Diario de Cuiabá

Quinta-feira, 25 de Junho de 2020, 05h:54

Betty Faria: "Sou uma sobrevivente de droga, sexo e rock and roll"

Atriz fala do sucesso de "Tieta", diz que é preciso "desempacar" o cinema nacional e, aos 79 anos, conta ser "uma velhinha careta"

MARIA FONTANA
Da Agência Globo - Rio

Assim que "Tieta" entrou no Globoplay, no último dia 8, foi parar nos trending topics do Twitter. A novela (de Aguinaldo Silva, Ricardo Linhares e Ana Maria Moretzsohn) também foi o conteúdo on demand mais consumido da plataforma de streaming na semana passada. Betty Faria, intérprete da personagem que simboliza a luta feminina por liberdade e bota abaixo preconceitos, falsos moralismos e diferenças de cor e de gênero, arrisca uma explicação sobre o sucesso do folhetim mais de 30 anos depois de seu lançamento, em 1989.

— "Tieta" continua atualíssima — diz a atriz. — Além de mostrar que só o amor constrói, traz solidariedade, união, tudo que o Brasil está precisando lembrar. É um alento para o coração.

Aos 79 anos, que completou em maio, durante a quarentena, Betty passa o isolamento em seu apartamento no Leblon. Tem como companhia a neta Giulia, 17 anos, e a cadela Madalena. Ativa nas redes sociais, tem feito lives e compartilhado memes de Tieta. Também usa o tempo para rever filmes da sua vasta coleção de DVDs. Entre eles, o que a fez decidir ser atriz: "La strada", de Federico Fellini ("tinha 15 anos e saí do cinema com a certeza de que faria isso da vida").

Com 24 longas no currículo (além de 43 novelas, cinco minisséries e 14 peças de teatro), ela rodaria "A dama" com Cacá Diegues, que a dirigiu em "Bye, bye, Brasil" (1980), no ano passado. Mas o projeto não foi adiante. Nesta entrevista, feita por Zoom, Betty lamenta a atual situação "empacada" do cinema brasileiro, conta que sonha interpretar a mãe de um transexual, e diz que, depois de uma vida de curtição, tornou-se "uma velhinha careta".

 

P - O que tem passado pela sua cabeça durante a quarentena?

BETTY FARIA - Penso muito nesse Brasil que estou desconhecendo, com as pessoas divididas, se xingando. O Brasil da dona de casa que botou o filho da empregada no elevador para se livrar dele. O Brasil de um "homem de bem" que não respeita a dor de um pobre homenageando o filho morto pela peste e derruba cruzes com raiva. O país andou para trás, as pessoas estão doentes para além da pandemia, inseguras, com medo. Por que tanto ódio? Esse Brasil atual me assusta. Ao mesmo tempo, estou em casa vendo filmes e pensando no cinema brasileiro.

 

P - Que já passava por uma crise pré-pandemia, com corte de verbas, e agora está totalmente parado...

BETTY FARIA - Em 2015, nosso cinema deu uma receita maravilhosa. Ano passado, esteve em vários festivais internacionais. Aí, ficou absolutamente empacado. A Ancine, paralisada. Sou amante do cinema, fui criada vendo filmes da Metro, musicais europeus. Me dói saber que há cerca de 350 mil trabalhadores do audiovisual brasileiros desempregados, passando fome. É preciso esclarecer que o cinema usa verba do Condecine, dinheiro arrecadado do próprio cinema. Temos que acabar com a má fama dos artistas. Isso foi uma tática de desmoralização, gerou uma onda de antipatia. O público se engana pensando que mamamos nas tetas do governo.

 

P - Como enxerga o futuro do cinema pós-pandemia?

BETTY FARIA - A primeira coisa é fazer com que a indústria, que, praticamente, parou de dois anos para cá, volte a funcionar. Depois, pensamos se vai ser streaming, drive-in ou na esquina mesmo. O que sei é que essa situação me deixa muito abalada. Como diz o Gabeira, precisamos fazer a luta amada. Por isso que "Tieta" está chegando...

 

P - "Tieta" dialoga com assuntos que estão no centro do debate contemporâneo. A novela continua atual mesmo após 30 anos?

BETTY FARIA - Nesse Brasil atual, com tanta desgraça e morte, é um alento no coração das pessoas, que se divertem e pensam. "Tieta" traz amor, solidariedade, união, coisas que o Brasil está precisando lembrar. Fora que os atores estão lindos e maravilhosos, a novela toda é um pacote bem-sucedido.

 

P - O que teve que interromper por causa da pandemia?

BETTY FARIA - Meu sonhos. Estava elaborando sobre o caminho que quero seguir. Vim de uma novela boa ("A dona do pedaço", de Walcyr Carrasco), estava pensando em fazer série. Teatro, não. Para fazer teatro, tenho que estar muito mobilizada, se não coloco em dúvida a minha vocação (risos). Tenho preguiça de sair de casa, ir para lá num domingo de sol. Gosto de televisão. Quando entro no set de gravação, me divirto. Mas agora não sei quando a Globo vai poder chamar os velhinhos, a terceira idade, que dá trabalho, é grupo de risco...

 

P - Críticos disseram que você e Marco Nanini, que compunha o seu núcleo em "A dona do pedaço", estavam sendo mal aproveitados na novela...

BETTY FARIA - Quando se aceita fazer uma participação, tem que estar pronto para qualquer coisa. No fim, minha personagem ficou bem engraçadinha.

 

P - Sonha interpretar um tipo de personagem em especial?

BETTY FARIA - A mãe de uma travesti ou transexual. Como são, psicologicamente e emocionalmente, as mães de filhos que passam por tanto sofrimento, preconceito e violência? Tieta era amiga da Rogéria, eu era amiga da Rogéria. Fiquei feliz em trazê-la para a novela, ela ia gravar feliz.

 

P - Como avalia a nomeação de Mario Frias como secretário da Cultura e a passagem de Regina Duarte pelo mesmo cargo?

BETTY FARIA - Não o conheço e nem sei qual o projeto dele para a Cultura. Regina já apanhou muito, não quero mais falar. Somos colegas, já trabalhamos e nos cruzamos em várias fases da vida particular e profissional. É preciso parar com esse negócio de esquerda e direita e botar gente competente e não incompetentes dustruindo tudo. Na Cinemateca de São Paulo, por exemplo, tem que ser alguém que entenda de cinema. Cada macaco no seu galho.

 

P - O que acha do governo Bolsonaro?

BETTY FARIA - Já falei de cinema, de cultura... O que não falei foi do extermínio dos índios, do desmatamento da Amazônia. Sou contra estar sempre brigando, pensando em armas. A gente não precisa de arma, precisa de paz para tocar a vida, ser feliz, crescer, cuidar da ciência, respeitar os professores, o estudo. O que tem que ser proibido é criança levando tiro dentro de casa na favela.

 

P - Você sempre foi uma mulher livre, amiga de Leila Diniz. Tem uma foto famosa de vocês duas dando um selinho... Após muita luta, as mulheres conseguiram liberdade sexual, emprego, etc. Depois de meio século de feminismo, o que falta conquistar na sua opinião?

BETTY FARIA - Depende de cada sociedade. Mas os homens precisam nos respeitar mais. Começa por gostar da mãe, né? (risos). A mulher sofre porque ficou responsável pelo sustento da família, pela educação dos filhos, pela casa... O ideal é repartir com os homens. Isso no caso da mulher mãe. Mas a solteira, a jovem, precisa de proteção, respeito, consideração e de um olhar mais carinhoso. A sociedade precisa gostar mais das mulheres.

 

P - E nos deixar envelhecer em paz, não é? Você, por exemplo, em 2013, aos 72 anos, foi criticada por usar biquíni na praia...

BETTY FARIA - Quem fez isso é atrasado, sem noção! Todo mundo envelhece. Falaram: "Olha a velha". São uns babacas, tenho até pena de quem pensa assim. Mas mulheres também dão força... Homem não aceita mulher baranga, mas tem um monte de mulher que aceita homem barrigudo. Temos que nos impor. Por que, em nosso processo de autoestima, precisamos nos sentir sempre jovens? Se nos darmos ao respeito, tipo "goste de mim quem quiser", a coisa muda. Torço por menos dessa cobrança alucinante. Esse espicha tudo é algo bem brasileiro. Na Europa, as mulheres envelhecem mais confortavelmente. Quero é ser uma velhinha jeitosa, cheirosinha.

 

P - Sofreu muito assédio ao longo da carreira, como lidava?

BETTY FARIA - Não digo "sofri" porque não sou vítima, mas passei por muito assédio e soube sobreviver a ele. Todas as mulheres bonitas e gostosas da minha geração passaram por assédio. Eu me saía bem. Não tinha essa coisa de ficar fazendo escândalo. Você sofria e via o que fazia com aquilo, negociava com você mesma. Há assédio desagradável, cafajeste, de todos os tipos. Aprendi alguns jogos de cintura. Com uns, me aborreci, com outros, tomei atitudes mais sérias.

 

P - Em 2016, você contou que fumava maconha. Ainda fuma?

BETTY FARIA - Sou uma velhinha saudável, careta, não me drogo, não bebo, nem um cigarrinho eu fumo. Estive na Europa agora e vi produtos medicinais, acho ótimo que a Anvisa esteja liberando o cannabidiol para fazer remédios, é um avanço. Como o nosso presidente gosta muito do Trump, podia imitá-lo nisso, né? (risos). Com minha idade, estou bonitinha, saudável, posso dizer que sou uma sobrevivente de tudo, de droga, sexo e rock and roll. E faço sucesso com "Tieta"...

 

P - Você também se queixou de que ninguém falava mais de José Wilker, Claudio Marzo, Hugo Carvana, seus amigos. Tem medo de ser esquecida?

BETTY FARIA - Penso nisso de uma maneira fria e tranquila. Porque Wilker e Claudio foram tão famosos, atores maravilhosos. Morreu, acabou. Nesse momento, estou lutando pela cultura do Brasil, para gente não perder de vez a memória de tudo que foi feito. E eles são reflexo disso. Quero ver retrospectiva de filmes com Claudio Marzo, com Wilker... Isso faz parte da nossa cultura, não se pode destruir.

 

P - Se arrepende de algo?

BETTY FARIA - Me arrependo seriamente de uma coisa na minha vida particular que prefiro não falar. Quem não se arrepende é burro e repete o mesmo erro. Os trabalhos que não aceitei foi porque meu coração não queria. Se eu não gostasse do "paulinho", não ia trabalhar com ele e ponto. A Viúva Porcina, por exemplo, eu a detestava (Betty interpretou a personagem na primeira versão de "Roque santeiro", censurada em 1975, e, quando a novela foi retomada, ela recusou o papel). Eu a achava uma escrota, com aquele homem... Eu gostava da Tieta, que era do bem.

 

P - Drummond disse que o amor começa tarde, que é privilégio dos maduros. Concorda com isso? Está amando atualmente?

BETTY FARIA - Amor de homem e mulher, não. Estou amando as pessoas. Mas eu não concordo com isso sobre o amor maduro. Acho que ele chega em todas as épocas, idades, gerações. Enquanto eu estiver viva, posso amar, me apaixonar, fazer papel de ridícula.

 

P - O tesão continua às vésperas dos 80 anos?

BETTY FARIA - Jane Fonda fala sobre isso de uma forma interessante no livro "Prime time". Tenho visto na Internet, personalidades e celebridades que falam de sua intimidade e sexualidade com um despudoramento tão grande que fico abismada. Minha mãe diria "que falta de classe" (risos). Não existe a coisa guardada que havia na minha geração. Meus amigos não eram assim. Não acho gostoso falar sobre isso. São minhas intimidades, não abro mão. Além de ser obrigação minha para não comprometer as pessoas que conviveram ou convivem com a minha intimidade. Eu as protejo. Sabe como se chama isso lá em Copacabana (bairro onde a atriz foi criada)? Come quieto (risos).

 

P - Dizem que o seu casamento com Daniel Filho terminou porque você teria pulado a cerca...

BETTY FARIA - Ele é meu amigo, a gente se gosta muito. É avô dos meus netos, me indica filmes para ver. Pelo meio do caminho podemos ter feitos bobagens, mas foram insignificantes diante do nosso caminho e amor eterno. 


Fonte: Diario de Cuiabá

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