Diario de Cuiabá

Quinta-feira, 02 de Julho de 2020, 00h:00

Entenda o "novo normal" dos clichês, e por que precisamos nos "reinventar na crise" para explicar a pandemia

Em momentos de insegurança, frases feitas podem ser perigosas, mas também reconfortantes

BOLÍVAR TORRES
Da Agência Globo - Rio

Quantas vezes você já leu ou ouviu, desde o início da pandemia, que é preciso “se reinventar na crise”? Ou, então, que estamos vivendo um “novo normal”? De tão repetidas nos últimos meses, algumas frases já viraram clichês e são usadas para explicar qualquer situação. Cresceu um galho a mais na árvore da esquina? É “a natureza retomando seu espaço”. O consumo vem mudando durante a quarentena? É porque “não sairemos iguais” dessa crise.

Frases feitas são tentadoras porque decretam falsas verdades em um tempo em que todo mundo anda compreensivelmente confuso — e acabam chegando, inclusive, a estas e outras páginas que tentam dar conta do que estamos vivendo. Diante de um vírus ainda pouco conhecido e um mundo que tenta se adaptar a ele, os chavões podem trazer um efeito reconfortante.

O que é, inclusive, uma das funções da língua, acredita a socióloga Isa Grinspum Ferraz, atual curadora do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo:

— O clichê ajuda a enquadrar o que não entendemos, como se ele apaziguasse a nossa própria insegurança. É normal que as pessoas tentem se apoiar em ideias já esboçadas. O problema é que muitos desses clichês são vazios e tendem a se esgotam muito rápido.

Autor de “O pai dos burros", dicionário de 5.400 frases feitas e lugares-comuns, o jornalista e escritor Humberto Werneck acredita que o clima de incerteza abriu um terreno fértil para a proliferação de clichês. Com a impossibilidade de voltar a uma vida normal, as pessoas se socorrem em avaliações que parecem mais um desejo do que uma realidade.

— Numa ponta, há os que cruzam os dedos e apostam no improvável ou mesmo no impossível. Na outra, o pessoal que dá de ombros, como se negar qualquer esperança significasse lucidez — observa o escritor.

Um bom exemplo seria a frase “Sairemos maiores dessa...”, que Werneck elegeu como a mais representativa da crise.

— No fundo, ninguém acredita mesmo nessa ideia, mas quem haveria de aceitar passar por tudo isso para chegar do outro lado do mesmíssimo tamanho? — indaga ele. — Os clichês nos desobrigam a pensar. Estão ali, prontinhos, como se cada um deles correspondesse a uma tecla do computador. Com eles você não brilha, mas também não se compromete.

 

Atento às idiossincrasias da nossa língua e autor de livros como “Viva a língua brasileira!” e “What língua is esta?”, o escritor e jornalista Sérgio Rodrigues separa os clichês em diferentes categorias.

Há, por exemplo, aqueles que servem para “levantar a moral” e que parecem saídos de um livro de autoajuda. Mas há também aqueles que se pretendem mais analíticos, ou até mesmo vanguardistas. Esses têm se espalhado como álcool gel em tempos de coronavírus. Quem os adota tem a ilusão de estar falando algo muito profundo quando, na verdade, está falando nada, alerta Rodrigues.

— O clichê mais perigoso nesse momento é o “novo normal”: é uma tentativa de normalizar um troço que não sabemos o que é — avalia. — Não sabemos o que será o normal do pós-pandemia, nem sabemos se terá um pós. As pessoas acabam pensando que, só porque algo é muito repetido, deve ser verdade, que deve ter algum valor social.

O chavão, porém, vai fatalmente aparecer em uma conversa. É uma tendência do ser humano, pontua Sérgio, e o mais importante é não ser ingênuo diante dele.

— É preciso fugir do clichê como o diabo foge da cruz. O que também é um clichê — brinca o escritor.

No século XIX, o escritor francês Gustave Flaubert percebeu que o lugar-comum é uma ótima lupa para entender a sociedade em que vivemos e, até a sua morte, em 1880, passou a recolher e explicar aforismos e outros chavões usados na França. O esforço acabou virando o seu hilário “Dicionário de ideias feitas”, publicado postumamente em 1913. Apesar de servir como um espelho de seu tempo, o livro tem frases que são usadas até hoje (como, por exemplo, “Feliz: nasceu virado para a lua”, que o autor define como “Não sabemos o que isso significa, e nosso interlocutor também não”).

Seguindo esta linha, o que um dicionário dos lugares-comuns da crise sanitária poderá mostrar às gerações futuras? Para a psicanalista Maria Homem, que lançará em breve pela Todavia um livro sobre luto e ansiedade na pandemia, os termos refletem um profundo desejo de um retorno à norma. Ou, como ela explica: “Uma linha mestre que ordenaria o caos do real”.

— Jogamos um “já-saber” dentro do vazio e buscamos, às vezes de forma rápida demais, reorganizar o que é disruptivo — diz a psicanalista. — A ferramenta que nos vem à mão é o pensamento já conhecido e sua face comunitária: a linguagem, sobretudo em seus formatos pré-concebidos. O clichê, esse grande condensador de sentido. 


Fonte: Diario de Cuiabá

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