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Cuiabá MT, Domingo, 09 de Agosto de 2020
ILUSTRADO
Sexta-feira, 29 de Junho de 2018, 17h:25

CRÔNICA/ MOISÉS MARTINS

O imortal, quase morrível!

Quando Cuiabá, ainda possuía o verde de quintal, morávamos, a família numa simples casa no Bairro Goiabeiras, mais precisamente na Rua Nossa Senhora de Santana e desfrutávamos desse verde, pois, no nosso quintal, além de várias árvores frutíferas, existiam exuberantes mangueiras, da famosa manga Burbon. Hoje já não mais existentes, derrubaram-nas, para a edificação do templo da Assembleia de Deus! Minha mãe enfermeira, notando o meu raquitismo, consultou com Senhor Campos, o mais conhecedor de medicamentos à época em Cuiabá, proprietário da “Pharmácia” Campos, homem de extremo humanismo e que atendia, com ou sem dinheiro a população pobre de Cuiabá, pois médicos além de poucos, a maioria cobrava a consulta não compatível com as nossas finanças. O bom farmacêutico, que já fora vereador, quando o vereador exercia suas funções, sem remuneração e que também, veio a ser Prefeito, nos atendeu prontamente indicando um remédio para ser aplicado via intravenosa. Minha mãe notou e comentou a estranha cor contida na ampola, mas resolveu efetuar a aplicação intravenosa. Colocou-me no alpendre da rústica casa, e preparou para a aplicação do remédio, colocando no meu braço, o “garrote de borracha”, buscando exacerbar mais a veia destinada à aplicação. Tudo pronto, quando a agulha já apontava o lugar da aplicação, de dentro da nossa casa surgiu uma gritaria, oriunda de uma briga entre meus irmãos, disputando um gostoso pedaço de rapadura de leite vinda de “Limpo Grande” Várzea Grande. Minha mãe deixou a seringa sobre o recipiente inox e correu para apaziguar a contenda entre meus irmãos, dando-lhes um “croque no alto do cucuruto”. Ao retornar, tinha eu removido o “garrote”, e abaixando o calção disse: mãe aplica na bunda mesmo e foi o que ela fez e neste ato salvou este mortal que depois, veio a ser este imortal! Pois, o medicamente estava deteriorado e sem saber o bom farmacêutico nos dera. Logo após 24 horas, além da dor, começou no local da aplicação, os sintomas de uma profunda infecção: calor, rubor, tumor! E isto mesmo que ocorreu, indo eu parar na Santa Casa de Misericórdia de Cuiabá, para drenagem do violento abscesso que formara. A intervenção fora executada pelo famoso cirurgião Dr. Zelito Monteiro. Lá estava eu, simples mortal, levado na maca por um enfermeiro, negro, gordo trajando um uniforme branquíssimo e com um belo sorriso nos lábios, desnudando lindos dentes alvos quais teclados de um novo piano e não sabia se eram verdadeiramente alvos ou se o contraste da sua pele negra assim os fazia! Era o Sr. Antônio Amaro, porque não Sr. Antônio AMADO? Pois, era conhecidíssimo, na Santa Casa de Misericórdia de Cuiabá, respeitadíssimo pelos médicos que lá atuavam. Seu carisma era fluente, naquele alegre e belo sorriso. Dr. Zelito, adentrou o centro cirúrgico, já enluvado, apanhando, da bandeja de instrumentais, um brilhante bisturi, que refletia ao ser atingido pelos raios da luz de neon, como que querendo dizer: agora vou rasgar! O grito foi lancinante, do tumor escorrendo o liquido putrefato e purulento. Fiquei hospitalizado, sempre recebendo a atenção de Antônio AMADO. A princípio fiquei magoado com o Dr. Zelito, por ter me lancetado sem nenhuma anestesia, entretanto depois de formado em odontologia, aprendi que em tumores purulentos não se aplica anestesia, pois não faria efeito devido o PH. Passado alguns anos encontrei o enfermeiro já aposentado, Antônio AMADO, embalando numa cadeira de palhinha na porta da sua residência, no Beco Oito de abril! Não me conheceu e nem ficou sabendo, que um dia este mortal, hoje imortalizado passou pelos seus cuidados! Onde está a homenagem, que Cuiabá deve a este Santo Homem?

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