Diario de Cuiabá

Sábado, 17 de Outubro de 2020, 00h:00

De Epitácio Pessoa a Bolsonaro: uso político da seleção é prática quase centenária

Historiadores comparam saudação ao presidente durante transmissão de jogo com outros momentos

CAROL KNOPLOCH, IGOR SIQUEIRA E RAFAEL OLIVEIRA
Da Agência Globo - Rio

A vitória do Brasil sobre o Peru gerou debates que vão muito além das estratégias de Tite para fazer o ataque voltar a ser eficiente e do aproveitamento de Neymar. A transmissão do jogo pela TV Brasil — uma emissora pública — foi marcada por saudações ao presidente Jair Bolsonaro e pela propaganda do governo federal. O episódio se converteu em mais um capítulo da longa história de uso político da seleção brasileira por governos.

É comum presidentes se aproximarem do time verde-e-amarelo. O próprio Bolsonaro já havia feito isso no ano passado. Visitou Neymar no hospital após o jogador lesionar o tornozelo e, na Copa América, entregou as medalhas para os jogadores durante a cerimônia de premiação. Mas, na opinião de historiadores, sua promoção no jogo contra os peruanos representou um passo além.

"Nenhum presidente, nem mesmo na ditadura, entrou no meio de uma transmissão de TV ou foi saudado durante ela. As partidas da seleção em 1970 foram transmitidas por um pool de emissoras. Cada tempo era dividido em dois para que trocasse o locutor e o comentarista e todos esses canais pudessem participar", afirma Flávio de Campos, professor da pós-graduação em História Sociocultural do Futebol na Universidade de São Paulo (USP).

Durante a transmissão, o narrador da TV Brasil mandou um abraço em nome do secretário-executivo do Ministério de Comunicações, Fábio Wajngarten, para o presidente da CBF, Rogério Caboclo, e para outros dirigentes da entidade, agradecendo pelo presente. Foi a confederação que adquiriu os direitos da partida e compartilhou com a emissora pública, além de ter feito a transmissão em seu site com outra narração.

Em seguida, o narrador da TV Brasil mandou um abraço para Jair Bolsonaro. A saudação foi repetida no segundo tempo.

"Este tipo de conduta lembra a exploração política dos governos militares, em particular do ditador Médici (o general Emílio Garrastazu Médici), na Copa de 1970, no México. Este é um canal público e não do governo e serviu aos interesses do governo", comentou o especialista em comunicação pública João Batista de Abreu, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF).

João Batista alerta para o fato da saudação ao presidente ter ferido a Lei 11.652, de abril de 2008, que institui os princípios e objetivos dos serviços de radiodifusão pública explorados pelo Poder Executivo ou outorgados a entidades de sua administração indireta, e que diz que “é vedada qualquer forma de proselitismo na programação das emissoras públicas de radiodifusão”.

Procurada pela reportagem, a Secretaria de Comunicação do Governo não se pronunciou. Sua resposta será incluída assim que for enviada.

 

Epitácio Pessoa foi o primeiro

No Brasil, o uso político da seleção é quase centenário. De acordo com os historiadores, a primeira tentativa de apropriação se deu com Epitácio Pessoa, em 1921. O então presidente enviou carta à Confederação Brasileira de Desportos (antecessora da CBF) solicitando que ela não convocasse negros para o Sul-americano do Chile.

"Era uma época em que o processo civilizatório passava pelo embranquecimento da população. E o futebol era uma forma de representar a identidade nacional para o mundo", explica Fernando Luiz Vale Castro, professor do Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

A partir da Copa de 1938 que a instrumentalização ganha força. Getúlio Vargas nomeia sua filha Alzira como madrinha da seleção e o governo contrata um locutor oficial para narrar os jogos. A seleção vira uma peça-chave no projeto de construção da identidade nacional, numa época em que a miscigenação já era tratada com orgulho.

Em 1950, é a vez de Eurico Gaspar Dutra usar a Copa do Mundo no Brasil para consolidar a ideia de um país imponente, capaz de sediar eventos de caráter global. E a seleção brasileira não escapou. À medida que ela avançava no torneio, a concentração era invadida por políticos.

Os títulos mundiais são especialmente explorados por Juscelino Kubitschek (em 1958) e pela ditadura (em 1970). É o governo militar que realiza uma experiência única na história da seleção: a do aparelhamento da comissão técnica.

"Nas Copas de 70, de 74 e, principalmente, de 78, as comissões são praticamente constituídas por militares. O técnico é um capitão do exército", complementa Campos, referindo-se a Cláudio Coutinho, treinador no Mundial da Argentina.

A partir dos anos 1980, essa apropriação perde força. A seleção passa a ser apenas instrumento para transferência de popularidade. Visitas ou recepções aos jogadores foram feitas por presidentes de todos os espectros políticos: de Fernando Henrique a Lula que, em 2004, ainda a utilizou para diplomacia internacional ao ao promover o amistoso no Haiti. Nesta longa lista de governantes, Bolsonaro é o membro mais recente.

"No mesmo dia em que o STJD puniu a Carol Solberg (do vôlei de praia) por gritar “Fora, Bolsonaro” uma TV pública saudou o presidente durante o jogo. É de uma incoerência enorme. Esse é um dos problemas de se tratar o esporte como espaço apolítico. Porque esse apoliticismo só interessa aos dirigentes, que sabem fazer isso e que sempre fizeram", opina Marcel Tonini, historiador pela USP e editor do site Ludopédio.

Em 2017, a CBF já tinha usado a TV Brasil para transmitir amistosos contra Austrália e Argentina. Desta vez, a negociação ocorreu ao longo da terça-feira.

Líder das Eliminatórias Sul-Americanas , com duas vitórias em dois jogos, a seleção brasileira volta a campo em novembro para dois duelos: contra Venezuela, em casa, e Uruguai, fora. Este último também não possui uma definição sobre transmissão na TV aberta. A CBF não se coloca como candidata à compra dos direitos mais uma vez. Mas a atitude da última terça indica que ela pode se mexer de novo.

 


Fonte: Diario de Cuiabá

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