NA HORA
O jornal de Mato Grosso Facebook twitter youtube

Cuiabá MT, Sexta-feira, 07 de Agosto de 2020
ILUSTRADO
Quarta-feira, 08 de Julho de 2020, 00h:00

JOÃO GILBERTO

Um ano após a morte de João Gilberto, Zuza Homem de Mello finaliza nova biografia do músico

Jornalista e pesquisador musical reúne há dois anos histórias desconhecidas do criador da bossa nova, no livro que vai entregar à Editora 34 em agosto

LUCCAS OLIVEIRA
Da Agência Globo - Rio
João Gilberto

Há dois anos, em sigilo quase absoluto, o jornalista e pesquisador musical Zuza Homem de Mello vem se debruçando diariamente sobre a vida de João Gilberto. Até o fim de agosto, ele pretende entregar à Editora 34 os originais de uma biografia do artista, cuja morte completa um ano nesta segunda, enquanto seguem as disputas na Justiça em torno de seu espólio. Zuza já escreveu dez dos 15 capítulos em que pretende dividir a história. O material, ainda sem título definido, deve ser lançado no fim de 2020, início de 2021.

Entre os episódios saborosos que o jornalista irá contar está uma noite, nos idos do ano 2000, em que recebeu um telefonema do ator e produtor Otávio Terceiro convidando-o, em nome de João Gilberto, para vir ao Rio (Zuza vive em São Paulo) participar da festa de Simão Isaac Benjó, advogado do compositor em seu imbróglio com a EMI/Odeon. Benjó era um jurista e professor universitário, e faria uma grande festa com a promessa de um show surpresa de João.

O jornalista e a produtora cultural Ercilia Lobo, sua mulher, receberam as passagens aéreas e foram direto do aeroporto para o hotel Caesar Park, em Ipanema, onde se hospedaram. No fim do dia, um carro apareceu para buscá-los. A festa era num casarão na Tijuca, Zona Norte do Rio.

“Chegando lá, tinha centenas de ex-alunos do Benjó, aquele clima de fim de casamento, todo mundo bêbado, um vozerio, uma gritaria. Eu pensava ‘mas não tem a menor chance de acontecer um show de João Gilberto aqui’. Fui até a salinha onde João aguardava e ele estava tranquilo, tomando um café com leite. Depois de muita farra, Benjó subiu ao palco, ou melhor, a um tabladinho, estrutura simples, pegou o microfone, agradeceu pelas homenagens, e anunciou que tinha uma surpresa: João Gilberto!”, lembra ele

Para espanto de Zuza, seguiu-se o seguinte: “João entrou com seu violão, andando devagar, e, enquanto passava pelas mesas, aquela algazarra e o vozerio iam diminuindo, ‘parecia que tinham recebido uma ordem divina para ficarem quietos’. João pôs um microfone no violão, ajeitou o outro para cantar e... não só fez o show, como fez um show que o biógrafo chama de deslumbrante num silêncio absoluto”, conta.

De barulho, ele diz, apenas solicitações de músicas: “Um bêbado gritou João, canta ‘Minas Gerais!’ (adaptação da valsa Vieni sul mar, que virou hino informal mineiro). E eu pensando: puta que pariu, agora já era. E sabe o que João fez? Cantou Minas Gerais! E nunca vi uma Minas Gerais tão maravilhosa”.

Segundo o biógrafo, o artista não pediu silêncio uma única vez, não se queixou do microfone nem de barulhos ou erros. Quem viu, viu. E Zuza viu muito. Sua amizade com João Gilberto começou em 1967 e se manteve por várias décadas “não amiúde, mas sempre profundamente”. Zuza, porém, nunca usou a proximidade para conseguir uma entrevista com o músico baiano. Em vez disso, foi acumulando experiências.

“Tive um conhecimento valioso dele, que poucos tiverem a chance de ter — reconhece. — O fato de nunca tê-lo entrevistado talvez tenha sido uma das razões da nossa amizade ter sido profunda, densa e aberta. Ele não se sentia pressionado quando a gente conversava sobre futebol ou sobre a vida, por exemplo. Fosse por telefone ou pessoalmente”, conta Zuza, aos 86 anos (João teria feito 89 no dia 10 de junho).

A amizade, porém, já lhe rendera um livro antes. Em 2001, o jornalista assinou volume da série “Folha explica”, da Publifolha, dedicado ao criador da bossa nova, focando em sua música e explicando seu violão, a batida inconfundível, as técnicas, a harmonia do ritmo. Agora, o autor de obras como “Copacabana — A trajetória do samba-canção”, “A era dos festivais” e “Música com Z”, todas pela Editora 34, pega essas análises anteriores, as amplia e aprofunda a partir de pesquisas, entrevistas e vivências como a do show contado acima. Zuza é, inclusive, personagem recorrente do livro. A divisão entre vida pessoal e musical, diz o biógrafo, será “fifty-fifty”, equilibrada. Para os fãs e curiosos sobre as histórias de João, o biógrafo promete detalhes e relatos inéditos sobre passagens menos conhecidas de sua trajetória, como os anos em que morou em Juazeiro, Diamantina e Porto Alegre.

“São lugares de que se fala pouco, mas fundamentais para ele, principalmente Diamantina, que é um verdadeiro mistério, que este livro vai desfazer”, promete.

Mas não espere ler sobre as encrencas judiciais, disputas familiares e intimidades escancaradas que marcaram os últimos anos de João. Zuza fez questão de evitá-las.

“Não entro nisso. Percebo que há muita sacanagem aí no meio. Tem pessoas corretas e pessoas que não são, como em tudo. Sobre a parte final da vida dele, vou falar do que aconteceu com ele, sem entrar nessa discussão. Até porque são questões que ainda deverão ser esclarecidas de forma mais correta daqui a um tempo. Acho importante falar do artista, da pessoa, da música”.

É sobre a música de João Gilberto que Zuza se debruça para contar a história de um dos artistas brasileiros mais famosos no mundo todo — na era do streaming, por exemplo, sua obra é mais ouvida na França do que no Brasil (67,7% mais reproduções, segundo o Deezer, plataforma com 16 milhões de assinantes).

“A única coisa que realmente importou na vida de João Gilberto foi a música. Ele considerava que ela falava por ele, que não era necessário explicar sua vida, dar entrevistas, porque tudo podia ser entendido pela música”, justifica.

Até os aspectos que fizeram o folclore em torno do artista, dando-lhe fama de ranzinza e pitoresco.

“As pessoas têm que entender que ele tinha um ouvido que ninguém tinha igual. Ele tinha o direito de dizer que o som não estava bom, porque o técnico de som não escutava como ele. E João explicava o que estava errado. Não eram reclamações, eram anotações de alguém que tinha um ouvido privilegiado. Há raros músicos assim”, defende o biógrafo-amigo. 


Comentários







Preencha o formulário e seja o primeiro a comentar esta notícia

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site. Clique aqui para denunciar um comentário.




ENQUETE
Como você vê as acusações entre Mauro Mendes e Emanuel Pinheiro sobre o caos na pandemia?
O governador é o culpado
O prefeito da Capital também tem culpa
Essa briga prejudica as ações de combate à Covid-19
É uma disputa político-eleitoral
PARCIAL