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Quinta-feira, 25 de Julho de 2019, 01h:00

LIVRO-CRÍTICA

Noção vaga de consentimento guia livro de contos

ÚRSULA PASSOS
Da Folhapress - São Paulo

Em dezembro de 2017, um conto publicado na revista New Yorker causou frisson na internet. "Cat Person", da americana Kristen Roupenian, narra o começo de uma relação entre uma mulher de 20 anos e um homem de 34.

Eles se conhecem, trocam mensagens, ela desenvolve uma paixonite -sabemos dos pensamentos e inseguranças dela, mas não dos dele. Eles se encontram, e tudo de repente fica estranho.

Começam a aparecer defeitos demais no cara. Mas ela segue; ele beija muito mal, mas ela vai para a casa dele após o bar. Ele é gordo demais -a descrição do moço pondo a camisinha e de sua pança é um tanto repulsiva. Mas ela segue.

Eles fazem sexo, do qual ela não gosta desde o começo. Ao final, quando ela quer dispensá-lo, ele a chama de puta.

Leitoras viram o conto como um retrato fiel das agruras femininas. E o cara, como um canalha.

Um mês depois, a história pulou da ficção para o registro do real em outro texto que rodou a internet. Nele, Grace, 22, fez o relato da pior noite de sua vida, a que passou com Aziz Ansari, ator e criador da série "Master of None". Ansari foi achincalhado, tratado de abusador para baixo.

Mas, segundo a narrativa, não há abuso, não há estupro. Grace vai à casa de Ansari porque quer. Todo o resto acontece também porque ela quer. O máximo que se pode dizer daquilo é que ele, e talvez mesmo ela, seria um desajeitado.

Roupenian lança agora o tão aguardado, ao menos pelo mercado, primeiro livro, que reúne 12 contos.

"O Espelho, o Balde e o Velho Fêmur" é uma espécie de alegoria tacanha para o amor-próprio feminino; "Sardinha" narra uma brincadeira infantil que chega quase ao terror. Os temas são diversos, mas todos ilustram a dificuldade de Roupenian de resolver um final.

Não há um homem decente nos textos, e o maniqueísmo pesa sempre contra eles. Em "Aquela que Morde", por exemplo, tudo se resolve para uma mulher que deseja morder pessoas a ponto de arrancar pedaços quando sua vítima é um cafajeste que passa a mão em mulheres e as beija à força.

A maioria dos contos é perpassada por uma noção essencial na compreensão e repercussão de "Cat Person": o consentimento.

Apenas uma noção confusa e ampla do que seja consentimento -e uma um tanto paternalista de desejo– pode levar o leitor a ver a garota de "Cat Person" como a vítima de um homem vil.

No conto de abertura, "Seu Safadinho", um casal começa a fazer jogos, de início inocentes mas que passam a ser humilhantes e violentos, com um amigo que está triste pelo fim de um relacionamento. Nada, porém, é feito contra a sua vontade. O que o obrigava a ficar? A tristeza? Ou o prazer na perversão?

O filósofo francês Ruwen Ogien já alertava para o problema. As noções de consentimento e dignidade humana têm sido usadas para reforçar a criminalização da sexualidade, e não para sua liberalização, no que vê um dos fenômenos atuais mais inquietantes no domínio das liberdades individuais.

 

LIVROS

CAT PERSON E OUTROS CONTOS

Avaliação: regular

Autora: Kristen Roupenian

Tradução: Ana Guadalupe

Editora: Companhia das Letras

R$ 44, 90 (256 págs.)

R$ 29,90 (ebook)

 


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