Diario de Cuiabá

Sábado, 01 de Agosto de 2020, 00h:00

O Brasil terá clubes hegemônicos, como acontece na Europa?

País, que chegou a ter nove campeões nacionais diferentes nos anos 1980, nunca teve uma década de tanta concentração de conquistas como a que se encerrará neste ano

JOÃO PEDRO FONSECA
Da Agência Globo - Rio

O futebol brasileiro não escapará do processo de concentração de riquezas e, consequentemente, de títulos que vigora na Europa. Na verdade, os clubes daqui já estão inseridos nesse contexto, e os reflexos ficarão cada vez mais claros.

Um olhar para os recentes vencedores do Brasileirão dá o tom dessa transformação. O país, que chegou a ter nove campeões nacionais diferentes nos anos 1980, nunca teve uma década de tanta concentração de conquistas como a que se encerrará neste ano. Caso a Série A de 2020 seja vencida por Flamengo, Fluminense, Corinthians ou Palmeiras, serão apenas cinco campeões diferentes no período — o outro foi o Cruzeiro, que neste ano jogará a Série B.

Se o recorte for apenas a segunda metade da década, fica ainda mais clara a relação entre a capacidade de investimento e o sucesso esportivo. O Palmeiras, primeiro, e o Flamengo, mais recentemente, colhem os frutos da reorganização administrativa que se dispuseram a encarar.

Arrumar a casa é o primeiro passo para que um clube atinja seu potencial, mas não basta para que se torne um campeão recorrente. Especialistas ouvidos pela reportagem identificam quatro brasileiros que devem concentrar a maior parte das taças disputadas daqui para frente: o rubro-negro e o trio de ferro paulista.

“O Flamengo vai continuar se destacando, porque tem fôlego financeiro. Mas não será sozinho. Tem o Palmeiras brigando forte, e há clubes com características parecidas, como São Paulo e Corinthians, que podem acompanhar”,aposta o economista do Itaú BBA Cesar Grafietti, especialista em finanças e esportes.

O que eles têm em comum é o grande contingente de torcedores e, no caso dos paulistas, o fato de estarem no principal mercado do país. Resta a Corinthians e São Paulo superarem os graves problemas de gestão.

EMERGENTES - Como na Europa, por aqui o que está por trás do potencial de cada clube é a capacidade de gerar receitas em várias frentes, desde contratos de publicidade até direitos de transmissão, passando por programas de sócio-torcedor e bilheteria.

“Uns 40% da receita do futebol vêm da televisão. Mas, ainda que ela seja a maior fonte de financiamento, há outros 60% que seguem regras variadas de mercado. O Flamengo faz mais dinheiro com patrocinador, com bilheteria...”, explica o jornalista Rodrigo Capelo, que tem um blog sobre finanças e futebol no Ge.

Por muitos anos, potenciais hegemonias no Brasil foram sabotadas por gestões irresponsáveis em um ambiente caótico. Os pequenos ciclos de dominação se limitaram a aspectos técnicos, como mostra o Cruzeiro, bicampeão em 2013 e 2014 e rebaixado para a Segunda Divisão no ano passado sob dívidas imensuráveis.

A medida que o futebol se fortalece como negócio, torna-se claro que é impossível dissociar o domínio esportivo do financeiro.

“A análise de que o futebol é cíclico é superficial. O processo de concentração de riquezas está em curso e já impede que muita gente conquiste títulos”, analisa Capelo. “Claro que o Flamengo pode não ser campeão em 2020, mas vai brigar. Os dados financeiros indicam uma probabilidade, não uma garantia”.

Se esse contexto pune clubes tradicionais afundados por más gestões, oferece a outros a chance de ascensão, como indica Grafietti: “O fim do ano passado marcou uma mudança na estrutura de forças dos clubes. Hoje, Athletico, Bahia e Ceará, por exemplo, têm mais capacidade de atrair atletas e pagar salários do que Botafogo, Fluminense, Vasco e Cruzeiro”.

O tricolor baiano, presidido por Guilherme Bellintani, praticamente triplicou as receitas nos últimos cinco anos e se recusou a dar passos maiores que a perna.

Embora o dirigente ache precoce prever hegemonias, ele acredita na alternância de forças: “Queremos tornar o Bahia maior do ponto de vista econômico. Essa curva ascendente, combinada com uma descendente de outros clubes, pode fazer com que o panorama seja muito modificado nos próximos anos”.

REVISÃO - Embora o desequilíbrio financeiro já dê as caras, o cenário brasileiro ainda não reproduz as discrepâncias europeias. O Flamengo, cujo 2019 foi turbinado por conquistas, teve receita bruta de R$ 950 milhões e, efetivamente, embolsou R$ 841 milhões — 40% a mais do que o Palmeiras (R$ 617 milhões), em segundo.

Na França, o PSG faturou mais que o dobro do Lyon: 659 milhões a 309 milhões de euros. Já na Itália, a Juventus fechou a temporada 2018/2019 com vantagem ainda maior sobre os rivais na arrecadação. Foram 622 milhões de euros, contra 241 milhões do Milan e 233 milhões da Internazionale.

A tendência, porém, é a de que o abismo nacional se amplie. A diferença no topo da pirâmide já é maior que a da Inglaterra. Por lá, a receita do Manchester United foi de 627 milhões de libras, apenas 20% superior às de Manchester City e Liverpool: 535 milhões e 533 milhões, respectivamente.

As perspectivas a curto prazo se tornaram mais nebulosas por conta da pandemia do novo coronavírus, mas é certo que os clubes sairão machucados da crise. Iniciativas como a do Botafogo, que busca investidores para o projeto de S/A, ganham um novo empecilho.

Conforme o dinheiro se consolida como motor do jogo, restam aos clubes a boa gestão e uma saudável revisão de expectativas, como sugere Bellintani: “As pessoas não torcem pelo Bahia apenas por triunfos. Torcem porque amam. Ser o principal time do Brasil não é a única saída para todos. Saber onde a mão alcança é fundamental”.

 


Fonte: Diario de Cuiabá

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