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Terça-feira, 30 de Junho de 2020, 00h:00

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"Wasp Network: rede de espiões" não tem política, mas tem diversão

História é baseada no livro "Os últimos soldados da Guerra Fria", de Fernando Morais, sobre agentes cubanos que se infiltraram em organizações anticastristas em Miami

ANDRÉ MIRANDA
Da Agência Globo - Rio
Wasp Network, na Netflix

Importante: se você não sabe nada sobre a história de “Wasp Network: rede de espiões” e quiser ser completamente surpreendido, pare por aqui porque é impossível escrever sobre o filme sem dar um mínimo de spoiler. A simples descrição do enredo já entrega um truque de roteiro que o diretor e roteirista Olivier Assayas montou.

Para quem segue lendo, a história é baseada no livro “Os últimos soldados da Guerra Fria”, de Fernando Morais, sobre agentes cubanos que se infiltraram em organizações anticastristas em Miami, a fim de passar informações e sabotar operações que tentavam desestabilizar o governo de Fidel Castro. A história é real, aconteceu nos anos 1990 e envolve conspirações, assassinatos e prisões.

Trata-se do filme mais hollywoodiano do francês Assayas, com os defeitos e as qualidades que o termo pode sugerir. Por um lado, evita-se aprofundar na política e rende-se a cenas fáceis, alguns clichês e diálogos menos sofisticados do que a média para o diretor dos ótimos “Horas de verão” (2008), “Depois de maio” (2012) e “Acima das nuvens” (2014). Por outro, tem uma cadência agradável, leve, fácil de assistir.

Ele fica no meio do caminho entre a série “The americans” e o longa-metragem “Os infiltrados”, alternando entre a rotina familiar dos espiões e as sequências de ação. Mas não se estende na discussão ética que a série e o filme de Martin Scorsese tinham de melhor.

A primeira parte mostra as fugas espetaculares de dois agentes: René (interpretado por Édgar Ramirez), instrutor de voo que viaja para a Flórida roubando um monomotor; e Juan Pablo (Wagner Moura), um militar com pinta de galã que nada até a base americana de Guantánamo. Mais tarde, o filme revela outro agente, Gerardo (Gael García Bernal), uma espécie de coordenador do grupo. Além do trio, o núcleo dos protagonistas também conta com Olga (Penélope Cruz), a mulher que René abandona em Havana, e com Ana Margarita (Ana de Armas), cubana exilada que acaba casando com Juan Pablo em Miami.

Desse elenco estrelado, Édgar Ramirez é venezuelano, Wagner é brasileiro, Gael é mexicano, Penélope é espanhola, e apenas Ana de Armas nasceu em Cuba — uma curiosa escolha de atores para um filme baseado em farsas.

A composição dos personagens ajuda a mostrar a diversidade do grupo, suas motivações e como aquela ação afetou de forma diferente cada um dos integrantes. Juan Pablo, por exemplo, o agente vivido por Wagner Moura, é um tipo de galã machista cheio de frases de efeito, enquanto que René é um patriota atormentado por ter deixado sua mulher em Cuba, sem avisá-la da operação, como se ele fosse um traidor.

Outro elemento essencial para a trama é o embate entre o estilo de vida de Miami e o da Cuba sob pressão política e econômica dos Estados Unidos, após a queda da União Soviética. Quando Juan Pablo chega a Guantánamo, os militares americanos oferecem para ele um lanche do McDonald’s e o cubano faz uma piadinha boba de que o sanduíche está delicioso para quem sempre comeu o “McCastro”. Ainda com Juan Pablo — Wagner Moura capricha na cafajestagem do personagem —, ele vai se rendendo aos hábitos de uma sociedade de consumo e expressa seu apreço por relógios, carros e outros artigos de luxo.

Num filme sobre cubanos infiltrados em Miami, é natural a colisão entre socialismo e capitalismo, e Assayas não segue o caminho fácil de abraçar cegamente um lado como tem sido comum quando se trata de Cuba. Porém, dentro das leituras possíveis para “Wasp Network”, pode-se compreender que o diretor também não escolheu caminho algum.

Há, sim, política no filme, mas ela aparece mais na representação de hábitos privados e menos num debate sobre o que ocorria com Cuba. Não estará totalmente errado quem acusá-lo de ser rasteiro demais frente a um tema tão sério e dolorido para tantas pessoas ao longo das últimas décadas. Assayas optou por um filme de entretenimento e só — ou aceitou passivamente a opção dos produtores. Dentro dessa lógica, “Wasp network” funciona muito bem. Mas haverá sempre o justo questionamento se esta seria a abordagem mais adequada para a história.

 

Filme: "Wasp Network: rede de espiões"

Diretor: Olivier Assayas.

Onde: Netflix. 


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