranho, insuperável conto de Guimarães Rosa, numa terceira, impossível margem do rio.

Como o conto, o filme é misterioso e admirável. Tem o interesse adicional de dar seguimento a uma linhagem de cinema que vem de Hawks e Renoir, passa por Ozu, Eric Rohmer e Abbas Kiarostami –um cinema do cotidiano, em que não raro as pequenas, insignificantes histórias são mais atraentes e cheias de vida do que as grandes sagas.

E aqui, no caso, quando chegamos ao fim da história, sabemos muito bem o que acontece, mas a intriga ainda nos intriga. Por que tais coisas aconteceram, afinal? E mais, o que acontecerá a seguir, pois a conclusão é ao mesmo tempo conclusiva e seu inverso. Ambígua, em uma palavra.

À margem do filme existe ainda algo a dizer. Até algumas semanas atrás só se pensava em estrear um filme em streaming se ele fosse ruim ou se produzido pela Netflix em pessoa. A quarentena começa a alterar essa rotina. O Festival Varilux, por exemplo, está sendo em streaming, como foi o festival É Tudo Verdade.

A distribuidora Arteplex promove um festival de pré-estreias em streaming. Cinematecas como a francesa e a portuguesa exibem filmes de seu acervo em streaming.

São fatos que acontecem impulsionados pela quarentena. Quanto ao futuro, ninguém pode ter certeza alguma. Timidamente (mas parece que cada vez menos) o Belas Artes vai transferindo suas estreias para o novo meio.

"Hotel às Margens do Rio" é o primeiro lançamento de maior alcance. Lança tantas questões quanto o próprio filme. Por exemplo, isso arruinará o lançamento em cinemas? Mas também, haverá lançamento em cinemas? Estará o espectador (em especial o assinante do Belas Artes à la Carte) disposto a pagar mais para ver em casa uma estreia, mesmo uma do mestre sul-coreano?

Enfim, eis um momento em que nosso futuro parece estar tão em suspenso, tão ambíguo em relação ao cinema e tudo mais, quanto o presente e o futuro das personagens deste filme. Dele ninguém dirá que é pouco adequado ao momento.

 

HOTEL ÀS MARGENS DO RIO

Produção: Coreia do Sul, 2018

Direção: Hong Sang-soo

Elenco: Kim Min-hee, Yoo Joon-Sang e Gi Ju-bong

Disponível no Belas Artes à la Carte 


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