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Cuiabá MT, Sábado, 17 de Abril de 2021
ILUSTRADO
Quinta-feira, 08 de Abril de 2021, 00h:00

ELIS REGINA

Uma Elis Regina "tridimensional" surge nos 40 anos sem a cantora

Depois de restaurar LP de 1972, João Marcello Bôscoli planeja levar a música da mãe para o sistema Dolby Atmos

SILVIO ESSINGER
Da Agência Globo - Rio

Os “harmônicos do baixo” de Luizão Maia, o “barulho do dedo escorregando pelas cordas”. O “coice da bateria”. Ou então a “transparência do som” – converse um pouco com o baterista e produtor musical João Marcello Bôscoli, e logo você verá o filho de Elis Regina e Ronaldo Bôscoli dar lugar ao audiófilo inveterado. Junto com os outros filhos de Elis – os cantores Maria Rita e Pedro Mariano, frutos da união com o pianista e arranjador César Camargo Mariano –, João tem a missão de cuidar do legado da mãe. Mas ele é também o que mais se preocupa em como os seus discos devem ser ouvidos melhor.

Na semana passada, João apresentou ao mundo a restauração sonora (em LP, CD e arquivos de streaming) de “Elis”, LP de 1972, o primeiro da parceria da cantora com César Camargo. Depois de uma série de tributos (a restauração de “Elis & Tom”, LP de 1974; um musical; um longa-metragem; uma biografia e um livro de memórias, “Elis e eu”), foi a forma que o filho encontrou de não deixar passar em branco o aniversário de 76 anos da mãe. Mas ele tem planos grandiosos, no sentido da audiofilia, para lembrar os 40 anos da morte de Elis, que se completam em 19 de janeiro do ano que vem:

“O catálogo da Elis caminha e a Universal (Music, gravadora que detém os direitos sobre a maior parte de sua obra fonográfica) a vê como uma artista imortal”, assegura João. “Assim, a próxima rodada é a da Elis em Dolby Atmos, que dá uma percepção psicoacústica absurda do estéreo. Tem questões artísticas ainda para serem vistas (antes da passagem das músicas de Elis para o novo sistema), mas se você pegar as 36 músicas do John Lennon em Dolby Atmos na plataforma de streaming Tidal, e ouvir o que era e o que ficou, parece que você tirou um véu da frente das músicas”.

Testado inicialmente em 2012, na sala de cinema Dolby Theatre, em Los Angeles, o Dolby Atmos inovou ao permitir que os sons pudessem ser interpretados como objetos tridimensionais. A maior diferença para o surround tradicional é que o Atmos não depende de uma grande quantidade de alto-falantes: ele se baseia em metadados que selecionam os áudios específicos (de um objeto, de um instrumento) e os posicionam em vários lugares do espaço de audição. O som chega de vários ângulos e o efeito pode ser apreciado até em fones de ouvido convencionais (embora o melhor resultado dependa da qualidade dos fones).

 

Quarteto fantástico

Mas enquanto o Dolby Atmos não chega a Elis Regina, o convite de João Marcello Bôscoli é para que os fãs confiram o véu que foi retirado do “Elis” de 1972, disco que traz algumas de suas interpretações mais conhecidas (para canções como “Casa no campo”, “Águas de março”, “20 anos blues”, “Nada será como antes” e “Cais”), acompanhada pela primeira vez pelo chamado Quarteto Fantástico, formado por César Camargo Mariano, Luizão Maia, Hélio Delmiro (guitarra) e Paulo Braga (bateria). A intenção do filho era a de que se pudesse apreciar as gravações agora, em vinil ou arquivos digitais, com a maior fidelidade ao que Elis ouviu antes de mandar a fita para a fabricação dos discos, em 72.

“Meu objetivo não é fazer um som que a Elis nunca imaginou que haveria no futuro, toda a nossa investigação musical foi para ir atrás do som que ela ouviu na técnica, é colocar você naquela sala junto com a Elis, na última vez antes de mandarem a fita para o corte (parte do processo industrial em que se cortam frequências sonoras para deixar só as que cabem nos sulcos do vinil). Ou, como dizia a Elis ao técnico, antes de cortarem o meu barato”, diz João, informando que a nova edição, em LP de 180 gramas, é “provavelmente a melhor já feito desse vinil da Elis”.

A reedição de “Elis” é a primeira de uma série de novidades na preparação para os 40 anos da morte da cantora e – espera-se – a passagem de algumas de suas gravações para o Dolby Atmos. Até o ano que vem, segundo João, saem o documentário do diretor Roberto de Oliveira sobre as gravações de “Elis & Tom”, um livro ilustrado por Gustavo Duarte (desenhista brasileiro da Marvel Comics) em que a protagonista é a Elis criança, o doc “Elis no mundo” (de Lea Van Steen, para o canal HBO, a ser exibido em 53 países) e a inclusão da clássica gravação de Elis de “Só tinha de ser com você” na abertura de “Quanto mais vida melhor”, próxima novela da 19h da Globo.

Aos 50 anos de idade, “ainda tentando não perder o tesão pela música”, João continua a conciliar a vida de filho de Elis Regina com a de homem da indústria musical – em 1998, ele foi cofundador da Trama, finada gravadora que revelou nomes como Luciana Mello, Fernanda Porto e Otto, além de ter tido papel pioneiro na música digital brasileira com iniciativas como a Trama Virtual e a TV Trama. Hoje, ele vive o dia a dia da música em programas de rádio, podcasts, o estúdio Trama NaCena, a gestão de catálogo da Trama e trabalhos de realidade virtual.

Pai de dois filhos pequenos (“as duas melhores coisas que eu fiz na última década”), o filho de Elis Regina condena a perseguição ao funk (“que parece a mesma que aconteceu com o samba e choro”), mas adverte contra a padronização instituída pelas máquinas no pop:

“As novas gerações valorizam muito o orgânico, o assimétrico. Em algum momento a gente vai chegar a isso na música. Hoje os sotfwares de produção musical são tão assustadoramente pré-fabricados que é quase um Lego musical para montar as bases. Sou novidadeiros, gosto de balinhas e de comidinhas industriais, mas em algum momento o veio da madeira, o poro, tem que aparecer”.

 


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