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ILUSTRADO
Quinta-feira, 23 de Junho de 2016, 18h:51

DISCO

Novo disco do Radiohead

Tem coisas que só o Radiohead faz por você. E uma delas é entregar, periodicamente e sob um grosso manto de mistério, alguns ótimos discos do Radiohead. Pois este foi o caso de “A moon shaped pool”, nono álbum de estúdio dessa que é uma das mais influentes e criativas bandas da história do rock, lançado em versão digital no site oficial do quinteto, no iTunes e na Apple Music. Sem lançar álbum desde “The king of limbs”, de 2011, os ingleses foram dando pistas de que algo poderia vir em breve: deixaram seu site em branco e depois soltaram duas músicas, com clipes: “Burn the witch” e “Daydreaming” . Até pouco antes do lançamento não se sabia nem mesmo o título do disco. Repleto de canções que a banda começou a trabalhar, mas depois abandonou, “A moon shaped pool” não é lá um divisor de águas como foram os discos “Ok computer” (1997) e “Kid A” (2000), mas cumpre gloriosamente o papel de trazer aquilo que o Radiohead tem de melhor. As cordas em staccato de “Burn the witch” abrem o disco jogando na roda um punhado de preocupação: estaria o grupo enveredando pelo caminho fácil do Coldplay? A canção avança, as cordas vão ficando sombrias, a intensidade emocional do vocalista Thom Yorke dá as caras (numa letra sobre paranoias modernas) e o baixo distorcido não deixa esquecer que ali está uma banda especialista em reverter expectativas. “Daydreamer” (que ganhou vídeo do diretor Paul Thomas Anderson, com quem o guitarrista Jonny Greenwood trabalhou em trilhas orquestrais) é, na essência, uma balada de piano, cheia de luz e sombras. Revestida de ambiências de guitarra e cordas luxuriantes, transforma-se num épico, daqueles que o rock só produz de vez em quando. Assim como o Pink Floyd em seu auge, o Radiohead tem sensibilidade o bastante para trabalhar em cima de sequências simples de acordes, criar transições inesperadas e oferecer faixas que põem o ouvinte num universo de beleza e segredos. Nenhuma banda hoje em dia que não o Radiohead poderia vir com algo como “Decks dark”, com suas guitarras saturadas, corais e piano em conjunção numa música que usa imagens intergalácticas para contar sobre o fim de um amor. Ela emenda em “Desert island disk”, construída em cima de um violão meio folk, bem “Led Zeppelin III”, e direcionada para o espaço mais longínquo. Outro violão, só que mais para o Floyd, ancora “The numbers”. E um outro, dedilhado, flertando com a latinidade no acompanhamento da percussão, dá as caras em “Present tense”, faixa que aos poucos ganha um coral perigosamente brega, uma levada jazzística e as guitarras etéreas de sempre. É o Radiohead buscando caminhos. Uma batida repetitiva, aparentada do krautrock, dá o impulso para “Ful stop”, música que ganha contornos inusitados ao longo do seu desenvolvimento e justifica o carimbo Radiohead no seu desfecho engenhosamente construído. Com batidas secas e vocais fantasmagóricos, “Identikit” dá voz às guitarras e alguns arrepios na espinha. “Tinker tailor soldier sailor rich man poor man beggar man thief ” parte de um piano parecido com o da velha “Everything in the right place”, mas vai para outros lugares com os delirantes arranjos de cordas (expediente que também dá sabor especial a “Glass eyes”). O Radiohead voltou. E vai dar trabalho para a concorrência.

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