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Cuiabá MT, Quarta-feira, 02 de Dezembro de 2020
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Segunda-feira, 03 de Outubro de 2016, 20h:13

COMPORTAMENTO

O racismo em debate na UFMT

Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Relações Raciais comemora 15 anos com lançamento de dois livros

MARIA EUNICE SOUZA
Especial para o Diário
Existe racismo no Brasil? Esta é uma pergunta retórica, que pode receber respostas diferentes dependendo de a quem ela é dirigida. Para a Profa. Dra. Maria Lúcia Rodrigues Muller, coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Relações Raciais e Educação (NEPRE), núcleo ligado ao Instituto de Educação da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), não resta dúvidas sobre isso. Fundadora e coordenadora do NEPRE, que completa 15 anos de atuação em 2016, a professora se mostra estupefata com as demonstrações de racismo dentro da própria academia e relata um episódio corriqueiro: “É impressionante! É uma coisa que eu fico chocada. No outro dia eu estava conversando com uma orientanda minha, que é negra, estávamos num bate-papo num evento, uma na frente da outra e chega a colega, atravessa, passa na frente dessa menina, me cumprimenta, e fica de costas para ela, como se ela não existisse, como se ela não existisse mesmo. E isso é frequente, as pessoas não olham, não conhecem, não prestam atenção à pessoa negra e quando prestam, prestam pensando o pior”. A pesquisadora Áurea Gardeni Sousa da Silva também não tem dúvidas quanto à existência de racismo no Brasil. Para ela, o Brasil tem um cenário de relações raciais que é muito específico do país. “Há uma projeção nacional e internacional do país como exemplo de harmoniosa convivência racial, em oposição à experiência de manifestações preconceituosas, racistas e discriminatórias”, afirma a pesquisadora em seu livro “Não sou africano, sou guineense, angolano, cabo-verdiano”. O livro de Áurea Gardeni é resultado da pesquisa de mestrado vinculada ao NEPRE e realizada pela autora junto aos estudantes-convênio dos países de língua portuguesa, vivendo no Brasil por ocasião da pesquisa. Dentro desse contexto, o NEPRE tem uma ação fundamental, porque fomenta pesquisa e formação. Mas como surge o NEPRE e qual o impacto de sua atuação nestes 15 anos? Com o objetivo de “incentivar, promover e realizar ações de extensão, ensino e pesquisa e intercâmbios de caráter interdisciplinar, contemplando as temáticas Relações Raciais e Educação no que se refere aos negros e afrodescendentes”, o NEPRE surge em 2001, fundado pela Profa. Doutora Maria Lúcia Rodrigues Muller, Prof. Manoel Mota, Profa. Maria da Anunciação, Profa. Rosangela Saldanha Pereira e mais alguns alunos da graduação e pós-graduação. “Eu já fazia pesquisa num outro programa no qual o NEPRE se espelhou, da Federal Fluminense, que também fazia cursos para professores e pesquisa sobre relações raciais”, recorda a professora Maria Lúcia. O programa ao qual ela se refere é o PENESP, criado pela Profa. Dra. Iolanda de Oliveira, Na Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro, que tinha como objetivo os estudos e formação continuada de professores voltados às relações raciais. Por motivos familiares, a Professora Maria Lúcia se transferiu da Universidade Federal Fluminense para a Universidade Federal de Mato Grosso em 2001. Como ela já trabalhava com pesquisa sobre relações raciais, encontrou aqui uma forte demanda para continuar o trabalho iniciado na UFF. É interessante notar a percepção vigente dentro da academia: “Quando eu cheguei me perguntaram: ‘sobre o que você pesquisa?’, e eu disse que pesquisava sobre relações raciais na educação – aí me disseram assim ‘ah, você pesquisa negros, então você tem que ir para Vila Bela, é lá que estão os negros”. Quem escutasse isso então, teria a impressão de não haver negros em Cuiabá, o que não é verdade, visto que o censo de 2001 apontava 6% de população declaradamente negra em Cuiabá e 16% em Várzea Grande. Contudo, essa era a percepção de algumas pessoas dentro da UFMT de então. E no Brasil inteiro havia preconceito e as pessoas negavam que houvesse preconceito nas universidades. Maria Lúcia vai além: “não havia alunos negros na UFMT. Talvez você encontrasse um ou outro no curso de Pedagogia”. Na época, relembra a professora, “surgiu o Concurso ‘o Negro no Ensino superior’ e estava se discutindo as cotas e nós resolvemos criar um projeto de políticas afirmativas de permanência, o projeto Políticas da Cor (para alunos negros e sem recursos) porque se sabia que era uma coisa muito séria, a permanência. O jovem negro podia ingressar na universidade, mas ele ficar, precisava de dinheiro, porque universidade custa caro, tem xerox, tem livro, tem passagem. Então nós fizemos o projeto, concorremos e ganhamos”. Outro ponto relevante é apontado pela professora: “aluno negro não conseguia pesquisa – quando conseguia, era bolsa de extensão, que é menor, um serviço secundário, não é uma pesquisa, ele não estuda. E a gente queria que eles estudassem”. Assim, se não conseguiam se inserir no universo das pesquisas, mesmo estando na universidade, os alunos negros continuavam alheios à produção de conhecimento, tendo um papel relativamente passivo na vida acadêmica, já que não tinham acesso às bolsas de pesquisa. Com o sistema de Cotas, a inserção do estudante negro na universidade aumentou enormemente. O cenário demográfico na UFMT de hoje é muito diferente daquele de 2001, quando o NEPRE foi criado, no que tange à diversidade racial. Mas a professora insiste que só entrar na universidade não é suficiente, é necessário se criar políticas que visem a permanência do aluno negro na universidade, porque muitas vezes, ele é o primeiro na família que ingressa na universidade e socialmente ele tem muita dificuldade de se inserir e se integrar na vida acadêmica. Ao longo de 15 anos, o NEPRE realizou muitos eventos sobre a diversidade étnico-racial, que fomentaram as discussões sobre as desigualdades raciais na sociedade brasileira. Durante esse período, muitos alunos vinculados ao NEPRE desenvolveram pesquisas diversas relacionadas ao tema, estudando as relações raciais na educação, seja na escola, seja na universidade, da perspectiva aluno-aluno, ou professor-aluno, professor-professor, professor-instituição, aluno-comunidade, etc. Outro foco de atividade do NEPRE é a formação de professores através dos cursos de extensão ou de especialização, a partir da lei 10.639/03, que versa sobre o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana e que enfatiza a importância da cultura negra na formação brasileira. Alguns cursos se dirigem a professores da rede de ensino estadual, outros a professores, coordenadores pedagógicos e gestores de redes públicas municipais e a outros trabalhadores da educação ou integrantes dos movimentos negros. Ao longo desses 15 anos de atuação do NEPRE, muita coisa mudou. A professora explica que o próprio projeto de Reserva de Vagas levou 10 anos para ser aprovado, porque ela teria apresentado o projeto na UFMT em 2003 e ele só foi aprovado em 2013. Mas ela diz que além do sistema de cotas, “Mudou a atitude em relação às pessoas negras, pelo menos a atitude oficial. Em sala de aula a gente escuta que ainda existe muita resistência, mas a atitude oficial mudou. Mudou a presença física, porque tem muito mais alunos negros agora do que tinha em 2002 – é impressionante como tinha poucos! Mudou a qualidade, tem muita pesquisa, o NEPRE publicou muita pesquisa e isso tudo ajudou muito a divulgar essa discussão. E a imprensa foi maravilhosa, muito solidária! Acho que a imprensa é um dos militantes antirracismo que existem no Brasil – os jornalistas são muito sensíveis e divulgam sempre que podem. Aumentaram os cursos no estado inteiro - Mato Grosso é o primeiro ou segundo estado onde tem mais educação antirracista”. E isso está diretamente relacionado à atuação do NEPRE. “Contudo, desde 2013 o MEC não destina verbas para cursos e a discussão hoje é até que ponto vamos ficar esperando pelo estado”. Depois de 15 anos, conclui-se que estamos apenas começando, há muito a ser feito, mas também há muito a ser celebrado. Antes não havia a consciência do preconceito e do racismo. E o NEPRE é responsável pelas pesquisas que comprovam a existência do racismo e do preconceito. O resto, é com a sociedade. A mudança, é responsabilidade da sociedade, enfatiza a professora. A celebração de 15 anos do NEPRE ocorre dentro da X Jornada Desigualdades Raciais na Educação Brasileira, que conta com o Prof. Dr. Kabengele Munanga, que vai falar sobre cidadania e relações raciais. Nascido no Congo, Munanga foi exilado, morou e fez mestrado na França e veio para o Brasil e se naturalizou brasileiro. Também tem uma mesa redonda sobre racismo na escola, com três professoras, uma da UFF, coordenadora do PENESP; professora Maria Helena Viana, da Unirio; e professora Ana Ivenite, da UFRJ. Na quarta-feira os professores Nelson Inocêncio da UNB, Erisvaldo dos Santos, da Federal de Ouro Preto e Ivanir dos Santos, vão trabalhar com o tema Religiões de Matriz Africana e intolerância religiosa. Serviço: A celebração de 15 anos do NEPRE ocorre nesta terça, dia 4/10/2016, às 18h no Instituto de Educação – IE, UFMT, auditório 1. Na ocasião haverá o lançamento do livro “Não sou Africano, sou guineense, angolano, cabo-verdiano” de Áurea Gardeni Sousa da Silva, e do livro “Professora Hermínia Torquato da Silva, Inserção e Percurso Profissional”, de Nilma da Cunha Godoi. Ambos os livros pertencem à coletânea Educação e Relações Raciais, publicada pelo NEPRE. O aniversário do NEPRE e o lançamento dos livros acontecem durante a X Jornada Desigualdades Raciais na Educação Brasileira, que acontece de 3 a 5 de outubro, em paralelo ao Seminário de Educação 2016 (SemiEdu), promovido pelo Instituto de Educação da Universidade Federal de Mato Grosso.

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