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ILUSTRADO
Quinta-feira, 17 de Janeiro de 2019, 17h:44

Shyamalan revive auge criativo com 'Vidro'

BRUNO GHETTI
Da Folhapress - São Paulo
"Vidro" é o desfecho de uma estranha trilogia que M. Night Shyamalan iniciou em 2000, com "Corpo Fechado", e continuou só em 2016, com "Fragmentado". Nesse meio tempo, cada novo filme do cineasta trazia um nível de qualidade tão imprevisível quanto as habituais reviravoltas de seus roteiros: impossível saber o que esperar de seu trabalho seguinte. Desde o êxito de "O Sexto Sentido" (1999), o diretor nunca mais conheceu a unanimidade; viu o público se dividir entre idólatras e detratores. Os fãs veneram tudo o que ele fez até "A Dama na Água", mas preferem esquecer a fase entre "Fim dos Tempos" (2008) e "Depois da Terra" (2013). Com "Fragmentado", voltaram a se animar, e por isso "Vidro" tem gerado tanta expectativa - seria o retorno definitivo do cineasta à boa forma? A paixão dos entusiastas não é à toa. Louvam a refinada técnica de Shyamalan e seu inabalável estatuto de autor, com seus temas e estética recorrentes. Mas têm apreço especial pelas pinceladas metafísicas (e metafóricas) de sua obra: para eles, as entrelinhas de seus filmes têm muito a dizer sobre o homem e o mundo. Já os detratores veem algo de fraudulento em seu cinema, feito sob medida para agradar o fã-clube. Sua obra opera sempre em um nível simplificado e pueril demais de uma filosofia existencial que o diretor ambiciona, mas apenas tangencia - em geral, com dicotomias à HQ. "Vidro" talvez decepcione os fãs que adoram buscar significados profundos e alegorias complexas na obra de Shyamalan, já que desta vez não há muita entrelinha a ser explorada. O grande prazer do filme, seu charme, está no fato de o diretor aqui assumir uma filosofia abertamente binária, no estilo das HQs mais rudimentares, e não ter vergonha disso. Aliás, está nessa atitude a própria essência do longa. "Vidro" é uma espécie de contraponto aos anteriores da trilogia. Não teme ser tomado pelo que os outros dois pareciam constrangidos de ser - um filme de super-herói. Só que em vez do selo Marvel ou DC, traz a grife Shyamalan. Ou seja, efeitos especiais não são o cerne, mas estão lá os temas de sempre: a fé no que parece impossível; a angústia existencial; opostos vistos como complementos. E os códigos visuais de costume - reflexões em superfícies espelhadas, takes de cabeça para baixo e personagens que encaram a câmera. O indestrutível David (Bruce Willis) e o gênio do mal Glass (Samuel L. Jackson) se reencontram anos após "Corpo Fechado". Conhecem Kevin (James McAvoy), de "Fragmentado", e suas 24 personalidades. Os três viram objeto de estudo de uma psiquiatra (Sarah Paulson) que não crê em superpoderes - ela acha que os feitos impressionantes do trio são um misto de acaso com delírio de grandeza. A doutora bem que poderia estudar o próprio Shyamalan: como seus personagens, ele tem uma fé que beira o delirante - no caso, na própria habilidade de fazer filmes. E em "Vidro", essa crença se converte em heroísmo, ao fazer funcionar muito bem um material duvidoso, difuso em excesso. E Shyamalan o faz de modo admiravelmente solto, brincalhão, sem medo do prazer descompromissado. "Vidro" é exatamente sobre não levar tudo tão a ferro e fogo. É uma celebração das HQs no que elas têm de mais fascinante: resguardar o direito humano de fantasiar livremente e de sonhar, mesmo que os imperativos da vida prática nos digam o contrário. Se o mundo nos vê com olhos de uma doutora cética, Shyamalan defende que sejamos os heróis improváveis - não cegos à realidade, mas capazes de nos soltar dela de vez em quando. "Tenha fé no que você tem de melhor", diz a mensagem do filme. E ela foi seguida pelo próprio diretor, que assume que sua maior virtude é fazer o público devanear, divagar. Shyamalan compõe uma ode pessoal à fantasia. Sem se levar tão a sério como muitos de seus entusiastas. DE QUE FILMES SAÍRAM OS PERSONAGENS David Dunn (Bruce Willis) Segurança de estádio, descobre que é indestrutível em 'Corpo Fechado' (2000) e se torna um vigilante. Em "Vidro", ele sai no encalço de Kevin Crumb, o assassino de múltiplas personalidades Elijah Price (Samuel L. Jackson) Ossos frágeis como vidro são o ponto fraco do personagem que dá as caras primeiro em 'Corpo Fechado' e retorna agora como um gênio do crime, disposto a manipular Dunn e Crumb Kevin Crumb (James McAvoy) Em 'Fragmentado' (2016), esse criminoso rapta três garotas e as enlouquece com suas mais de 20 personalidades. Em 'Vidro', ele é mantido numa instituição psiquiátrica VIDRO (Glass)PAÍS EUA, 2019 DIREÇÃO M. Night Shyamalan ELENCO Bruce Willis, Samuel L. Jackson, James McAvoy CLASSIFICAÇÃO 14 anos AVALIAÇÃO Muito bom

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