Diario de Cuiabá

Terça-feira, 22 de Janeiro de 2019, 17h:25

Decisão no fim do governo Temer deixa de comprar droga para câncer

No apagar das luzes do governo Michel Temer (MDB), o Ministério da Saúde deixou de importar um medicamento essencial para o tratamento de cinco tumores raros que afetam mais as crianças e repassou, sem aviso prévio, a responsabilidade aos hospitais oncológicos do SUS. Não há substituto equivalente no mercado nacional. Sem tempo hábil ou sem recursos para uma compra de emergência, alguns hospitais já enfrentam desabastecimento do quimioterápico actinomicina-D, e ao menos 5.000 pacientes correm risco de ter a terapia interrompida. Entre os tumores tratados com o medicamento está o sarcoma de Ewing, o segundo mais frequente na infância e adolescência. O ofício do ministério tem data de 7 de dezembro, mas, por conta das festas de fim de ano e da mudança nos governos estaduais, muitas instituições só souberam da decisão no início deste mês. "Muita gente nem recebeu o comunicado oficial, ficou sabendo pelas comunidades médicas. Mesmo que hospitais queiram comprar agora, tem a burocracia envolvida na importação, que pode levar seis meses", diz Cláudio Galvão de Castro Júnior, presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica. Leonardo Vilela, presidente do Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde), diz que a mudança abrupta não permite que os hospitais, especialmente os públicos, façam a reposição imediata. Ainda em dezembro, no dia 20, Vilela encaminhou um ofício ao Ministério da Saúde sugerindo que a pasta estabelecesse um cronograma de transição, mas não teve resposta nem da gestão anterior nem da atual. "Pegou todo mundo de surpresa. Isso foi feito de forma brusca unilateral, sem nenhum diálogo", diz ele. O desabastecimento se agravou a partir de 2015, quando o laboratório Bagó, único que comercializava o medicamento no país, deixou de fazê-lo. Desde então, o Ministério da Saúde passou a importá-lo e fornecê-lo às secretarias estaduais de saúde, que repassa aos hospitais oncológicos. Para Antonio Braga, presidente da Associação Brasileira de Doença Trofoblástica Gestacional, repassar a importação aos hospitais oncológicos é inexequível, considerando o descompasso entre o valor pago pela importação e o repasse de verbas feito pelo SUS para custear o medicamento. "A situação é temerária. Os pacientes têm necessidade urgente de tratamento ininterrupto. São neoplasias amplamente curáveis com a actinomicina-D", afirmou em comunicado enviado às sociedades médicas que lidam com tumores tratados com a droga. Em nota, o Ministério da Saúde diz que a compra e a distribuição da dactinomicina, assim como o dos outros antineoplásicos, é de responsabilidade dos hospitais oncológicos do SUS. Mas que, em 2017, devido as restrições do mercado, a pasta centralizou temporariamente a aquisição. A actnomicina-D faz parte de uma série de outros medicamentos antigos que estão desaparecendo do mercado por serem muito baratos e, por isso, não despertam mais o interesse das farmacêuticas por causa dos problemas de distribuição, legislação, carga tributária e problemas nas plantas de fabricação. Segundo Castro Júnior, os substitutos dessas drogas, quando existem, são muito caros. Um exemplo é a bleomicina, fundamental no tratamento do linfoma de Hodgkin, que custava R$ 240 e que sumiu do mercado. Seu substituto é o brentuximabe, que custa R$ 18 mil. Também houve problemas com a L-asparaginase, que ficou em falta e depois houve a importação de um produto que testes diversos mostraram que não funcionava. O desabastecimento também afeta o Bactrin injetável para pacientes com pneumocistose ou bactérias multirresistentes. O problema de desabastecimento desses medicamentos baratos e essenciais é mundial. Em 2011, o presidente Barack Obama, tornou a resolução desse problema algo prioritário. Mas, no Brasil, a falta só se agrava. "Temos denunciado isso há uma década, mas nada de concreto foi feito", diz Castro Júnior. MEDICAMENTO É USADO PARA TRATAR CINCO TUMORES: - Tumores de Wilms Têm início nos rins e é muito rara em adultos. A idade média no diagnóstico é de 3 a 4 anos. Muitas vezes crescem e alcançam grandes volumes antes de serem percebidos. Há chances de cura para mais de 90% dos tumores de Wilms - Raddomiossarcoma De origem embrionária, é mais comum em crianças. Normalmente se forma nos músculos esqueléticos, mas também pode afetar cabeça, pescoço e órgãos urinários e reprodutivos. Representa cerca de 3% dos cânceres infantis. Crianças de um a nove anos tendem a ter um prognóstico melhor - Sarcoma de Ewing É o segundo tumor ósseo mais frequente na infância. Pode também surgir em tecidos de partes moles. Pacientes com doença localizada têm sobrevida em torno de 70% a 80%. Os sintomas iniciais incluem inchaço na área do tumor, dor óssea, perda de peso e cansaço - Tumores de células germinativas Podem ser benignos ou malignos. Ocorrem dentro das gônadas (ovários ou testículos), mas também fora delas. Representam 3,3% dos tumores malignos na infância. Pacientes com doença localizada têm entre 80 e 90% de sobrevida - Neoplasia trofoblástica gestacional Pode ter origem na gravidez, no local onde a placenta se liga ao revestimento do útero. A taxa de cura pode chegar até a 100% nos casos que são descobertos precocemente

Fonte: Diario de Cuiabá

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