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Cuiabá MT, Domingo, 09 de Agosto de 2020
ILUSTRADO
Sexta-feira, 29 de Junho de 2018, 17h:24

CONTO/ LORENZO FALCÃO

Pensando baixinho

Estava sentindo aquela dorzinha de dente. Aquela coisa maligna na contramão da harmonia cotidiana que ele sempre desejava. E também lhe doía em algum lugar intangível da sua pessoa aquilo. Aquele compromisso: a precisão de escrever um conto que seu chefe/editor havia solicitado. "Como dói viver...", pensou baixinho no silêncio da casa, um pouquinho antes de começar a escrever a ficção encomendada. Começar por onde, indagava-se... A indagação veio seguida por um putz-grila, gíria antiga, dos seus tempos de educação na adolescência, quando, às voltas com redações exigidas pelos mestres de língua portuguesa, ele e a maioria dos colegas tinha sempre esse drama inicial na hora de elaborar uma ficção. "Malditos textos autorais...", pensou novamente baixinho, pra não impregnar de ruídos desnecessários o ambiente doméstico. "E se eu escrevesse justamente sobre isso..." (autoargumentou, mas baixinho). A dor de dente e o outro incomodo doloroso, o de ter que escrever algo e se mostrar, dar a cara aos tapas e não aos beijos. Poderiam ser assuntos por onde começaria o seu exaustivo e sugador das energias recônditas trabalho de escritor. Havia, porém, um porém nesse drama repetitivo de criar literatura. A maldição do diletantismo. Aquele negócio recorrente a quem escreve e que pode ser definido como característica do que se realiza ou se desenvolve de maneira desinteressada, sem apuro ou cuidado. Foi aí que ele usou novamente a palavra maldito, que já havia associado aos textos autorais. "Maldito diletantismo"... novamente baixinho pensou, enquanto observava a quietude da ambiência do lar. Não, não sabia... Não entendia direito quando é que um texto seria mero diletantismo, ou não. Valeu-se da enciclopédica formação literária que acumulara ao longo das quase sessenta décadas vividas. E, novamente, constatou que ler um livro bom ou um bom livro era muito mais fácil e prazeroso do que enfrentar a opacidade parideira do texto literário. Sua memória proeminente de escritor o levou a obras de Joyce e de Machado, como Ulysses e Dom Casmurro, nas quais, o adultério e/ou a desconfiança para com ele eram combustíveis que sobravam em termos de qualidade e quantidade. Sua memória descolada, tal e qual as entranhas de um computador, transportou-o para os livros mais recentes que havia lido, que desencadeavam para um outro rótulo: a autoficção. Mas, a autoficção, segundo seu raciocínio (sempre sujeito a equívocos), sempre esteve presente na prosa literária. Ora, escritor não é mágico. Não tira coelho da cartola. Tira, e isto sim, acontecimentos que vivencia ou imagina para temperá-los e constituí-los como receita para as suas letras. "Digressões... é isso que estou a escrever aqui". E usou novamente aquela expressão que andava perseguindo-o para associá-la a uma nova maldição: "malditas digressões". Essa divagação, desvio de rumo ou de assunto e ainda subterfúgio, conforme se costuma definir "digressão". E assim se pôs a pensar na melhor maneira de fechar o seu texto ficcional. Se estaria de acordo, ou não, se tinha, ou não, estofo literário, o problema não era seu. Era uma questão que caberia ao seu editor (chefe), a pessoa que tinha a responsabilidade assumida de publicar, ou não, o texto encomendado. Achou, ainda, que tudo viria a ser culpa do seu editor, pois editores são pessoas com as quais o escritor precisa ter esse relacionamento de confiança. Se o público leitor, ou os críticos, não considerassem literatura aquilo que escreveria, o problema seria mesmo do seu maldito editor... E ficou pensando, mais uma vez, baixinho, para não esfacelar a silenciosidade impregnada na sua casa - revestida pelo solilóquio necessário ao escritor... maldito fluxo de consciência. A plenitude da agonia impediu que o texto se fechasse apenas na maldição (maldição, afinal, não é algo tão ruim assim. É só uma metáfora neste caso) que era ser escritor. Então, para terminar mesmo a coisa, optou por um palavrão. Pensou baixinho: foda-se.

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