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Cuiabá MT, Segunda-feira, 01 de Junho de 2020
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Terça-feira, 17 de Março de 2020, 00h:10

CORONAVÍRUS

Los Angeles revive pausa forçada do período pós-11 de Setembro

Com sets de filmes e séries parados, Hollywood tenta entender impacto da Covid-19 nos hábitos de consumo audiovisual

ANA MARIA BAHIANA
Da Agência Globo - Los Angeles

Quando comecei a escrever este texto, na sexta-feira, a notícia do momento era a Disney suspendendo suas 16 atrações em produção, tanto para TV e streaming quanto para cinema. Meia hora antes, a Netflix tinha anunciado a mesma coisa com seus projetos.

A sede da Netflix em Hollywood, aliás, está fechada, lacrada e vazia. Todos os funcionários receberam a ordem de trabalhar remotamente. Uma hora antes, quatro das maiores forças motrizes da indústria, os estúdios Disney e Warner Bros, no subúrbio de Burbank, e as agências CAA e ICM, no coração de Los Angeles, tinham feito a mesma coisa. (Ouviram-se resmungos de altos executivos que não queriam perder os mimos de serviços de entrega e tinturaria.)

Antes, chegaram as noticias de que um filme, um campeonato e um evento tinham sido cancelados: “The last duel”, em filmagem na Irlanda, com Ridley Scott no comando; o campeonato nacional de beisebol; e a exibição para imprensa de “Mulan”. A première de gala, na segunda-feira, já tinha sido tensa — muitas poltronas vazias, ninguém querendo se sentar perto de ninguém, filas para lavar as mãos nos banheiros... E, quando uma pessoa tossiu na recepção, sem cobrir o rosto, foi veementemente vaiada.

Esta é a vida da capital do entretenimento nos tempos da Covid-19. E, claro, quando você terminar de ler este texto muitas outras notícias de adiamentos e cancelamentos terão sido divulgadas em todo o mundo.

Não é a primeira vez que Hollywood e a indústria enfrentam uma crise paralisadora. Em 2001 o ataque ao World Trade Center imobilizou esta cidade num clima de pavor e trauma. Todos os eventos, pequenos e grandes, foram cancelados. Os planos para os esperados shows de entregas de prêmios foram temporariamente suspensos e repensados. Meses depois, cabines e estreias voltaram (o primeiro filme exibido foi “Zoolander”), os tapetes vermelhos foram finalmente desenrolados, as estatuetas, polidas. Com eles, vieram os seguranças, os detectores de metais e os francoatiradores a postos no teto dos prédios.

Em 2007, quando os roteiristas entraram em greve, todos os programas de TV e toda as séries e filmes em desenvolvimento puxaram o freio. Os atores cruzaram os braços em solidariedade. O Globo de Ouro não foi cancelado, mas quase nenhuma celebridade apareceu, e jornalistas anunciaram os vencedores.

Agora, contudo, o alcance é muito maior. Os dois primos-irmãos da Covid-19 — Sars (Síndrome Respiratória Aguda Grave) e Mers (Síndrome Respiratória do Oriente Médio) — passaram ao largo da indústria cultural. A Sars, em 2003, foi letal em larga escala, afetando 24 países e matando 8 mil pessoas. Mas seu único impacto no entretenimento foi na China, atrasando seus planos para se tornar um importante mercado produtor e consumidor de cinema e TV. A Mers, em 2012, ficou essencialmente restrita ao Oriente Médio, em seu primeiro grande impacto. Ainda há focos ativos na Europa, Ásia e Américas, mas sempre em casos isolados.

O novo coronavírus chega no auge de um momento de expansão do audiovisual, quando a produção e o consumo de filmes e séries se tornou sem fronteiras. Extremamente contagioso, ele se infiltrou sem restrições em aglomerados comuns, como cinemas, parques de diversão e festivais. Sem falar do “circo” que é a produção de cinema — pequenas cidades ambulantes com dezenas, centenas, muitas vezes milhares de pessoas em convívio estreito.

Por isso Los Angeles está, agora, paralisada e silenciosa e, pelo jeito, vai ficar assim por um bom tempo.

Efeito dominó

O problema do consumo é real. De imediato, a ausência do mercado asiático, principalmente o chinês — o maior mercado fora dos EUA, e em breve o maior mercado, ponto, ultrapassando a América —, abalou as projeções de bilheteria de todos os filmes que estrearam nas últimas três semanas. Agora, a previsão é de perdas graves, levando ao fechamento de salas.

A pergunta que estúdios, exibidores e produtores estão se fazendo (em casa, claro) vai muito além da queda. Se o público “aprender” a ver cinema em casa, e não nas salas, qual será destino da produção?

"Esse impacto a longo prazo é uma possibilidade", diz Rich Linchfield, analista especializado em entretenimento e esportes. "E não apenas porque muitos cinemas estão fechados ou vão fechar, mas porque, se novos títulos não forem lançados, e, durante meses, não houver nada novo e interessante, o comportamento do público pode mudar. As plataformas de streaming têm estoque de conteúdo novo e atraente. Tem sido cada vez mais difícil, para os consumidores, justificar a ida ao cinema"

Randy Greenberg, produtor executivo de “Cowboys & aliens”, entre outros, não acredita que a crise atual vá mudar radicalmente os hábitos de consumo de audiovisual.

"A Segunda Grande Guerra não acabou com o hábito de ir ao cinema. A chegada da TV também não. Idem para o videocassete e o DVD", diz ele, que trabalha constantemente com produtores chineses (seu filme mais recente, “Megatubarão”, de 2018, foi uma coprodução com a China). "Gostamos de estar juntos e ver narrativas visuais no escuro. A audiência do cinema, mundialmente, está levando um baque, mas vai se recuperar. As pessoas se cansam ver as coisas em suas telas de casa, em vez de uma IMAX", disse.

Ele concorda, contudo, que a crise da Covid-19 favorece as plataformas de streaming: "Sim, muito mais pessoas vão fazer assinaturas. De certa forma vai ser excelente para as novas plataformas que se lançaram agora".

Entretanto, estúdios, TVs, streamers e produtoras têm um problema em comum: paralisar gravações significa uma futura escassez de conteúdos novos e um verdadeiro quebra-cabeças para planejar o calendário de exibição, algo preparado e calculado milimetricamente, com antecedência de meses, às vezes anos.

" Vai ser um teste. Será complicado por um bom tempo, mas creio que, após uns 90 dias, estaremos de volta ao normal.Falando nisso, ao terminar este texto, os primeiros relatórios do fim de semana corroboravam os receios da indústria — todos os lançamentos dos últimos dias estão com baixa renda, e até o sucesso da semana passada, “Dois irmãos: Uma jornada fantástica”, da Pixar, perdeu 60% de bilheteria" diz Greenberg.

Nas redes sociais, a hashtag mais usada em Los Angeles, neste fim de semana é #coronapocalypse.

 Projetos adiados pela pandemia

 TV

“Amazing Grace”

“Batwoman”

“America’s got talent”

“Chicago fire”

“Chicago med”

“Chicago P.D.”

“Carnival row”

“Dynasty”

“FBI”

“Grace and Frankie”

“Grey’s Anatomy”

“Late Show with

Stephen Colbert”

“Law & Order: SVU”

“Lucifer”

“Morning Show”

“NCIS”

“NCIS Los Angeles”

“NCIS New Orleans”

“New Amsterdam”

“Riverdale”

“Survivor”

“The good fight”

“The Flash”

“Young Sheldon”

 Cinema

“A pequena sereia”

“Birds of paradise”

 


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